Editorial
Danilo Gentili: A piada mortal

Se a comédia representa o que há de mais absurdo no mundo, o Brasil é uma grande piada

25/02/2020 20h15

Imagine que você faz parte de um universo de histórias em quadrinhos, sua existência serve apenas para entreter seres que estão muito além da sua compreensão. Todavia, os outros personagens não sabem disso, apenas você. Saber disso te deixará louco em pouco tempo.

E se o Coringa dos quadrinhos era apenas um personagem que entendeu sua existência feita de caneta e tinta? A única maneira de lidar com aquele mundo onde as pessoas acreditavam cegamente em seus valores e ídolos, era recorrer à loucura. O bobo da corte é um personagem deveras interessante, sua figura traz o mais profundo reflexo da sociedade: a insanidade.

Parafraseando o personagem Vaas (Fer Cry 3): “qual a sua definição de insanidade?”. Poderíamos dizer que Danilo Gentili, um dos maiores humoristas da atualidade, é a representação desse estado mental. Tema do carnaval, o apresentador foi atacado por todos os lados após fazer uma piada com o corpo de Bruna Marquezine. Seria essa a piada mortal? Claro que não, a piada mortal é o próprio Gentili.

O humorista não seleciona alvos, ele sempre ataca onde mais dói, sem piedade. Mas não é um ataque desnecessário, é uma forma de desconstruir ídolos e crenças como o politicamente correto, feminismo ou até mesmo o grande mito: Jair Bolsonaro. Inclusive, o Renan Santos gravou um vídeo interessantíssimo sobre o assunto: acesse aqui:

Adaptando a ideia do “Coringa lúcido” para nossa realidade, Gentili apenas entendeu o status quo. Toda loucura da sociedade, da cultura e da política formaram um muro perante o nosso Coringa.

Se o humor é o que há de mais absurdo no mundo, a realidade brasileira se tornou uma grande piada, e para conseguir viver com isso, basta ser uma representação da loucura da própria sociedade. Não, Gentili não é a definição de insanidade, esta é a sociedade. Se Camus pudesse resumir tudo isso em poucas palavras, diria que para enfrentar o absurdo, é necessário abraçá-lo.

Abraçar o absurdo é um ato de revolta. Quando o humorista faz isso, ele é odiado pela esquerda, pela direita, centro, baixo etc. Mas ainda assim é um dos maiores humoristas do Brasil. Portanto, quem gosta do Danilo? Aqueles que entenderam o motivo da revolta. Algo está muito errado e a maneira de fazer as pessoas escutarem é através do absurdo, da comédia e da piada mortal.

Professor de filosofia e diretor de jornalismo do MBL.