Bolsonaro garante votos do Centrão para tentar barrar impeachment
Com apoio do Centrão, Bolsonaro agora conta com uma base de 206 deputados

Na tentativa de barrar pedidos de impeachment, por meio de alianças feitas com o Centrão, o presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido) agora conta com a colaboração de uma base com 206 aliados na Câmara, sendo 40% do total de deputados.

Apesar de, juntos terem a capacidade de impedirem um eventual processo de impeachment ou uma denúncia contra o presidente, eles ainda não têm poder suficiente para aprovação de reformas sem o apoio de outros partidos ou correligionários que resistem em apoiar o Governo Bolsonaro.

O líder do Progressistas (PP), deputado Arthur Lira, foi o responsável por construir a maior parte da base de apoio. Segundo um levantamento feito pelo periódico Valor, a base do governo Bolsonaro "é composta por 129 integrantes de partidos do Centrão, 43 parlamentares de sete partidos alinhados com Rodrigo Maia e 34 filiados ao PSL, que permaneceram ao lado do presidente mesmo após o racha da sigla".

O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL), avalia que os números mostram que a base aliada do governo está "ganhando corpo". Segundo o deputado, as votações realizadas nas últimas semanas têm demonstrado que o Palácio do Planalto conta com respaldo dentro do Parlamento.

No entanto, na prática essa base ainda está sendo testada. Desde março, os líderes partidários e o presidente da Câmara estão seguindo um acordo de priorizar a votação de propostas que estão relacionadas ao combate à pandemia do novo coronavírus. Essas pautas são consideradas consensuais, pois têm voto favorável até mesmo da oposição. Apesar disto, as medidas provisórias seguem caducando devido a falta de votos.

Segundo apurações feitas pelo Valor, a expectativa do governo era que apenas o bloco de Lira pudesse garantir ao governo cerca de 200 votos. Porém, 73 parlamentares pregam independência em relação ao Palácio do Planalto nesses partidos: PL, PP, PSD, PTB, Pros, PSC, Republicanos, Solidariedade, Avante e Patriota. Em contrapartida, deputados do PSDB, MDB e DEM sinalizam alinhamento ao governo Bolsonaro.

Sabendo dessas divergências no grupo de Maia, o governo então pretendia garantir 257 aliados contando com os bolsonaristas dentro do PSL., já que esse é exatamente o número de votos que são necessários para a aprovação de leis complementares.

Para que seja possível aprovar propostas de emendas constitucionais (PECs), o governo precisa garantir 308 votos entre os 513 integrantes da Câmara. Isso valeria, por exemplo, para a reforma tributária. Com o número atual, mesmo projetos de lei que exijam maioria simples não seriam aprovados com facilidade. O mesmo ocorreria caso aliados de Bolsonaro quisessem bloque o requerimento de convocação de algum membro do governo.

Assim como ocorreu com o ex-presidente Michel Temer, caso tente barrar uma denúncia do Ministério Público (MP), o presidente Bolsonaro teria que ter ao seu lado ao menos 172 aliados, o que já demonstrou ter alcançado. O mesmo vale para que seja evitado o avanço de processos de impeachment.

A aproximação entre o presidente Jair Bolsonaro e os partidos do Centrão acontece em um momento de tensão entre os Poderes e em meio ao avanço de investigações envolvendo Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Eleito com a promessa de alterar a forma de o governo se relacionar com os partidos, Jair Bolsonaro enfrentou muitas dificuldades no Congresso até decidir recorrer às legendas que apoiaram os governos anteriores e que Bolsonaro até então chamava de "velha política".

O presidente Jair Bolsonaro foi aconselhado por aliados no Congresso sobre a necessidade de ampliar a ofensiva para conseguir garantir a consolidação da base. Nomeações de indicados políticos para cargos foram distribuídas e o Ministério das Comunicações foi recriado e também entregue ao Centrão.

Nos bastidores, parlamentares do PSC, Pros, Avante e Patriota, não escondem a insatisfação pela preferência do presidente em contemplar os aliados com bancadas mais robustas. O tema foi abordado por Otoni de Paula (PSC) em café da manhã com o presidente que aconteceu na semana passada.

No entanto, o histórico do Centrão demonstra que seus parlamentares podem virar as costas para o governo, caso a presidência enfrente uma crise de maior magnitude. Foi o que abriu caminho para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Contém informações da/o Valor.
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