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Objeto e significado do mito político

Jordan Peterson, em sue ensaio sobre objetos e seus significados, estabelece o mundo como um fórum de ação composto por três elementos. A “Grande Mãe”, o “Grande pai” e o “Filho Divino”.

27/11/2019 21h15 - Por Beatriz Ferrarez

Jean-Francois Pierre Peyron 1744 – 1814

Tratando dos mapas do significado de nossa vida, o mundo pode ser considerado e interpretado como um fórum de ação ou um lugar de coisas. Há, claramente, duas interpretações do mundo, sendo, primeiramente, a expressão: na humanidade, no ritual, no drama, na literatura e na mitologia.  A segunda interpretação pode ser dada formalmente, ou seja, nos métodos e nas teorias da ciência.

O interessante a ser levado em consideração é que quando obtemos um fato, uma notícia concreta, não podemos somente avaliar a causa científica daquilo, uma vez que, as coisas não são o preto no branco somente. Da mesma forma, não podemos interpretar os fatos de forma estritamente mitologia, tendo em vista, anos de estudo, e entender que a vida não é meramente uma mágica.

É assim que Jordan Peterson, o psicólogo-clínico-politicamente-incorreto, começa o seu grande ensaio sobre os objetos e seus significados. Estabelecendo que o mundo como fórum de ação seja composto por três elementos constitutivos, os quais conhecemos muito bem. Temos o território inexplorado (Grande Mãe) – fonte criativa e destrutiva e local de repouso final de todas as coisas determinadas. O território explorado (Grande Pai) é a cultura, a proteção e a tirania, uma sabedoria ancestral cumulativa. Por fim, o território inexplorado e explorado (Filho Divino), o indivíduo arquetípico, Palavra exploratória criativa e o adversário vingativo.

Nessa pequena explicação, nada difícil de ser compreendida, nos traz grandes respostas, uma delas a do “mito fundador”, ou simplesmente, do mito em suas diversas facetas. Quero dizer que é natural do ser humano buscar algo para se espelhar, logo, que sempre buscamos um significado naquilo que desejamos ou planejamos.

Vale a comparação política, era nítida a esperança da população brasileira nas eleições presidenciais de 2018, não podia ser mais clara, e não se pode tirar a razão disso, pelo fato de passarmos por um impeachment, ex-presidente sendo preso, políticos envolvidos em esquemas escandalosos de corrupção e etc, etc, etc… E então, nos aparece a Salvação, o Líder, o Messias, o Pai que acabará com toda essa sujeira, porém, é – como a história que não deveria ser repetida -, quando fechamos os olhos para o lado científico e passamos a interpretar as ações apenas pelo lado expressivo. Por isso a enorme decepção com o atual governo, um dos motivos.

Peterson lança outra questão política a qual ele estuda severamente desde que se entende por gente, o totalitarismo.

“… o indivíduo não consegue viver sem crença – sem ação e avaliação – e a ciência não consegue fornecer essa crença. Apesar disso, devemos depositar nossa fé em alguma coisa. Desde o surgimento da ciência, os mitos aos quais recorremos estão mais sofisticados, menos perigosos e mais complexos que aqueles que rejeitávamos? As estruturas ideológicas que dominaram as relações sociais no século XX não parecem menos absurdas, diante disso, do que os sistemas de crença, mais antigos que elas suplantaram; falta a elas, além disso, um tanto do mistério incompreensível que necessariamente continua parte da produção genuinamente artística e criativa. As proposições fundamentais do fascismo e do comunismo eram racionais, lógicas, declaráveis, compreensíveis – e terrivelmente erradas. Nenhuma grande luta ideológica no momento derrama lágrimas pela alma do mundo, mas é difícil acreditar que tenhamos superado nossa ingenuidade. O surgimento do movimento da Nova Era do Ocidente, por exemplo – como compensação pelo declínio da espiritualidade tradicional – oferece prova suficiente da nossa sucessiva capacidade de engolir um camelo enquanto se côa o mosquito”. (Mapas do significado, pg. 40/41).

Aos que tiveram a oportunidade de ler ‘12 Regras Para Vida’ de Jordan, puderam notar o seu discurso em relação ao caos e a ordem, e, já neste mapa da experiência – aqui traçado de forma resumida – o mesmo embasa-se na construção dos mitos e ciência em modelos conhecidos (ordem) e desconhecidos (caos).

Acaba entrando na ‘mudança’ necessária para sobrevivermos e compreendermos o divergente, associando, assim, que uma mudança drástica, mudança demais cria o caos, no entanto, uma modificação de menos cria estagnação, ou seja, antecipamos o caos que logo mais ou menos virá.

Beatriz Ferrarez