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EDITORIAL: NOVO CONGRESSO E A DINÂMICA DO CAOS

Será com fogo e guerra – e não com acordos – que o governo pretende atuar.

04/02/2019 13h56

Cenas lamentáveis e fortes emoções. A eleição da presidência do Senado representou mais um retrocesso político e moral num legislativo cada vez mais combalido. A várzea protagonizada por Renan Calheiros, Davi Alcolumbre e Kátia Abreu — coroada pela intervenção de Dias Toffoli e o vai e vem de Flávio Bolsonaro — demonstrou que estabilidade e construção de consenso não estão na ordem do dia no debate político nacional.

Renan precisava ser derrotado. Disso ninguém discorda. O modelo de enfrentamento adotado por Onyx e Alcolumbre, porém, deixará sequelas políticas que demandarão tempo — e diálogo — para serem sanadas. Perde quem imaginava a composição de maioria baseada em cooptação para facilitar as reformas. Analistas do mercado financeiro terão que refazer seus relatórios.

O governo poderia ter bancado candidatura de outro nome que não Alcolumbre; Tebet e Jereissati teriam amplas condições de derrotar Calheiros, em especial com a estratégia do voto aberto, já pleiteada pelo MBL. A insistência de Onyx em seu correligionário denota que o cerne da questão não é a maioria para a previdência — conforme demandado por Guedes — mas a consecução de um projeto político ainda fora do radar dos analistas.

Onyx pretende inaugurar um modelo de ação política baseado na pressão popular e no enfrentamento com o Centrão. Críticas à parte, está coerente com o discurso adotado durante a campanha. O uso da pressão nas redes sociais, acompanhado de postura firme e resoluta nas negociações políticas, é pleito não apenas de Onyx, mas da ala ideológica que enxerga o governo atual como uma cruzada.

Desde a transição, não houve movimentações no sentido de ampliar a base parlamentar governista. Pior: liderado pela “direita xing-ling”, o próprio partido do presidente cindiu-se em alas conflitantes. Nomeou-se um líder de governo novato e desconhecido; pouco ou nenhum esforço foi feito no debate sobre a presidência da Câmara. Enquanto analistas procuram respostas em suas fórmulas antigas, a articulação política singra novos mares baseada nas estratégias que os levaram ao poder.

Alcolumbre é importante pois poderá acolher pedidos de impeachment contra ministros do supremo. O ódio de Renan Calheiros é importante pois desenha um horizonte polarizado. As gritas por cargos na Câmara servirão de impulso na cruzada por moralização, e o pacote anticrime de Moro dividirá “mocinhos e bandidos” no Congresso. Lorenzoni e os ideológicos querem o caos e a desmoralização de seus adversários, além de blitzkrieg implacável contra a velha política. É assim que pretendem governar sem concessões.

Esse grupo político já pleiteou golpe militar em 2014; contrariados pela inação da caserna, demandaram uma “intervenção popular”. Não rolou. Anos mais tarde, foram entusiastas e fomentadores da “revolução caminhoneira”, pá de cal nas pretensões de Michel Temer e do centro político. Liderados por Eduardo Bolsonaro, e sob a batuta de Olavo de Carvalho, configuram-se como a ala mais influente da nova gestão. Entre pendores revolucionários e a inovação na condução política, darão um tom incompreensível para os bitolados na velha lógica. Serão tempos caóticos — e divertidos — na política brasileira.

Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.