Rio de Janeiro
EXCLUSIVO: MBL News entrevista o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes

Esta entrevista faz parte de uma série com todos os pré-candidatos à prefeitura do Rio.

08/02/2020 20h35

O ex-governador e presidiário Sérgio Cabral assinou um termo de delação premiada. Recentemente ele disse que o senhor recebeu R$300 milhões em caixa 2, o senhor teme esta delação?

“Não, eu acho assim, a Lava-Jato mudou de fato a política brasileira. Participei do processo eleitoral antes da Lava-Jato e depois da Lava-Jato e mudou muito. Eu nunca fui a favor do financiamento público de campanha, mas ele democratizou o jogo. Já sabíamos que o patrocínio privado para candidatos geraria problemas, por mais decente que fosse o processo eleitoral. Então não tenho temor nenhum, sinceramente, não tenho. Acho que devemos tomar muito cuidado com as delações, que dependendo das circunstâncias, do tempo, mas acho que vale a pena, é um instrumento. Tudo pode ser investigado, mas temor não tenho nenhum não.”

O senhor teve próximo de Lula, de Cabral, da Dilma, do Pezão, mesmo com esta proximidade, como garantir que o senhor não viu nada que acontecia?

“Quando eu era deputado, fui membro atuante da CPMI dos Correios , fui sub-relator geral, ali o meu papel era fiscalizar. Eu virei prefeito do Rio, foi falado aqui de dois ex-presidentes da República e dois ex-governadores do estado, que eu tive que conviver, tínhamos uma boa relação. Aliás, disse na campanha para governador em 2018 que teria uma boa relação com o Presidente Bolsonaro. Se o (Fernando) Haddad tivesse sido eleito, também teria com ele e até com o prefeito Marcelo Crivella. Tem que haver uma relação institucional. Tanto o ex-presidente Lula como a ex-presidente Dilma me ajudaram muito aqui na prefeitura do Rio de Janeiro. Não posso responder pelos atos dos outros.”

Recentemente a prefeitura sofreu com falta de pagamento, 13°, salários atrasados. O prefeito atual, Marcelo Crivella, alegou problemas de repasse e foi ao governo federal pedir verbas. É possível manter os salários em dia sem estar recorrendo a Brasília?

“Veja meus oito anos como prefeito. 2015 e 2016 foram o pico da crise brasileira. O (ex-governador) Pezão não conseguia pagar salário, Dilma desmilinguindo lá em Brasília com o impeachment e nós com uma Olimpíada para fazer. Mesmo assim, a prefeitura do Rio, na minha gestão, não atrasou salário um dia. Emprestei dinheiro ao governo do estado na época, até assumindo dois hospitais estaduais. Adiantei recursos do governo federal, tanto que o Crivella está até cobrando esta dívida corretamente. Posso garantir uma coisa, a prefeitura do Rio não tem nenhum problema financeiro, tem má gestão.”

Marcelo Crivella é um mau gestor?

“Ninguém tem dúvidas, nem trato disso porque isso não se discute mais. No primeiro ano, ele (Crivella) disse que faltou dinheiro para pagar salários, mas não faltou. No segundo ano, ele repete o mesmo discurso. Chega no quarto ano de mandato e ainda vem querer me culpar? Se ele fosse bom, já teria resolvido o suposto problema que deixei. Mas não vale nem a pena perder tempo com o Crivella. Ele fez uma coisa que eu não fiz, que foi aumentar imposto, principalmente o IPTU, que é um imposto sobre o patrimônio, que não é manifestação de riqueza. Aumentar IPTU em época de crise é uma maldade absurda. A arrecadação tributária do município de 2017 para cá aumentou absurdamente. Então quando o Crivella diz que caiu, não caiu coisa nenhuma. O que caiu foi o volume de repasses voluntários da União para o Rio. Pergunte qualquer servidor da prefeitura, desafio, médico, gari, sempre pagamos tudo em dia.”

Na sua gestão, o senhor quis regulamentar o Uber e outros aplicativos de transporte. Porém isso é impedir o avanço de novas tecnologias. Estes transportes por aplicativos continuarão tendo a livre iniciativa na sua gestão?

“Uber é van de rico, de classe média. Eu vejo assim, estes setores mais liberais da economia, que defendem o Uber são os mesmos que reclamam quando uma van de pobres da zona oeste chegam na Praia de Ipanema. A Van é a mesma coisa, claro que temos que tirar elas do controle dos milicianos. O mercado se adéqua, as vans surgiram para corrigir a ineficiência dos ônibus.As pressões que recebi dos que defendem o Uber para acabar com as vans eram imensas. Apesar de eu ter feito as 3 maiores parcerias público-privadas do Brasil, o liberalismo não pode estar em todas as áreas. Transporte público, por exemplo, o governo tem que traçar as rédeas, porém não sou a favor da estatização das empresas de ônibus, sou a favor da concessão para o setor privado, mas definidas pelo poder público.Não sou contra o Uber, porém acho que este liberou geral rede de transportes, será que a solução para o indivíduo é mais carros nas ruas em plena crise climática?”

É um fato que cidades que têm guarda municipal armada são menos violentas. O senhor é a favor do armamento da Guarda Municipal?

“Fui prefeito por oito anos e não mandei para a Câmara dos Vereadores um projeto de armamento, pois a Lei Orgânica do município proíbe. O que tentei fazer é permitir a utilização de armas não letais, mas mesmo assim a Justiça me proibiu. Em tese eu seria a favor da guarda armada, mas veja a realidade do Rio, todas as forças do estado que você armou, acabaram virando milícia. Eu prefiro, em um primeiro momento, pensar como reforçar o papel da Polícia Militar. Comecei, no meu governo, o programa Segurança Presente, que vem sendo copiado. Ao invés de armar um guarda, eu contrato um PM, pago pela folga dele.”

Qual opinião do senhor sobre o governador Wilson Witzel?

“Eu acho que no campo da segurança pública está apresentando alguns resultados, porém tem que haver mais atenção com a letalidade dos policiais. Vai muito mal na Cedae.”

O que o senhor se arrepende da sua administração?

“Muita coisa, por exemplo, a ciclovia da Niemeyer, não devíamos ter feito, não sou engenheiro. O projeto foi feito pela GEO-Rio, teve aquela tragédia. Mas, como eu sou o gestor público, a responsabilidade política é minha. Eu tenho mais facilidade de ver defeitos das minhas administrações do que outras pessoas. Mas não podemos confundir. Quando há roubalheira nas OSs, quando há escândalo no estado. Não pode dizer que houve roubalheira na construção de um estádio , que é de responsabilidade do estado. Entregamos muita clínicas da família, ensino em tempo integral, construímos 300 escolas municipais, fizemos e ampliamos corredores de BRT que mudaram a vida das pessoas.”

Jornalista formado pela UniverCidade, pós-graduado em Sociologia, Política e Cultura pela PUC-Rio. Formado em cinema pela New York Film Academy. Um liberal de direita que luta desde sempre pelos ideais que acredita.