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Mandela: Herói ou terrorista?

Críticos do movimento tentam descreditar a tese com ad hominem e argumentos simplórios

21/02/2020 11h18

Neste mês, em que se comemora os 30 anos da libertação de Nelson Mandela, críticos do MBL ficaram estupefatos com o posicionamento do movimento em relação ao líder político.

Mesmo já tendo respondido às críticas, alguns jornalistas e colunistas insistem em descreditar a argumentação do MBL apelando para ad hominem, chamando os defensores da tese de “jovens millennials”.

Bom, pensando nisso, fizemos um vídeo no formato ficheiro explicando de forma mais didática nosso argumento. Veja:

Veja também o texto da tese na íntegra:

Contexto histórico geral

Neste ficheiro vamos expor alguns fatos a respeito de Nelson Mandela para tentar resolver a questão: herói ou terrorista? A conclusão mostrará que nem tudo é tão simples assim.

Ao falar de Mandela, não devemos reduzir a discussão nem em sua luta contra o regime autoritário que o transformou em mártir, nem tratar de seus atos dissociados do contexto em que foram praticados.

Em texto na Gazeta do Povo, Filipe Figueiredo diz: “[o] governo do apartheid chamava Mandela de terrorista”. A impressão que ele passa nesse trecho é de que o fato de a alcunha partir dos vilões da história, ela deve ser ignorada, não deve ser investigada. Um espírito investigativo não pode se satisfazer por uma mera redução dos fatos às narrativas oficiais ou extraoficiais.

Não existe análise razoável nesse movimento pendular que tenta pintar ora um vilão execrável e descontextualizado, ora um herói imaculado da liberdade que capitaneia as injustiças raciais contra os negros na história.

Primeiro, é importante conhecer o contexto histórico das ações de Mandela, o que significa entender o governo sul-africano em todo seu período e, particularmente, em sua fase mais nefasta: a consolidação legal do apartheid, iniciada pela ‘Lei de Proibição de Casamentos Mistos’, promulgada em 1949, pelo agora defunto e então-recém eleito Partido Nacional.

Em 1652, os holandeses fundaram a colônia do Cabo, no local onde hoje é a África do Sul.  No fim do século XVIII, os britânicos conquistaram aquela região e começaram a promover a migração de seus cidadãos para o local.

Todo esse longo período foi marcado por questões como escravidão, segregação, disputas de poder e riquezas como ouro entre os britânicos e holandeses, com a população negra como pano de fundo, sofrendo com esses atritos.

Em 1910 os bôeres – que é como ficaram conhecidos os descendentes de colonos neerlandeses – e os britânicos consumaram um acordo, após os bôeres terem sido derrotados, que culminou na criação da União Sul-Africana.

Já Mandela, nasceu em 1918, estudou direito na Universidade de Fort Hare e trabalhou como advogado em Johanesburgo, onde se envolveu na política, defendendo pautas de nacionalismo africano e anticolonialismo. Ele ingressou no Congresso Nacional Africano, o CNA, em 1943 e co-fundou a Liga da Juventude do partido em 1944.

Depois da já citada consolidação legal do apartheid, Mandela e os seus correligionários do CNA se comprometeram a derrubar o governo segregacionista.

Aqui, é muito importante que a gente enfatize como os anseios de Mandela e do CNA são completamente mandatórios para um liberal. Afinal, é a liberdade que está em jogo aqui. O apartheid era injusto, uma afronta à liberdade e o combate a isso é compatível com qualquer noção liberal de democracia e justiça.

No livro Liberalismo, um dos autores mais populares da nova direita, Ludwig von Mises, não poupa ataques ao colonialismo das potências européias, que com razão ele condena como sendo bárbaro, desumano e bestial. Com a mesma força com que ataca comunistas e nazistas, Mises mostra a face negra do neocolonialismo das grandes potências ocidentais, em especial França e Inglaterra.

Sendo assim, o combate a um regime segregacionista e colonial é uma pauta justa, da perspectiva liberal. Mas a aí vem a segunda pergunta, que surge: esse combate pode ser a qualquer custo?

Bom, aproveitando a menção de Santo Tomás de Aquino no já citado texto de Filipe, tragamos aqui uma citação do Doutor Angélico:

Acontece frequentemente de um homem agir com uma boa intenção, mas sem ganho espiritual, porque lhe falta uma boa vontade. Digamos que alguém rouba para alimentar os pobres: neste caso, mesmo que a intenção seja boa, lhe falta a retidão da vontade. Consequentemente, nenhum mal feito com uma boa intenção pode ser desculpado.

Esse é o ponto de partida para que entendamos como se deve dar uma luta pela liberdade e porquê não devemos tapar os olhos para o que ocorre como meio de busca por essa condição.

Mas o que era afinal o tal CNA?

O partido, de nome Congresso Nacional Africano, o CNA, perdeu sua legalidade em 1960, após o trágico massacre de Sharpeville, em que 69 africanos negros foram mortos pela polícia. Um ato que, justificadamente, provocou os maiores sentimentos de raiva daqueles que lutavam contra o apartheid. O Estado, usando de sua força bruta para dispersar uma multidão na base da metralhadora – isso é revoltante por si só. Mas o ódio não pode nos fazer cegos e é importante entender o que veio depois disso.

O evento foi o estopim da tentativa pacífica do CNA de lidar com o governo do apartheid. A partir daí, o CNA passou a ter uma frente armada organizada, o MK, cujo nome traduzido é “Lança da Nação”, também co-fundada por Mandela. Essa frente organizou diversos ataques contra alvos militares, industriais e civis, utilizando-se de bombardeios em diversas ocasiões.

O derramamento de sangue

Aqui vão uma série de incidentes causados pela Lança da Nação:

O atentado de Church Street, em que um ataque de carro-bomba matou 19 pessoas e deixou 217 feridas em Pretória em 1983.

O atentado na costa sul da província de Natal, em Amanzimtoti, onde 5 civis morreram e 40 ficaram feridos por um explosivo colocado em uma lata de lixo em um shopping numa véspera de Natal em 1985. Detalhe, o CNA julgou tal ato terrorista como “compreensível” anos depois.

O atentado em um bar de Durban, com uma bomba matando 3 civis e ferindo 69 em 1986.

Os atentados em Johanesburgo, matando policiais e um civil em 1987.

Além disso tudo, de 1985 à 1987, o grupo colocava bombas em estradas nas zonas rurais da província de Transvaal. O grupo parou com isso em 1987. A razão? Morriam civis demais. (Como se um civil morto já não fosse demais…)

A Comissão de Verdade e Reconciliação concluiu que o uso de tortura pelo uMkhonto we Sizwe era rotina, assim como execuções sem o devido processo legal nos campos de detenção do CNA.

Essa escalada em tensões e causalidades civis se deu no contexto da prisão de Mandela  em 1962, e seu julgamento que se deu nos dois anos seguintes.

A falha de Mandela em condenar as perdas civis nesse processo de aumento da violência é notável. Mandela ganhou fama nos anos 80, enquanto ocorriam atentados cada vez mais destrutivos por parte do seu grupo. Sua fama não foi usada para condenar esse processo retroalimentativo de aumento da violência, mas sim para trazer luz a sua causa. Um uso moral incompleto da sua oportunidade internacional nesse período.

Inclusive, mesmo quando lhe foi oferecida a liberdade pelo então presidente Pieter Botha, em 1985, sob a condição de renunciar ao uso da violência como um meio legítimo de resistência, Mandela recusou, preferindo continuar silencioso sobre as mortes civis causadas pela Lança da Nação.

Mandela certamente não é um indivíduo que possa ser demonizado ou santificado. É um humano que muito fez – e muito deixou de fazer quando deveria. A canonização de um símbolo perde essas nuances e faz com que a análise histórica e biográfica do sujeito vire uma disputa ideológica impensada.

Mandela figurou como membro do Partido Comunista Sul-Africano, que recebeu extensivo financiamento e treinamento pela União Soviética durante os anos 70 e 80. A sua história tem guinadas para a liberdade e não deve ser esquecida. Mas os aspectos que causam repulsa e que mostram que a falsa sensação de uma pureza de um símbolo revolucionário é de fato falsa não podem jamais ser colocados de baixo do tapete. Ou iremos normalizar a justificação do uso de qualquer meio para um fim nobre.

Mesmo que precisemos lembrar da louvável atitude não vingativa de Mandela em negociar a paz após a saída da prisão, o que veio depois não foram só flores. Longe disso. Por exemplo, não devemos esquecer o seu silêncio sobre ditaduras como a cubana. E nem o seu ato, em 1997, de premiar e vangloriar o ditador da Líbia, Muammar Gaddafi. Nem esquecer o seu apoio ao líder corrupto da Indonésia, Suharto, que aliás promoveu um genocídio de comunistas. Em sua presidência, Mandela falhou em trazer atenção ao grave problema da AIDS no seu país simplesmente por não ter sido um tema popular – trazendo graves consequências para a região.

É irônico também notar alguns culparem o liberalismo pela desigualdade na África, quando Mandela nacionalizou indústrias, de bancos a mineradoras, durante o seu período como presidente, o que frustrou as expectativas dele de alcançar mais equidade na distribuição de renda, ao contrário do que imaginava com essa receita.

Imaginamos que seja difícil para alguns lidar com nuances, mas a trajetória de Mandela nos ensina isso: heróis canonizados revelam as suas manchas quanto mais se tenta escondê-las, acreditando que elas não existem e que uma causa bela não pode ter sido manchada por nada – ou pior, passasse a acreditar que as manchas são JUSTIFICADAS pelo bem maior.

Martin Luther King e Ghandi não podem ser colocados no mesmo rol desse homem – ainda que consideremos as CAUSAS de cada um desses três grandes nomes da história como justas e verdadeiramente alinhadas a liberdade.

Resumindo, as manchas de sangue racistas do governo que instaurou e perpetuou o apartheid não devem cair sob nossos olhos a ponto de ignorarmos a crueldade do grupo terrorista que Mandela criou e considerou como justo em todo seu período preso. Nenhuma vida inocente deve ser esquecida e é um desserviço a tais vidas perpetuar um Mandela heroico e imaculado.

Um olhar liberal sobre os fatos

A revolução francesa destituiu o Ancién Regime. A revolução cubana derrubou a ditadura de Fulgencio Batista. A revolução russa destronou o czar Nicolau II e sua monarquia absolutista.

É preciso explicitar tanto a injustiça envolta nos regimes destituídos quanto as barbáries, muitas vezes sangrentas, que permeiam suas derrubadas.

Não é querer defender a permanência de regimes repudiáveis por qualquer pessoa sensata — e particularmente repudiável pelo liberalismo em virtude da afronta à liberdade representada por tais regimes; É sim, na verdade, querer tratar todos sem desculpas ad hoc, avaliando sempre pelos princípios firmes que fundamentam o liberalismo.

O direito à revolta existe e é parte importante do pensamento liberal, mas ele de forma alguma existe descontextualizado de uma defesa paralela aos direito individuais à vida, propriedade e liberdade.

E é por isso que ações contra inocentes, tortura, depredações e o caos incitado por revoluções sangrentas que ignoram “friend or foe” não ganham um passe livre moral, nem deixam de ser execráveis por si mesmas.

Nem o pacifismo ingênuo nem a relativização da violência têm vez no pensamento liberal.

A prudência, objeto de análise tão caro de Edmund Burke em suas “Reflexões Sobre a Revolução na França” atua como o meio termo entre esses extremos, sempre nos apontando para os excessos e reafirmando o papel da razão em qualquer análise política baseada na valorização racional da liberdade.

É a meta de não-subserviência ao personalismo e ao populismo que dita a trilha do liberalismo.

Tempos recentes, de lulistas à bolsonaristas, nos mostram o quão frágil é essa estrada. Persistir sem sucumbir aos endeusamentos e vilanizações acríticas é o que o liberalismo nos exige.

A liberdade não precisa de rosto. Ela se sustenta racionalmente sem apelar a populismos e degenerações sangrentas como o modus operandi abjeto de Mandela.

Não devemos nos apegar a ídolos; mas sim às ideias.

Que fique a lição de que elencar homens como símbolos da luta pela liberdade é, não só um erro fatal, mas o mais distante do liberalismo que podemos chegar.

Bacharelando em Relações Internacionais. Produzo artigos no Neoiluminismo.com. Um sionista entusiasta da filosofia.