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Polícia Militar x Traficantes: Quem matou os 9 inocentes de Paraisópolis?

Divergências entre os depoimentos das testemunhas e da PM colocam em dúvida a real motivação da tragédia

03/12/2019 17h13 - Por Orlando Neto

(Foto:El País)

A Polícia Civil está investigando a PM por ação em baile funk que teria causado a morte de nove pessoas e a hospitalização de 12 neste domingo (1º). A tragédia aconteceu durante uma perseguição policial na comunidade de Paraisópolis, zona sul da cidade de São Paulo, durante o “Baile da 17”.
Segundo a PM, os dois suspeitos atiraram contra uma unidade da ROCAM que patrulhava o local durante a “Operação Pancadão” e fugiram para o local da festa.

De acordo com o registro da polícia civil, os dois suspeitos se misturaram em meio à multidão que participava do baile. As equipes de força tática chamadas para dar apoio foram recebidas a pedradas e garrafadas; as vítimas, por sua vez, foram pisoteadas após o tumulto causado pela “ação de controle de distúrbios civis” (termo usado para se referir a prática de dispersar multidões) e o uso de armamento químico.

As nove vítimas, em sua maioria adolescentes, foram socorridas e encaminhadas ao Hospital do Campo Limpo, após a primeira tentativa de socorro feita pelos próprios moradores locais.

A versão das testemunhas, que contraria a história contada pela PM, diz que a polícia teria cercado o local, bloqueando os acessos e invadido o baile, atirando com armas de fogo, balas de borracha e bombas de gás, o que causou o estouro da multidão que se deslocou as vielas estreitas do local, onde vários caíram , sendo pisoteados e agredidos pelos policiais militares. Foram divulgados alguns vídeos onde eles desferiam golpes nos frequentadores do baile com socos e cassetetes. As gravações estão sendo periciadas a fim de determinar a data e o local onde foram capturadas.

Os bailes funk têm sido duramente combatidos, mas sem resultados efetivos, por agentes do Estado devido a denúncias por uso indiscriminado de entorpecentes, armas ilegais, brigas, estupros e prostituição infantil, além das falhas de segurança desses eventos que ocorrem sem qualquer vistoria ou anuência dos poderes públicos. , contudo arrebanham milhares de jovens da periferia.Segundo um balanço realizado pela PM a pedido do portal de notícias G1, apenas neste ano já foram realizadas 7,5 mil operações contra os pancadões em todo o estado, com o intuito de prevenir a realizações dos bailes ocupando os espaços públicos antes que os bailes se iniciem. Segundo a PM, até o dia 1º de dezembro foram feitas 874 prisões, 76 apresentações de adolescentes, 1,8 toneladas de drogas e 77 armas apreendidas.

A operação em questão, acionada via Copom (portanto, de caráter imediato), não fez uso de um maior aparato de inteligência policial, que poderia provavelmente antever a crise na magnitude que atingiu. O resultado foi catastrófico: nove inocentes mortos e uma indignação crescente por parte dos moradores da favela contra o despreparo da polícia.

Cabe o questionamento: quem são os verdadeiros responsáveis? Para que se chegue a uma resposta, alguns fatos devem ser analisados:
Paraisópolis é a segunda maior comunidade de São Paulo, contando com cerca de 90 mil habitantes. Sua zona fronteiriça com a região do Morumbi, somada às sub residências, vielas e becos onde veículos muitas vezes não entram, a fazem uma das comunidades mais atrativas para o crime organizado.

A prefeitura é omissa no caso dos “pancadões”, não ocupa o espaço público das comunidades carentes, não promove ações de cultura e lazer a contento dos jovens dessas localidades e não fiscaliza eventos desse porte que, em número de pessoas, só se comparam ao carnaval de rua! Todo e qualquer evento desse porte deve ter licença da prefeitura, da PM e dos bombeiros, alvarás e estrutura de apoio adequada. A ausência desses requisitos entrega aos traficantes e ao crime organizado o monopólio do divertimento nas favelas de São Paulo.

Por outro lado, para analisar a conduta desastrosa da PM neste caso, precisamos falar sobre a responsabilidade do Estado e a falta de ações preventivas, para então chegarmos na ação policial de fato.

A política atual da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tenta surfar na onda da opinião pública que levou Jair Bolsonaro à presidência e Wilson Witzel ao governo do Rio de Janeiro. Não há uma real preocupação com os índices de letalidade policial em confronto. O que existe é um populismo barato, onde o discurso do “bandido bom é bandido morto” resulta em muitos votos, mas não dá uma solução real para o problema da política de segurança do Brasil.

As operações em comunidades carentes tendem a ser mais violentas e precárias em estratégias que garantam a integridade física dos moradores locais.

O maior problema vem à tona quando quem não está participando do combate, seja criminoso ou policial, é alvejado ou sofre algum tipo de violência em razão da incursão do Estado.

Por um lado, os criminosos devem ser perseguidos, processados e punidos. Por outro, as vidas inocentes devem ser preservadas. Como seria possível prender os bandidos sem machucar o cidadão de bem neste caso?
Também é necessário entender que a PM adentrou a um núcleo de periferia em número muito baixo de policiais que, com isso, se viram obrigados a agir em situação de emergência. Ações como essa quase sempre geram resultados trágicos com perdas de vidas humanas inocentes, resultado do despreparo evidente e da falta de condições de trabalho oferecidas a força policial do Estado.

Onde está o serviço de inteligência que deveria amparar e instruir em tempo real os policiais envolvidos acerca dos eventos que ocorrem na respectiva circunscrição de atuação, e melhor instrumentalizar a ação com recursos humanos, materiais e estratégicos condizentes?

É de conhecimento do Estado (e de todos) que nos pancadões, em meio à algazarra e música alta, se embrenham vários crimes, tais quais porte de armas, receptação, tráfico de entorpecentes, estupros e vias de fato com resultados graves, e que, portanto, devem ser combatidos duramente.

Porém, esse combate não precisa ser realizado durante o evento. É necessária uma persecução preventiva, que coíba o financiamento do tráfico através desses bailes antes que eles aconteçam.

Não esqueçamos que a Força Tática, grupo de elite da PMSP, perdeu o Sargento Ruas no interior da favela acerca de um mês durante troca de tiros, e as equipes que intensificam as ações na região tendem a agir com mais rigor até por cautela de estar em menor número num local que geograficamente favorece o revide, abrigo e/ou evasão do criminoso. Neste caso vale um questionamento: Está havendo, por parte da PM, alguma retaliação a morte do Sargento?

Ao mesmo tempo em que o governo tucano de João Dória se utiliza das ações policiais positivas para auto prestigio, a tragédia do Baile da 17 no Paraisópolis denuncia a falta grave do Estado em relação aos serviços de inteligência, que poderiam ter sido utilizados em benefício dos policiais e dos civis, e nas políticas sociais que se eficazes fossem, retirariam jovens desses eventos perigosos.

Não se pode deixar de mencionar que, através da coleta de dados dos próprios agentes policiais, sejam militares e civis, existe sim uma grande e crescente crise nas forças de segurança de São Paulo, e sindicatos correlatos denunciam um efetivo muito aquém do aceitável, falta de planejamento, estrutura e vontade política de verdadeiramente “arrumar a casa”. Alguns mais radicais alegam que uma política de segurança eficaz inexiste no Estado há dois decênios de PSDB. Salários pouco atraentes e que chegam a um terço do que se paga a um policial em outros Estados geram a evasão de mentes experientes e que poderiam contribuir muito justamente onde a falha se mantém presente, nos setores de inteligência.

E o governador João Doria? O “João trabalhador” neste caso vem a público manifestar apoio as tropas e as isentar de qualquer culpa pelas mortes em Paraisópolis, acobertando a ineficiência da sua administração e o sucateamento da segurança pública do Estado, enquanto joga o assunto para a plateia, numa clara tática de autopromoção , visando a presidência da republica em 2022, expondo à própria sorte a população de bem que está à mercê do crime e dependente de uma policia despreparada, mal paga, com numero reduzido de agentes e sem qualquer estrutura mínima de trabalho.

O final dessa história será o mesmo de tantas outras do passado: os policiais que cometeram os erros serão afastados, o governador irá dizer que o problema está resolvido e a estrutura da PM continuará precária e ineficiente por tempo indeterminado.

No fim, temos mais culpados do que vítimas.

Revisores: Lucas Mehero e Cynthia Capucho

Fontes:El País, Polícia Militar de SP e Portal G1