Pará
Prefeito de Santarém diz que fogo foi para vender lotes e que há “policiais por trás”

Em áudio enviado para o governado, prefeito de Santarém diz ter consciência de que a área do incêndio era um local de invasores

03/12/2019 22h05

Em uma gravação de áudio, publicado pela Repórter Brasil, o prefeito de Santarém, Nélio Aguiar (DEM), relata, no dia 15 de setembro, ao governador do estado do Pará, Hélder Barbalho (MDB), que as queimadas ocorridas em Alter do Chão, na região do Lago Verde, foram motivadas por “gente tocando fogo para depois fazer loteamento, vender terreno” e que esses indivíduos tinham o amparo de policiais.

A causa da conversa foi o pedido de apoio do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar, pois segundo o prefeito tinha “policial por trás, o povo lá anda armado” e que precisava “identificar esses criminosos”. 

Fala do prefeito completa:

“Governador, bom dia. A Sema (Secretária Municipal de Meio Ambiente) municipal já tá envolvida, mas essa área é uma área de invasores, [inaudível] Tem policial por trás, o povo lá anda armado, o bombeiro só tá com a brigada, o bombeiro não tá indo lá, já falei pro Coronel Tito que precisa ir o bombeiro e combater o fogo, logo, imediatamente, tá muito seco, muito sol e a Polícia Militar, a companhia ambiental, tem que ir junto, armada, para identificar esses criminosos, isso é gente tocando fogo para depois querer fazer loteamento, vender terreno, prender uns líderes desses, esses criminosos aí e acabar com essa situação, mas a gente precisa de apoio do Corpo de Bombeiros?”

A motivação do fogo, apontado pelo prefeito, bate de frente com a da Polícia Civil que após inquérito apontou que os incêndios teriam como causa o lucro de membros de uma ONG (Organização Não Governamental), Brigada de Incêndio Florestal de Alter do Chão, através das doações ditas para combate das queimadas. Quatro integrantes dessa organização foram presos no dia 26 de novembro.

A prisão produziu reações de organizações da sociedade civil e de autoridades, muitos apontaram que o inquérito não era conclusivo e que a Polícia Civil afirmou crimes sem provas reais, o que mais tarde foi reafirmado pelo Ministério Público Federal. Até a imparcialidade do juiz, que decretou a prisão, Alexandre Rizzi foi contestada, Alexandre já atuou como advogado de uma madeireira da sua família e criticou, em 1994, o Greenpeace por ações na cidade.

No dia 28 de novembro, os brigadistas foram soltos, a pedido do mesmo juiz que autorizou a prisão, no mesmo dia que o governador do Estado trocou o delegado responsável pelo caso e o Ministério Público pediu acesso as investigações. Mesmo livres, os suspeitos não podem estar nas ruas das 21h às 6h e também estão proibidos, sem autorização, deixar a cidade por um período maior que 15 dias. Além disso, ainda terão que entregar seus passaportes à Justiça e se apresentar, mensalmente, a sede da Justiça de Santarém.

Após a grande repercussão dos áudios, o prefeito se pronunciou, em entrevista a Repórter Brasil, dizendo que a conversa era verdadeira e que Barbalho respondeu rapidamente enviando a Policia Militar, o Corpo de Bombeiros e soldados do Exército para o local das queimadas. Entretanto, ressalvou que não cabia a ele fazer qualquer julgamento e que não havia afirmado quem teria colocado fogo na floresta, que não é esse o papel do executivo. Aguiar ainda acrescentou que pediu a Polícia Civil e Polícia Federal que averiguassem a grilagem e a venda de loteamentos, de maneira criminosa, na região do Lago Verde.

Posteriormente, o governo do Pará também confirmou a veracidade do áudio do prefeito de Santarém. Segundo o Governador Hélder Barbalho, todos os recursos foram disponibilizados para combate aos incêndios, até mesmo aeronaves especializadas em queimadas florestais. Hélder Barbalho também acrescentou que a troca do delegado ocorreu devido ao novo ter a especialização em crimes ambientais, diferentemente do antigo.

Gestor, Ativista Político e Líder do Movimento Brasil Livre - MBL Pará