Bahia
Espaço LGBT em Salvador anuncia fechamento

MP determinou que a administração da casa atenda aos padrões da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), com estrutura de acessibilidade, saída de emergência, além do alvará de utilização sonora.

12/03/2020 20h06

Após 16 anos de atividade, o Espaço Cultural Caras e Bocas, na Rua Carlos Gomes, Centro de Salvador, anunciou o fechamento. O local, dedicado ao público LGBT, foi alvo de diversos ataques de vizinhos, que culminaram com uma ação no Ministério Público (MP).

Após o processo, impetrado por um condomínio vizinho, o MP determinou que a administração da casa atenda aos padrões da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), com estrutura de acessibilidade, saída de emergência, além do alvará de utilização sonora.

Para isso, a casa teria que passar por uma reforma mas, segundo a proprietária Rosy Silva, depois de tantos prejuízos por causa dos ataques homofóbicos contra o espaço, não há mais recurso para manutenção do local. Por isso a casa fechará as portas no dia 28 de março.

Ela conta que o Caras e Bocas nasceu em Periperi, bairro do subúrbio de Salvador.

“Ele não tinha uma vertente LGBT, mas eu achei necessário levar a arte drag queen para o suburbano conhecer. Ficamos lá durante 12 anos, e resolvi pegar aqui, no Centro da cidade, esse espaço de ondee estamos indo embora”, conta.

Logo na noite de inauguração, o espaço foi alvo de um ataque. Pedras de gelo foram arremessadas contra a casa de shows. As pedras eram tão grandes, que destruíram parte do teto.

O que ela não sabia era que os ataques estavam apenas começando. No total, 14 boletins de ocorrência foram registrados por causa de ataques motivados por intolerância. No local funcionam diversos outros bares, mas o alvo da vizinhança era sempre o Caras e Bocas.

O último ataque aconteceu em dezembro de 2019. O agressor foi ouvido e liberado. Ninguém foi preso.

“Ele grudou em mim, me pegou pelo cabelo, e começou a gritar: ‘Eu vou lhe matar, eu vou lhe matar’. Aí ele me arrastou pela escada, até o meio da rua, e me jogou na frente do ônibus. Estou com vários hematomas. Ele mordeu meu braço, ele me enforcou no meio da rua”, contou uma das vítimas do ataque.

Rosy agora tenta conseguir outro local para manter o Caras e Bocas funcionando.

“A gente precisa de um espaço para darmos continuidade à nossa arte, à nossa cultura, à nossa junção. Nós precisamos e sabemos que existem órgãos responsáveis aqui que podem nos doar uma casa para a gente ocupar e continuar o nosso serviço com a arte”, disse a proprietária do espaço, que destacou que nunca brigou com a vizinhança.

“Nós semeamos o amor, não semeamos ódio. Nós nunca fomos na porta do condomínio que nos atacou, nós nunca arremessamos pedras neles, nós nunca xingamos eles. Vamos sair de cabeça erguida, mas não perdemos. Perdemos um espaço que também não nos pertence, mas quem perde nesse momento é o coletivo, porque nós fazemos arte, nós fazemos cultura. Não é pelo fato de sermos LGBT, que nós temos que ter a exclusão”, afirmou.

A reportagem tentou entrar em contato com o condomínio que abriu processo no Ministério Público contra o Espaço Cultural Caras e Bocas, mas ninguém atendeu às ligações.

Fonte: G1