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São Paulo
Pa(i)trimonialismo

Não acreditamos que podemos conquistar as coisas, apenas esperamos que elas venham de um “pai”.

01/10/2019 19h38 - Por Beatriz Ferrarez

Palácio do Planalto (Foto:Flickr/ Francisco Aragão)

“Criamos uma versão excêntrica de um historicismo hegeliano aplicado ao que somos e ao que fazemos. Nada há de dar certo porque é da nossa índole estarmos sempre errados. Se acreditarmos ser uma sociedade degenerada fica muito mais fácil para uma elite política viciada nos infantilizar – nos fragilizar, por consequência – como agentes do paternalismo estatal”. (Livro: Direitos máximos, deveres mínimos, pg. 299).

Bruno Garschagen, autor do livro citado anteriormente, constrói uma síntese sobre o paternalismo de um pai ausente, ou seja, o Estado brasileiro, pois o Estado não pode dar tudo que promete aos indivíduos e por esta razão somos infantilizados e desprezados por nós mesmos. Não acreditamos que podemos conquistar as coisas, apenas esperamos que elas venham de um “pai”.

No entanto, estamos tão acostumados com a ideia de alguém controlando as nossas vidas que quando temos um pouquinho de liberdade achamos que somos escravizados – exatamente, tudo ao contrário – por exemplo, a Medida Provisória n°881, que trata da Liberdade Econômica; o texto-base fora aprovado na Câmara dos Deputados nesta semana por 345 votos favoráveis contra 76 votos contrários. Um dos principais argumentos utilizados pelos deputados contrários à MP foi o de que, os trabalhadores seriam obrigados a trabalharem aos domingos, na realidade esse argumento é falacioso, tendo em vista que, a MP libera e não obriga o trabalho aos domingos e feriados para todas as atividades. A medida estabelece que se o trabalhador quiser terá o direito de tirar folga em outro dia da semana ou ser pago em dobro.

“Somos treinados desde cedo a não reconhecer ou a destruir a imaginação moral, as virtudes, o certo, o bom, o virtuoso”, o paternalismo não funciona e só nos torna mais preguiçosos e cegos ao que nos cerca, isso faz com que a história se repita diversas e diversas vezes. É preciso considerar além de uma ideologia, pois o Brasil ainda não construiu suas raízes de independência humana. O que quero dizer com raízes de independência humana, é o fato de, estarmos completamente ligados e conectados ao Estado que nunca nos deu nada além de poucas migalhas, das quais agarramos e com isso nos sentimos satisfeitos. Como Garschagen cita em seu livro: “A promessa retórica e constitucional é frustrada a todo momento, o que estranhamente reforça a ilusão de que um dia os direitos sociais (saúde, ensino, segurança) serão plenamente realizados, Quando não são, em vez da revolta, há o estado de negação: “era só investir em educação”; “era só prender os políticos corruptos”; “era só acabar com a corrupção”. E todo o sistema – assim como Minas – estará onde sempre esteve”.

As raízes da independência humana brasileira é sentirmo-nos livres para legalmente exercermos a nossa vontade como funcionário, patrão, autônomo… A Medida Provisória nos traz, por um momento, a sensação de uma quase raiz de independência. Algo bom está por vir.