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Tentando explicar a treta entre EUA e Irã

As origens do conflito que domina o noticiário neste início de 2020

07/01/2020 16h10 - Por Redação MBL

Pelo começo

Até o início do séc XX, era um monte de tribos dominadas pelo Império Otomano. A primeira Guerra Mundial chegou, o Império colapsou e algumas dessas tribos acabaram dominando grandes partes de terra. Uma dessas tribos, a al-Saud, dominou boa parte da península arábica e foi reconhecida como Reino da Arábia Saudita.

Alguns anos depois, descobriu-se na região, campos de petróleo gigantescos, tornando a Arábia Saudita rica e despertando interesse de outras nações do mundo, como os EUA, que logo tratou de formar uma aliança com os sauditas.

Não muito longe dali, o Irã, também montado em petróleo, sofria com instabilidades internas, além de ter sido invadido por Rússia e Inglaterra duas vezes em menos de um século. Em 1951, Mossadegh, um nacionalista que defendia a nacionalização do petróleo iraniano, em oposição ao domínio britânico, é eleito primeiro-ministro com alta popularidade.

Lembrando que os dois países são de maioria muçulmana, mas os sauditas são sunitas, e os iranianos mais xiitas, isso vai fazer diferença lá pra frente.

A influência sobre o petróleo no país e o medo da então União Soviética formar uma aliança com o Irã e ameaçar outros países do Oriente Médio levam EUA e Inglaterra, segundo documentos da própria CIA, a apoiar a deposição de Mohammed Reza Shah no país, em 1953.

Uma série de reformas seculares é feita e o Irá adota uma política pró-Ocidente. O governo aliado aos EUA dura quase 3 décadas, até que em 1979 a revolução iraniana derruba a monarquia e instaura a República Islâmica no lugar.

O líder religioso Ayatollah Ruhollah Khomeini vira líder supremo do Irã e adota políticas anti-Ocidente. Sua ascensão ao poder também vira uma ameaça a outras famílias reais do Oriente Médio, como a própria Arábia Saudita. Os sauditas ficam com medo que a revolução iraniana fosse exportada.

Os dois países então iniciam uma guerra fria financiando e apoiando governos, milícias e golpes em países menores da região, como o Afeganistão, o Iraque, Kuwait e Bahrain. Os sauditas então recorrem aos EUA e se tornam os maiores compradores de armas dos americanos. A tensão, que já era grande desde o golpe de 1953, escala ainda mais.

A coisa piora quando na década de 80 o Iraque, já na ditadura de Saddam Hussein, pede ajuda da Arábia Saudita e dos EUA para conter avanços da revolução islâmica. Iraquianos tentam invadir o Irá, dá tudo errado em terra e aí as coisas vão para o mar.

O plano do Iraque era simples: bloquearia navios petroleiros iranianos no golfo pérsico, causando forte impacto na economia do país vizinho para vencer a guerra. O Irã responde na mesma moeda contra o Iraque e todos os seus aliados incluindo a Arábia Saudita. Cerca de 20% de todo o petróleo do mundo circula pelo golfo pérsico e a tensão na região fez o preço da gasolina quadruplicar nos EUA, fazendo com que os americanos participem diretamente da treta pela primeira vez: escoltando navios petroleiros na região.

A presença de tropas dos EUA dá um resultado óbvio: uma bomba iraniana afunda um navio americano; e um míssil americano atinge e derruba um avião do Irã. Esse conflito acaba ainda na década de 80.

Ainda na década de 80, o Irã funda a Força Quds, que será responsável por organizar, treinar, equipar e financiar grupos e movimentos revolucionários islâmicos estrangeiros. A Quds é apontada como a responsável pela criação do Hezbollah no Líbano, do Hamas e a Jihad Islâmica na Palestina, os Houthis no Iêmen e as milícias xiitas no Iraque, Síria e Afeganistão.

Em 2002, os EUA, já com Bush, invadem o Iraque e depõe Saddam Hussein. Mas a ação americana deixa um vácuo de poder no país. As milícias patrocinadas pelo Irã iniciam um conflito contra grupos apoiados por sauditas e o caos volta na região.

Alguns anos mais tarde, essa guerra fria entre Arábia Saudita e Irã cresce exponencialmente com os dois lados apoiando e patrocinando movimentos revolucionários até o Norte da África e sempre importante lembrar: os EUA continuam por trás dos sauditas durante este tempo todo.

Paralelamente a isso, a administração de Bush aponta que o Irã começa a desenvolver armas nucleares, mas é durante a gestão Obama que o assunto é tratado com mais agressividade: em 2011, os EUA anunciam sanções contra o petróleo iraniano como forma de pressionar o país a parar os esforços de obter armas nucleares.

As exportações do Irã despencam. Eles respondem ameaçando fechar todo o golfo pérsico, bloqueando o petróleo de todos os países da região e os conflitos voltam a acontecer entre navios americanos e iranianos.

Quatro anos mais tarde, o governo Obama anuncia um acordo nuclear com Irã: o país aceitaria dar um passo atrás no programa nuclear e ter suas usinas monitoradas; em troca, as sanções americanas seriam derrubadas. As exportações de petróleo voltam e a economia iraniana dispara mais de 10% em 2016. Mas aí, no mesmo ano, um novo líder é eleito nos EUA.

Trump anuncia, em 2018, a saída dos EUA do acordo nuclear com o Irã. Ele argumenta que o péssimo acordo fechado por Obama nada resolve o patrocínio iraniano a grupos terroristas na região. Trump também anuncia que considerará a Guarda Revolucionária do Irã uma organização terrorista.

As sanções americanas voltam a atingir o Irã e sua economia volta a despencar. O Irã responde retomando o conflito no conflito no golfo pérsico, atacando navios britânicos, noruegueses a japoneses. Além disso apresenta novo sistema de mísseis de longa distância e quebra limites de enriquecimento de urânio.

O jogo é lá e cá: os EUA anunciam mais sanções contra o Irã, e milícias apoiadas pelo Irã no Iêmen decidem atacar oleodutos na Arábia Saudita. Um drone americano é derrubado em junho de 2019 e, nos últimos dias do ano, 30 foguetes atingem uma base militar iraquiana matando um empreiteiro a serviço dos EUA e ferindo outros 4 americanos.

Alguns dias mais tarde, já em 2020, os EUA respondem com o ataque que movimentou a internet neste começo de ano: um drone americano mata Qassem Soleinami, general da Guarda Revolucionária do Irã e comandante da Força Quds há mais de 20 anos. Soleimani era um dos homens mais poderosos do Irã, sendo muito próximo ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

Os EUA acusaram Soleimani de preparar mais um ataque que colocaria a vida de centenas de americanos em risco. O general também teria sido responsável por organizar outros atentados a americanos no Iraque, além da invasão à embaixada americana no país. Após sua morte, o Irã ameaça retaliar os EUA com mais ataques e Trump já foi ao Twitter anunciar que tem uma lista de mais 52 alvos iranianos prontos para serem atacados caso algum americano seja atacado.