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Influencer tira a própria vida após ser abandonada no altar e atacada nas redes sociais. A busca por likes substituiu nossa humanidade?

Nossas opiniões estão edificando ou implodindo?

16/07/2019 19h18

Uma notícia trágica que viralizou no dia de hoje (16) nos faz parar por um momento e refletir: como foi que chegamos a tal ponto?

A atriz e influencer Alinne Araujo, de 24 anos, cometeu suicídio na noite de ontem, segunda-feira (15), após ter sido abandonada pelo noivo – através de uma mensagem por whatsapp – apenas um dia antes de subir no altar.

Histórias de amor frustradas, infelizmente, acontecem todos os dias. Mas qual a proporção de um coração partido quando a nossa vida é colocada por nós mesmos na mira dos holofotes?

A conta no Instagram de Alinne contabiliza mais de 300 mil seguidores e, não fossem pelos comentários dos últimos dois dias, pareceria uma conta perfeitamente normal onde os momentos são eternizados através de lentes cor de rosa.

Lá ainda estão as declarações de amor feitas ao noivo, as fotos com seu cachorrinho e momentos alegres junto aos amigos. Superficialmente não podemos ver o lado sombrio das críticas, mas ele está lá, entre os milhares de comentários.

Durante algum erro de percurso na história da humanidade, nós, os espectadores da vida alheia através de stories no Instagram nos sentimos aptos a atuar como críticos: julgamos e condenamos as atitudes alheias como se fosse um crime sem vítimas. Como se nossos comentários fossem incapazes de infligir dor, como se as pessoas naquelas fotos e vídeos não passassem de manequins em uma vitrine.

Alinne compartilhou com seus seguidores o que, muito provavelmente, foi o momento mais difícil de sua vida. Talvez estivesse em busca de apoio ou se sentisse na obrigação de apresentar satisfações sobre a boda tão aguardada.

“Vcs sabem a dor de confiar em alguém cegamente e achar que encontrou o companheiro da vida é um dia antes da celebração do amor de vcs a pessoa some. Manda uma msg pelo wpp e termina tds os sonhos de vcs, fui pega de surpresa, quis morrer, ele smp soube da minha condição e não se importou em como eu estaria. Eu recebi a notícia estava dirigindo, tive uma crise no volante, larguei meu carro e me atirei numa via expressa, mas papai do céu e bom e me salvou mais uma vez. Poderia ficar aqui chorando, mas tem uma festa linda me esperando, então hj caso cmg mesmo em nome da minha vida nova. Me desejem sorte. Amo vcs ❤️”, escreveu a atriz em sua conta.

Ainda que a situação de ser abandonada pelo companheiro fosse motivo suficiente para que seus problemas fossem tratados com respeito, Alinne usava sua rede social para falar abertamente sua luta com a depressão e a ansiedade. A atriz fez um vídeo emocionante onde confessou tentativa de suicídio, há cerca de 3 meses, mas isso não parece ter suscitado simpatia de seus seguidores.

Após o choque com a atitude do noivo, a influencer tomou a decisão de manter a festa de casamento e “casar consigo mesma”, segundo suas próprias palavras: em nome da minha vida nova.

Aparentemente, manter a festa e estar na presença de amigos e familiares foi a forma que a atriz encontrou de superar a tragédia, entretanto, não foi assim que muitos de seus seguidores leram a situação. Comentários depreciativos, que acusavam a Alinne de ter criado uma estratégia de marketing, estar buscando autopromoção, almejar os famosos “5 minutos de fama”. Os termos “fanfiqueira” e “biscoiteira” também foram usados exaustivamente por comentaristas da vida alheia.

Será que antes de apertar a tecla Enter, algum dos internautas se colocou no lugar da atriz ou apenas pensaram nos possíveis likes que poderiam angariar?

Se Alinne buscava conforto, com certeza não teve seu espírito confortado por meio das redes sociais. Mas isso acontece? Em algum momento podemos contar com cometários positivos de estranhos na internet para sentirmo-nos melhor? É triste, mas uma ferramenta que poderia ser usada de forma positiva acaba por espalhar – na maior parte do tempo – apenas veneno.

A influencer deixou um recado em sua conta, onde pedia que os amigos e seguidores deixassem o ex-noivo em paz, pois ainda se importava muito com ele e ele era uma boa pessoa.

Mas parece que o recado de Alinne não foi interpretado corretamente. Suas redes seguem abarrotadas de comentários que consistem em apontar culpados pela sua morte: os comentários depreciativos, o noivo? Qual a intenção por trás de tais acusações? Que os culpados pelos comentários negativos feitos à Alinne sofram agora o que ela sofreu? A consciência deles não seria punição suficiente? Quantos mais precisariam se jogar do nono andar antes que as pessoas parem com as acusações inúteis?

E para os que estão culpando o noivo desde o início do texto: realmente temos como saber as circunstâncias que levaram ao desfecho? Quem somos nós para julgar os motivos que findaram uma vida que não é nossa? E agora, sequer é.

Apenas mais uma entusiasta política cheia de opiniões não solicitadas.