Butantan divulga resultados da vacinação em massa de Serrana (SP)
'Vacinados causam efeito indireto de proteção a quem ainda não foi imunizado', aponta estudo. Os vacinados ainda serão monitorados pelo estudo por pelo menos 1 ano.

A cidade de Serrana em São Paulo é uma experiência real da vacinação em massa e em tempo hábil. A vacinação na cidade durou 8 semanas para vacinar 95,7% da população adulta com as duas doses, enquanto no restante do Brasil apenas cerca de 15% da população tomou pelo menos a primeira dose. Os dados da vacinação e da incidência da Covid-19 em Serrana foram divulgados na tarde desta segunda-feira (31) em coletiva de imprensa, e mostrou quedas significativas de 95% das mortes, 86% das internações e 80% em casos sintomáticos de COVID-19.

A vacinação em massa em Serrana é um experimento denominado Projeto S, realizado pelo Instituto Butantan para medir a efetividade no mundo real da vacina CoronaVac contra COVID-19, incluindo quão bem ela protege contra variantes do coronavírus. A vacina foi desenvolvida pela Sinovac Biotech, com sede na China. Ele usa uma versão inativada ou "morta" do SARS-CoV-2, o vírus que causa o COVID-19, que não pode causar doenças, mas pode treinar o sistema imunológico do corpo para reconhecer o coronavírus para que possa lutar contra um encontro com o verdadeiro patógeno.

O estudo indica também que, com 75% da população-alvo imunizada com as duas doses da vacina Coronavac, a pandemia foi controlada em Serrana e isso pode se reproduzir em todo o Brasil”, afirmou o Governador de São Paulo, João Doria. “Os resultados demonstram de forma categórica o que poderia estar acontecendo no Brasil inteiro, não fosse o atraso na vacinação. Demonstra também que só existe um caminho para controlar a pandemia: vacina, vacina e vacina para todos os brasileiros”, acrescentou Doria.

Entre as questões que o estudo pretendia responder é se os vacinados protegem os não vacinados, quanto tempo dura sua imunidade e que variantes estão circulando. Os resultados podem mostrar se o impacto da vacinação em massa de Serrana se espalha além dos limites da cidade. Cerca de 15.000 dos 45.000 habitantes de Serrana viajam às cidades da redondeza a trabalho, então veremos como tudo se desenrola com uma população altamente móvel. A população vacinada do município ainda serão monitorados pelo estudo por pelo menos 1 ano para responder a todas essas questões.

Segundo Ricardo Palacios, diretor médico do Instituto Butantan, a pesquisa mostrou que a vacinação protege tanto os adultos imunizados quanto crianças e adolescentes que não receberam a vacina, pelo que ele denominou de efeito indireto da vacinação, comprovando a importância da cobertura vacinal acima dos 70%. A imunização gerou uma espécie de cinturão imunológico em Serrana, reduzindo drasticamente a transmissão do coronavírus no município.

O resultado mais importante foi entender que podemos controlar a pandemia mesmo sem vacinar toda a população. Quando atingida a cobertura de 70% a 75%, a queda na incidência foi percebida até no grupo que ainda não tinha completado o esquema vacinal", disse Palacios. E continuou, "Essa é evidência dessa proteção indireta que tem sido chamada de imunidade de rebanho, mas eu prefiro utilizar o termo imunidade indireta. Quem recebe a vacina também está ajudando a proteger o outro. Essa é a importância de quem tem a oportunidade de se vacinar o faça. Não faça só por você, faça pelo outro", explicou o diretor.

Palacios afirmou também que os idosos (que possuem dificuldade em desenvolver resposta imune mesmo vacinados) também são beneficiados pelo efeito indireto da vacinação, oriunda da alta cobertura vacinal. No fim de abril, 27.160 habitantes haviam recebido a segunda doce, o que significa que 95,7% dos adultos de Serrana estavam totalmente vacinados.

Serrana tinha as características perfeitas para o Projeto S. É relativamente pequeno, com 45.600 habitantes, com cerca de 30.000 adultos. E o vírus estava claramente circulando na comunidade. Um estudo de julho de 2020 “mostrou que 5% da população carregava o vírus ativo - ou seja, uma pessoa em 20, uma taxa muito alta”.

A pesquisa liderada pelo Butantan é aprovada seguiu rígidos critérios éticos e sanitárias e foi efetuado em parceria com a Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e da Prefeitura de Serrana.

O método usado no ensaio clínico é chamado de implementação escalonada por conglomerados (stepped-wedgetrial, na denominação em inglês). A cidade foi dividida em 25 subáreas, formando quatro grandes grupos populacionais (grupos verde, azul, amarelo e cinza) que receberam o imunizante em semanas sucessivas. Como mostra a figura abaixo.

Resultados iniciais do Projeto S — Foto: Reprodução / Instituto Butantan

Durante a vacinação do projeto, de meados de fevereiro a meados de abril, seis imunizados morreram de COVID-19, segundo o governo do estado de São Paulo. Destes, cinco haviam recebido apenas uma dose e o outro apresentou sintomas logo após receber a segunda dose, o que leva os pesquisadores a acreditar que o paciente já estava infectado no momento da segunda injeção. Entre os não vacinados, ocorreram 14 mortes.

A vacinação ainda não tinha terminado quando serrana enfrentou um aumento no número de casos. Os casos confirmados atingiram o pico em janeiro de 2021, com 706 moradores da cidade infectados pelo COVID-19. As infecções então diminuíram em fevereiro e março (484 e 692 casos, respectivamente) e tiveram uma queda acentuada em abril, com 235 casos confirmados.

Resultados iniciais do Projeto S — Foto: Reprodução / Instituto Butantan

No início de maio, nenhum dos seis leitos de enfermaria da Santa Casa de Serrana e da Unidade Básica de Saúde do município estava ocupado, e a fila de espera para leitos tanto nas enfermarias quanto nas unidades de terapia intensiva zerou segundo a Secretaria de Saúde de Serrana.

Resultados iniciais do Projeto S — Foto: Reprodução / Instituto Butantan

A pesquisa apontou também que a CoronaVac é eficaz contra a variante P.1, que apresentou predominância entre os casos confirmados da doença ao longo do período de estudo em Serrana. Segundo os cientistas, não houve descoberta da circulação de novas mutações na cidade.

"Essa é uma reconfirmação de que a vacina é efetiva contra a P1. Há um dado interessante: nessas análises de sequenciamento do Hemocentro e do HC, não vimos o surgimento de novas variantes. Era um dos receios de que poderia fazer uma seleção genética de vírus que poderiam se tonar resistentes. Não houve isso, é a mesma variante que está circulando na região", afirmou Palacios.

Sobre a segurança da CoronaVac, foram relatados 67 eventos adversos graves que foram comprovados que não foram relacionados à vacina. Apenas 4,4% dos vacinados relataram reações adversas gerais na primeira dose 0,02% foram considerados grau 3 (dor muscular e dor de cabeça). Já na segunda dose, apenas 0,2% de reações adversas foram relatadas, nenhum considerado de grau 3.

Entre a primeira e a segunda dose, foram identificados 7 óbitos. Após a segunda dose, antes que completasse o período de 14 dias (que garantisse a resposta imune), foi identificado 1 óbito. Após o período de 14 decorridos da segunda dose, nenhum óbito foi identificado.

Resultados iniciais do Projeto S — Foto: Reprodução / Instituto Butantan

A vacina do Butantan é segura, eficaz, eficiente, de altíssima qualidade e contribui para prevenir o desenvolvimento da doença, complicações e óbitos entre os infectados. Agora também sabemos que ela provoca efeito benéfico em uma população inteira, protegendo tanto os vacinados quanto os não vacinados e reduzindo a circulação viral de forma expressiva”, afirmou Dimas Covas, Diretor do Butantan.

Retomada econômica

A Associação Comercial e Industrial (ACI) do município de Serrana indica uma retomada econômica mais rápida que em outras cidades do entorno depois da implantação do Projeto S. Segundo Guinaldo Donizete Cavalheiro, presidente da ACI de Serrana, oito novas empresas começaram a se instalar no município após o projeto de vacinação em massa. E o número pode aumentar já que a cidade vem recebendo uma média diária de até quatro consultas sobre a possibilidade de instalação no município. A alta procura também deu origem a um novo Centro Empresarial e Industrial, que deverá receber até 12 novas empresas de médio porte.

Além das novas empresas, empresários de outras cidades da região estão contratando mais colaboradores residentes em Serrana, pois o fato de já estarem vacinados é um diferencial.

Para a professora Janaína de Moura Engracia Giraldi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP "Esta é uma oportunidade importante para o Brasil aprender que a vacinação em massa é essencial não só para a contenção da contaminação do vírus, para a redução das internações e óbitos, mas também para a retomada da economia. E, ainda, o caso de Serrana também pode servir para melhorar a imagem do Brasil internacionalmente no combate à pandemia, já que a vacinação em massa pode fazer o País ter o nome diretamente associado a um combate eficaz da pandemia, ajudando na retomada do turismo, de exportações, na entrada de investimentos e na atração de pessoas capacitadas."

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