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São Paulo: ou vence o coronavírus ou o Brasil vai pro buraco

A unidade federativa mais rica da nação é a mais afetada pelo Covid-19, e precisa começar a mostrar resultados no combate ao vírus

17/03/2020 22h47 - Por Antonio Glenio

Autor: Antonio Glenio

No dia 25 de fevereiro o Brasil registrou o primeiro caso confirmado de um paciente infectado com o Covid-19 no Hospital Albert Einstein, na cidade de São Paulo. Menos de um mês depois, até o dia (17) de março, o Brasil registra 349 infectados confirmados, e cerca de 8.819 suspeitas, sendo de infectados, 164 apenas no estado de São Paulo. Desse número, 154 dos infectados se concentram na capital. Nesta terça-feira (17), também foi confirmada a primeira morte pelo coronavírus no Brasil em São Paulo.

Com esses dados, verifica-se que mais de 50% dos casos de todo o país se concentram na capital paulista e foi nela onde foi registrado o paciente “número 1” em terras brasileiras. São Paulo será a cidade mais afetada pela pandemia, e por isso ela terá a responsabilidade de mostrar ao resto do Brasil que é capaz de minimizar os efeitos e controlar esta crise.

Por que São Paulo?

A cidade de São Paulo é a capital do estado de São Paulo e representa o maior polo econômico do Brasil. A frase que estampa o brasão da cidade, “NON DVCOR DVCO” (Não sou conduzido, conduzo) não está lá à toa, o estado de São Paulo, graças a sua capital, conduz o Brasil, evitando que ele naufrague. Por exemplo, em 2019, o PIB brasileiro apresentou um crescimento de 1.1%, enquanto o paulista cresceu cerca de 2%, praticamente o dobro. E representa o maior PIB dentre os estados brasileiros. Em 2017, o PIB total foi de R$ 2 trilhões, enquanto, o segundo maior foi o do Rio de Janeiro, com R$ 671 bilhões, uma diferença assustadora. De acordo com os dados de 2017, se o estado de São Paulo fosse um país, seria a 21ª maior economia do mundo, superando a da Argentina.

Sabendo a importância de São Paulo para todo o Brasil, é preciso entender a relação dele com o mundo. Imaginando que o Brasil é um trem, o estado de São Paulo é a locomotiva, e a cidade de São Paulo é o motor. A cidade de São Paulo se enquadra como uma metrópole nacional e como uma Cidade Global. Esses dois conceitos da geografia estão dentro da chamada Hierarquia Urbana a qual estabelece relações entre cidade interligadas por um sistema de transportes e de comunicações.

São Paulo se caracteriza como uma metrópole pois exerce influência econômica, política e cultural sobre cidades vizinhas, é conectada com cidades próximas, apresenta uma centralização do sistema rodoviário, ferroviário e aeroviário interno do país, ou seja, a disponibilidade de rotas para se chegar em São Paulo é facilitada. Além de se enquadrar como uma cidade Global, já que, apresenta sede de empresas transnacionais, é um centro financeiro internacional por apresentar sede de grandes bancos e bolsa de valores, apresenta aeroporto internacional, é atrativa ao turismo de negócios, e principalmente, centraliza o sistema aeroviário internacional. Logo, a disponibilidade e o fluxo de vôos internacionais para São Paulo é muito mais intensa.

E esse último fator explica a concentração de casos de coronavírus no estado de São Paulo, mas sobretudo em sua capital. A capital paulista recebe um fluxo de pessoas, mercadorias, informações e capitais muito mais intenso do que qualquer região do Brasil. São Paulo é porta de entrada do mundo exterior ao território brasileiro, então era inevitável que nele seria registrado o primeiro caso do Covid-19, e sua ampla proliferação.

São Paulo por sua vez tem uma “missão” mais complicada, e que necessitará maior responsabilidade que as outras unidades da federação. Como apontado no início do texto, o estado movimenta o Brasil, “conduz” o país e evita que caia e não se levante mais, por isso tem a obrigação de dar o exemplo para os demais estados, precisa mostrar que tem capacidade e organização para vencer essa crise.

Como se sabe sobre esse novo vírus, o problema não está na sua taxa de letalidade, mas na taxa de expansão, na sua capacidade de infectar um alto número de pessoas em um curto período de tempo. Dessa forma, se o vírus continuar se proliferando livremente, rapidamente alcançará as camadas mais pobres, que são as mais vulneráveis, e essa camada não têm outra escolha a não ser recorrer ao SUS (Sistema Único de Saúde). Caso o número de pacientes seja superior à capacidade do sistema, ele entrará em colapso. E caso os hospitais paulistanos colapsem, ocorrerá muitas mortes, haverá maiores paralisações e, consequentemente, o Brasil cai junto. Se a locomotiva desse trem descarrile, os vagões desse trem (analogia para os demais estados) sairão dos trilhos também.

Dessa forma, cabe ao povo paulista e ao governo paulista tomarem atitudes enérgicas para impedir maior disseminação do coronavírus. A suspensão das aulas e cancelamento de eventos com público já é algo nesse sentido, mas é necessário mais ações com intuito de minimizar o contágio. Embora seja importante ressaltar a relutância e demora do governador do estado João Doria (PSDB), de adotar essas medidas, o qual havia informado que não haveria paralisações, e menos de um dia depois teve que voltar atrás, provavelmente porque a realidade bateu em sua porta. É preciso orientar as empresas a pedirem que seus funcionários trabalhem em casa, é preciso realizar triagem diretamente no aeroporto para pessoas que cheguem, é preciso instaurar quarentena obrigatória para pessoas que tenham positivo para a doença, e impedir aglomerações de pessoas. Medidas como essas fizeram com que países como Taiwan, Cingapura, Coréia do Sul e Hong-Kong praticamente tenham vencido o coronavírus. Logo, São Paulo precisa se mobilizar, e mostrar que tem consciência, e responsabilidade para lidar com uma situação como essa, caso contrário, o trem não conseguirá seguir viagem.

(Dados atualizados até o dia 17)

Revisores: Rodrigo Vieira e Felipe Donadi.

Fonte: G1 e IBGE.