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Daniel José: MEC deixa a desejar na comunicação, mas vejo com bons olhos algumas políticas|#ConferênciaMBL

“Embora haja alguns programas bons, o que me alerta é a capacidade de execução deste ministério”, disse.

10/01/2020 01h08

Nobres leitores, reiniciamos o #ConferênciaMBL. Nosso quadro de entrevistas com personalidades da política que irá ao ar toda sexta-feira.

Para comentar as recentes pataquadas do Ministério da Educação, as contas do Estado de São Paulo e o papel de um deputado que respeita o dinheiro dos pagadores de impostos na ALESP, convidamos Daniel José, eleito pelo NOVO em São Paulo. Confira:

1. A educação do Brasil deixou muito a desejar em 2020, com troca de ministros e poucas medidas efetivas para sanar o déficit educacional. Você é membro da comissão de educação e foi o deputado mais votado do NOVO em SP com a bandeira do ensino, hoje, como vê a pasta comandada por Abraham Weintraub?

Daniel José: Vou tentar sair do senso comum de simplesmente criticar ou elogiar o ministro e tentar fazer uma análise mais sóbria. Antes de tudo, é nítido que a comunicação do Ministro é muito falha. O ministro, em muitos casos, cria suas próprias crises e não tem a postura de um ministro da educação que esperamos.

Deixando claro que o ministério deixa muito a desejar na forma de se comunicar, eu vejo com bons olhos algumas políticas. Para ficar em alguns exemplos, o programa future-se – na minha visão – é muito bom. Aproxima a Universidade do Setor Privado, é voluntário, ou seja, apenas as Universidades que quiserem aderirem, irão fazer parte, e traz mais recursos paras as instituições de Ensino.

Outra medida pontual, mas interessante, é a carteirinha de estudante digital que é “gratuita” a partir de agora e acaba com o monopólio da UNE. Antes, o aluno era obrigado a pagar R$ 30 todo ano apenas para ter desconto de estudante e bilhete único de estudante. A partir de agora, não será mais necessária pagar esse valor que iria para UNE e muitos alunos não se sentiam representadas por ela.

Outra medida é o método fônico. Nessa metodologia, se ensina, primeiro, os sons de cada letra para, depois, ao misturar as letras, se chegar à pronúncia completa das palavras. A padronização deste método melhora a alfabetização e consequentemente terá bons impactos no aprendizado do aluno. E também acho uma boa cartilha.

Vale destacar que, embora haja alguns programas bons, o que me alerta é a capacidade de execução deste ministério. O Future-se ainda andou bem pouco, pra não dizer nada. Eu estaria contente se houvesse mais avanço e pudéssemos acompanhar por indicadores.

2. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, escreveu “imprecionante” e virou piada nas redes por erro grotesco de português. O que acha do modelo combativo que o MEC adotou a partir de 2019?

Daniel José: Não gosto. Acho uma perda de energia desnecessária. É verdade que deixamos a desejar muito na Educação. Qualquer fracasso, porém, não começou de agora. O Brasil está caindo no Ranking do PISA há mais de uma década. As Universidades muitas vezes produzem pesquisas sem relevância alguma. Porém, não acho que essa comunicação afrontosa irá resolver esse tipo de questão. Na minha visão ela pode encurtar a vida do Ministro nessa cadeira.

3. O Brasil caiu em ranking mundial de educação em matemática e ciências; e ficou estagnado em leitura. Recentemente, você escreveu artigo sobre a forma como os soviéticos lidaram com o acidente nuclear de Chernobyl e a resistência da USP em aceitar críticas. Há paralelo entre o déficit educacional brasileiro e o modelo das nossas universidades?

Daniel José: Eu acredito que sim. Eu sou membro do conselho consultivo da USP, e toda vez que apresento um ponto de melhoria, sinto uma resistência absurda a qualquer mudança. Não há uma autocritica feita por eles. Como eu disse, é um ambiente parecido com aquele do seriado da HBO, Chernobyl. Em que se esconderam os erros e as verdades eram abafadas. Como melhorar se há uma postura defensiva por parte da alta gestão?

Quando se cria um ambiente de mentiras em que apenas as narrativas vitoriosas podem ser contadas, o resultado é a estagnação e depois o fracasso. E é isso que estamos vendo.

4. São Paulo é estado com maior rombo na Previdência, mas a Justiça suspendeu a tramitação da reforma previdenciária em SP. Quais os desafios para melhorar as contas do estado?

Daniel José: A reforma da previdência é primordial. Eu não consigo entender como alguém vendo um rombo da previdência crescente, acha que se não fizermos os ajustes tudo ficará bem. São Paulo tem atualmente 1,2 milhão servidores públicos, sendo: 2019 – 643 mil funcionários ativos. – 550 mil aposentados e pensionistas. Em 2023, a situação vai se inverter. Haverá 547 mil funcionários ativos e 605 mil aposentados e pensionistas. Teremos cada vez mais aposentados.

Essa conta atualmente não fecha. O Governo gasta com aposentadorias: R$ 34,3 bilhões. Os Servidores contribuem com R$ 4,8 bilhões. Ou seja, há um déficit de ?$ ??,? ?????̃??. E para cobrir o rombo, o governo tira recursos de outras áreas para aposentadorias.

A????? ? ??????? ?? ???????̂???? é CONSEQUENTEMENTE apoiar mais recursos para saúde, educação e segurança.

Pois para cada real gasto em aposentadoria, um real a menos será tirado de uma dessas três áreas.

O restante como enxugamento da máquina, concessões, privatizações, creio que o governo está fazendo. Mas a reforma da previdência é prioridade zero.

5. Eleito pelo NOVO, você é um dos deputados que menos utiliza verbas de gabinete e recusou todos os privilégios. Como é a vida de tentar mudar o panorama político do lado de dentro? Você sofre muita pressão da velha política?

Daniel José: Todos os dias. As coisas são do jeito que são porque geralmente há um motivo. E o que vemos muitas vezes são novos políticos começando a utilizar práticas velhas. Mas nós do novo – e principalmente eu – não negociamos nossos valores.

E, apesar das dificuldades, começamos a ver alguns resultados. Hoje as pessoas nos reconhecem por ter respeito ao dinheiro do pagador de impostos. Como alguns sabem, eu abri mão de carro oficial, segurança parlamentar, auxílio moradia. E dos 23 assessores que posso ter, tenho apenas 8. Tudo isso com um resultado tão bom ou melhor que aqueles que não respeitam o dinheiro da Dona Maria, aquela senhora que mora na Zona Leste de São Paulo, demora 2 horas para chegar ao centro da cidade para entregar currículo e buscar emprego. Nós sempre vamos pensar nestas pessoas antes de gastar mais verba ou propor aumento do Estado.

Deputado Estadual eleito em São Paulo com 183.480 votos. Daniel José é um dos 30 jovens mais influentes pela Forbes, é economista pelo Insper e mestre por Yale.

Acadêmico de Direito, filiado ao Cidadania, Editor do MBL News e Comentarista do Café com MBL.