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Política do Cotidiano: Um Pequeno Tratado Sobre Questões Menores

Política nunca serviu para deixar as pessoas mais inteligentes. Mas andam mentindo muito por aí, principalmente pelas redes sociais.

16/10/2019 16h42 - Por Jair Lorenzetti Filho

Política nunca serviu para deixar as pessoas mais inteligentes. Mas andam mentindo muito por aí, principalmente pelas redes sociais.
A política está mais ligada ao despertar da ética.
E essa é minha proposta nessa conversa com você.

Para falar da política no cotidiano, é necessário conhecer primeiro a definição etimológica do termo.
Política vem do grego, politikos (πολιτικός), que significa “de, para, ou relacionado a grupos que integram a Pólis”. Denomina-se a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou estados. A aplicação desta ciência aos assuntos internos da nação é chamada “política interna”, e aos assuntos externos, “política externa”.

Expandindo um pouco mais o entendimento sobre o que é política, na conceituação erudita, política “consiste nos meios adequados à obtenção de qualquer vantagem”, segundo Hobbes. Para Russel, é “o conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados”, ou ainda, “a arte de conquistar, manter e exercer o poder, o governo”, que é a noção dada por Nicolau Maquiavel, em O Príncipe.

O mesmo é necessário a respeito de cotidiano. Tal termo significa, “aquilo que é habitual ao ser humano, ou seja, está presente na vivência do dia a dia”. Cotidiano também pode indicar o tempo no qual se dá a vivência de um ser humano ou a relação espaço-temporal na qual se dá essa vivência.

É importante também analisarmos um pouco o brasileiro, afinal, este texto foi desenvolvido baseando-se em nosso povo.
O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking Ipsos Mori de “Percepção errada da realidade”, atrás apenas da África do Sul.
Recomendo, inclusive, conhecer esta pesquisa mais profundamente no endereço eletrônico: https://perils.ipsos.com/index.html.
Outras características do brasileiro já fazem parte até da cultura popular. Na década de 80, o jornalista Maurício Dias entrevistou o professor e psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa para a revista Isto É, por ocasião de seu artigo “Narcisismo em tempos sombrios”, e foi nessa entrevista que Dias batizou como “Lei de Gérson” o desejo que grande parte dos brasileiros tem de levar vantagem em tudo. A lei de Gérson pegou Sociólogos, Antropólogos e a nata da intelectualidade brasileira e já gastaram horas e mais horas, tinta e mais tinta, neurônios e mais neurônios para condenar nossa brasileira condição “gersoniana”. Somos mesmo uma nação de egoístas, corruptos e sacanas, que só querem saber de levar vantagem? Ao final do texto saberemos. Após décadas de estudos, definiu-se que a Lei de Gérson é um princípio em que determinada pessoa ou empresa obtém vantagens de forma indiscriminada, sem se importar com questões éticas ou morais. A “Lei de Gérson” acabou sendo usada para exprimir traços bastante característicos e pouco lisonjeiros do caráter nacional, que passaram a ser interpretados como caráter da população, associados à disseminação da corrupção e ao desrespeito às regras de convívio pela obtenção de vantagens.

Existe até um texto cristão apócrifo sobre um momento da criação do mundo, por Deus, com uma pequena menção ao Brasil. (…) Quando estava criando o mundo, Deus em sua infinita sabedoria, cercado por seus anjos, já planejava inclusive onde e como seriam os atuais países. O seu arcanjo Gabriel, em certo momento, fez uma observação: Pai, neste país o senhor colocou vulcões, noutro terremotos, em outros furacões, inundações, desertos, gelo e uma série de calamidades naturais. Mas porque neste aqui em baixo, chamado Brasil, não tem nenhuma? Deus, com um sorriso misterioso responde: Você ainda não viu o povo que eu vou colocar nele! (…). Há controvérsias sobre a veracidade deste texto, mas certamente não sobre o conteúdo.

Chegamos à nossa cidade. São Paulo entrou, neste ano, no ranking das 10 cidades com menor qualidade de vida do mundo, segundo estudo realizado por um banco alemão, que teve destaque na imprensa internacional. Entre os locais pesquisados, a capital paulista aparece como uma das piores na nova edição da pesquisa de preços globais e padrão de vida realizado pelo Deutsche Bank em 56 cidades do mundo. O ranking anual elaborado pela instituição alemã: (https://www.dbresearch.com/PROD/RPS_EN-PROD/Mapping_the_world%27s_prices_2019/WORLD_PRICES_2019.alias), é calculado levando em consideração diversos critérios como índices de criminalidade, poluição, congestionamentos do trânsito, disponibilidade de serviços de saúde e custo de vida.

Como disse Nelson Rodrigues: “Complexo de vira-lata, entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.

Chegamos então ao cidadão brasileiro paulistano.

Cidadania é a prática dos direitos e deveres de um indivíduo (pessoa), em um Estado. Os direitos e deveres de um cidadão devem andar sempre juntos, uma vez que o direito de um cidadão implica necessariamente em uma obrigação de outro cidadão. Conjunto de direitos, meios, recursos e práticas que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo.

O verbo dever refere-se às atividades, atos e circunstâncias que envolvem uma determinada obrigação ética, legal, moral, econômica, social ou política.

Sempre que se fala em direitos, se faz referência, de uma maneira ou outra, a algum tipo de obrigação, seja esta legal, moral, econômica, social ou política.

Uma palavra diferenciadora para lembrar mais tarde: ética.

Temos então o direito supremo: A principal regra de convivência dos indivíduos entre si: O direito de cada um termina onde começa o do outro, ou, nas palavras de Oliver Wendel Holmes Jr, Ex-Ministro da Suprema Corte dos EUA: “O direito de eu movimentar meu punho acaba onde começa seu queixo”.

Chegamos finalmente a Política do Cotidiano, onde as pessoas quase sempre querem e reclamam seus direitos, mas quase nunca se recordam e cumprem suas obrigações. É neste ponto que os brasileiros paulistanos precisam, fundamentalmente, mudar. Você como cidadão certamente viola o direito de outrem diariamente e tem o seu violado diariamente. E não há possibilidade da lei ou do estado resolverem esta questão.

Chegou a hora daquela palavra, “para lembrar mais tarde”.

Ética, é o nome dado ao ramo da filosofia dedicado aos assuntos morais. A palavra ética é derivada do grego e significa “aquilo que pertence ao caráter”. Num sentido menos filosófico e mais prático, podemos compreender um pouco melhor esse conceito examinando certas condutas do nosso dia a dia. Quando nos referimos, por exemplo, aos comportamentos de alguns profissionais tais como: médicos, jornalistas, advogados, empresários, políticos e até mesmo professores. Para estes casos, é bastante comum ouvir expressões como: ética médica, ética jornalística, ética empresarial e ética pública. A ética pode ser confundida com lei, embora, com certa frequência, a lei tenha como base princípios éticos. Porém, diferentemente da lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela desobediência a estas, mas a lei pode ser omissa quanto a questões abrangidas pela ética.

Finalmente chegamos à compreensão de por que, sem uma mudança na sua política do cotidiano, você estará simplesmente fazendo “mais do mesmo”. Se você não agir com ética no seu dia a dia, estará apenas contribuindo para manter a realidade paulistana e brasileira vigentes. Reclamamos muito por nossos direitos, mas estamos realmente cumprindo nossos deveres? Se pensarmos um pouco, iremos lembrar-nos de muitos episódios em que não.

Vamos dar alguns exemplos bem comuns na cidade de São Paulo. “Categorias” milicianas como: motoboys (micro empresários), condutores de ônibus (CLTistas), caminhoneiros (micro empresários), condutores de vans escolares (Micro Empresários), bancários (CLTistas) e o MTST (Movimento dos “Trabalhadores” Sem Teto) pararam ruas e avenidas ao longo dos últimos anos “lutando por seus direitos”. Mas em algum momento você os viu “lutando pelos seus deveres?” Você teve seus direitos violados por eles como o de ir e vir, trabalhar, estudar, ir ao médico, e muitos outros mais. Deixou de cumprir até suas obrigações, de pagar suas contas; mas isso não é problema deles, correto? Porque eles não se manifestaram (um direito constitucional), sem violar os direitos do próximo (um dever ético)?

E vamos sair do coletivo e partir para o individual. Você se recorda de alguém ter passado a sua frente na fila da padaria? Pegar seu carrinho no supermercado? Parar em vagas exclusivas para deficientes e idosos sem o ser? Fazer barulho no condomínio como se não houvesse vizinhos? Deixar os filhos gritarem e fazer o que quiserem em locais públicos? Falar em religião, moral e família e sair propagando ódio e perseguições nas redes sociais? Sentar nos assentos reservados às gestantes e idosos não sendo um deles? Empurrar mulheres, crianças e idosos para entrar em trens, ônibus ou metrô? Já fecharam você no trânsito para ganhar três segundos? Já quebraram o espelho do seu carro com a motocicleta e fugiram? É só uma pequena amostra.

O livro intitulado “Ética a Nicômaco”, é de autoria de Aristóteles e foi dedicado a seu pai, cujo nome era Nicômaco. Esta é a principal obra de Aristóteles sobre Ética e é constituída por dez livros, onde Aristóteles é como um pai que está preocupado com a educação e felicidade do seu filho, mas também tem por objetivo fazer com que as pessoas pensem sobre as suas ações, colocando assim a razão acima das paixões, procurando a felicidade individual e coletiva, porque o ser humano vive em sociedade e as suas atitudes devem ter em vista o bem comum. Nas obras aristotélicas, a ética é vista como parte da política que precede a própria política, e está relacionada com o indivíduo, enquanto que a política retrata o homem na sua vertente social.

Sem essa mudança em nossa política do cotidiano não haverá mudança na política e muito menos no Brasil. É por isso que temos o executivo, legislativo e judiciário que “merecemos”. Você, sua cidade, seu estado e seu país precisam mudar necessariamente nesta sequência, não há atalhos. Para você que vocifera mudança nas redes sociais lembre-se do famoso conselho: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Essa frase deve ter sido inventada por um mau político ou falso religioso. Devemos dar exemplos pelas nossas atitudes e pelo que fazemos. Quem tem atitudes que não merecem servir de exemplo, não é digno de dar conselhos.

Parafraseando Calvin, o maior filósofo do século XX: “Às vezes eu penso que o maior sinal de que existe vida inteligente fora da Terra é que eles nunca tentaram entrar em contato conosco”.

Vamos fazer a nossa parte?

​Revisores: Leandro Luis, Cynthia Capucho e Rodrigo Vieira