Rio de Janeiro
Entrevista com o pré-candidato do partido Novo à prefeitura do Rio, Fred Luz

Continuando a nossa série que pretende ajudar o eleitor do município do Rio de Janeiro a escolher melhor o seu candidato

18/03/2020 18h13

Fred Luz, disputar uma eleição na capital, a segunda maior cidade do País, deve ser um grande desafio para você. E como pensa em ser um gestor dessa cidade que já apresenta um déficit de 3 bilhões? Como administrar uma cidade deficitária?

“Eu tenho experiência na minha vida de pegar empresa em dificuldade. Assim foi na Lojas Americanas, onde eu fui gestor por 15 anos, assim foi numa rede de lojas de vestuários e roupas que eu fui também gestor, diretor geral e sócio por 13 anos;, e assim foi no Flamengo também, que em 2012 era um clube completamente degradado, de altíssimo potencial, que eu até comparo muito com a cidade do Rio de Janeiro. Que eEu acho também que tem um enorme potencial e está muito degradada por questões de má gestão, de bagunça, de não ter choque de gestão e de ter muita tolerância com a corrupção. Então eu me sinto na obrigação de colocar o meu nome nessa possibilidade de salvar essa nossa cidade que eu tanto amo.”

46% da população da capital não tem saneamento básico, muitos ainda sem tratamento de esgoto, valas a céu aberto, você já pensou alguma coisa na questão que cuida especificamente dessa área de saneamento básico do nosso município?

“Já pensei bastante, eu acho que o que se tem hoje é um descaso com a população. O trabalho que o município do Rio de Janeiro tem feito em relação ao saneamento, que é uma missão básica da Prefeitura, o poder concedente é da Prefeitura, é pífio. Existe um termo recíproco de responsabilidade feito entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e o Governo do estado, que é de 2007, que estabelece direitos da Cedae para receber, mas não estabelece as obrigações, e por isso é que a Cedae não entrega nada, não entrega o tratamento do esgoto, como você falou, para mais do que 50% da população carioca, e ela não leva nenhuma penalidade. Ela não tem obrigação de entregar, ela tem o direito de receber e não tem obrigação de entregar. Eu pleiteio pela destruição desse contrato com a Cedae para a gente abrir um outro tipo de licitação, onde a gente possa trazer um outro tipo de contrato, que garanta direito para quem está contratando e quem paga a conta que somos nós. Nós aqui que vivemos na cidade do Rio de Janeiro pagamos mais do que 70% da conta da Cedae, e no entanto, o que a gente tem em troca? E como é que a gente cobra? E qual foi o prefeito que cobrou multa? E qual foi o prefeito que tentou derrubar esse contrato?”

O senhor pretende quebrar com este continuísmo e fisiologismo na política?

“É um choque, é acabar com a bagunça, é dar um choque de gestão, é não permitir cabide de emprego e aparelhamento político da máquina. O que é a Cedae? A Cedae é um cabide de emprego, de direitos trabalhistas e que ninguém resolve nada. E é ter tolerância zero com a corrupção porque o que se cria nesse ambiente de permissividade é a corrupção, é o descaso.”

Tem algo que eu acho que é um número extremamente preocupante. O Tribunal de Contas do Estado diz que 73% das escolas do Rio de Janeiro estão em situação precária, e envolvem vários problemas. 73%. Isso é desafiador para você?

“É claro que é desafiador. Mas, de novo, é choque de gestão, é pegar… na minha cabeça, tem dinheiro, tem muito dinheiro, ainda mais na Educação que vem muito dinheiro carimbado do Governo Federal para cá. Está precisando é colocar as pessoas certas nos lugares certos, tendo um acompanhamento sistemático dos objetivos, e para a Educação, a gente tem um objetivo fundamental que é garantir que 100% das crianças estejam alfabetizadas ao final da primeira série, aos 6 anos de idade. E aí, desenvolver todos os métodos e processos, e isso inclui acompanhar a evasão, acompanhar a qualidade física das escolas, sim, para garantir que isso aconteça.”

Eu fico imaginando o seguinte: 73% em situação precária, e a questão da precariedade pode envolver aspecto físico, uma alimentação não-ideal, falta de professores, e eu quando faço a pergunta para você digo “é um desafio?”, os números são muito elevados. A gente vive um cenário de uma possível mudança no nosso país, mas um número muito alto. Através da sua experiência de gestor, o que leva o Tribunal de Contas atestar que 73% das escolas estão precárias? Talvez a pergunta seja um pouco complicada porque não foi na sua gestão. O que leva um gestor a entregar algo nos números tão terríveis, tão elevados?

“Descaso. Falta de foco. Aparelhamento político. Ainda mais na área de educação, que tem sido usada muito e muito tempo por aparelhamento político para depois conseguir voto lá na frente. E desviar do foco da qualidade, das entregas. A cidade do Rio de Janeiro não consegue alfabetizar e tem índice de reprovação ao final da terceira série de 15% das crianças, aos 8 anos de idade. Olha a defasagem. A gente tem por objetivo garantir que 100% das crianças estejam alfabetizadas aos 6 anos, para quê? Para dentro do princípio liberal, dar igualdade de oportunidade. Para que essa criança alfabetizada ela tenha mais ânimo, ela se sinta mais capaz, ela tenha mais autoestima para seguir nas séries seguintes. E a gente tem que garantir essa qualidade também. Nós temos que garantir que as crianças aprendam na escola. Esse é o foco.”

No período que você atuava, era um dos gestores do Flamengo, a Secretaria de Fazenda dizia que o Ninho do Urubu estava proibido de ser utilizado . Se estava proibido, foi usado e aquela tragédia ocorreu, será que não houve falha, por exemplo, sua ou da equipe na ocasião? Isso de alguma forma, para quem está nos lendo, ele não pode pensar o seguinte: “Se ele não conseguiu evitar aquela tragédia no Ninho do Urubu, como que ele vai conseguir consertar, arrumar a casa da Prefeitura do Rio de Janeiro?”

“É até bom você me fazer essa pergunta porque ela permite esclarecer bem essa questão. Eu fui gestor do Flamengo de 2013 até junho de 2018. O incêndio foi em fevereiro de 2019. Enquanto eu estive lá, não aconteceu nada. Pelo contrário, o Flamengo progrediu. Embora o meu foco principal como gestor geral, diretor geral do Flamengo, fosse entregar as metas que eu tanto falo do choque de gestão e administrar o orçamento de uma forma responsável, que é o famoso equilíbrio fiscal, entregar as metas com esse orçamento. Isso foi feito. O Flamengo equilibrou as contas e gerou recursos para ter time de futebol, para ter os resultados esportivos que ele tem hoje. Isso não me faz me afastar da dor dessa tragédia, que afeta todos os torcedores do Flamengo e principalmente, eu como pai de 3 filhos e avô de 4 netas, eu não consigo dimensionar a dor dessas famílias, mas acho que isso não deve ser usado da forma errada. Eu quero que a justiça seja feita para reduzir a sensação de perda dessas famílias e que isso seja um acordo. E que, por outro lado, todo esforço seja feito para que uma tragédia como essa não aconteça nunca mais no nosso país.”

Mas o contrato com a NHJ foi na sua gestão? Segundo fontes de jornais, na CPI que está apurando o incêndio no Ninho do Urubu você foi perguntado sobre esse contrato e não soube responder. Foi na sua gestão que foi feito esse contrato?

“O que eu falei é que foram feitos, já existiam contratos anteriores e foram feitos alguns contratos durante a gestão.”

Especificamente esse foi na sua gestão?

“Como eu falei, eu não sei, porque eu nunca olhei no detalhe esses contratos porque não cabia a mim. A mim cabia muito mais fazer o equilíbrio entre as demandas e o orçamento, era isso que eu aprovava.”

O Partido Novo ainda é “nanico”, para ganhar uma eleição na capital não seriam necessárias composições ou apoios políticos, ou o Novo irá encarar a disputa sozinho?

“Eu não falo pela direção partidária, agora que tipo de composição? Composição para a gente ter as velhas práticas que a gente sempre teve? Se for para isso, nenhuma chance. Para entregar os mesmos serviços que foram entregues à cidade do Rio de Janeiro para estar nesse estado de degradação? Se for isso, nenhuma chance. Mas com pessoas do bem, com pessoas que queiram o melhor para a cidade do Rio de Janeiro, não tem nada no estatuto do Novo que impeça isso, embora seja uma decisão que não caiba a mim, e sim à estrutura partidária, que no caso do Novo, tem uma separação muito específica.”

Qual avaliação do senhor da gestão do prefeito Marcelo Crivella? Poderia dar uma nota de 0 a 10?

“Eu não gosto de dar nota, mas eu não consigo ver nesse governo nada que tenha sido bem feito. Quando eu falo que a bagunça está instalada, você pode olhar qualquer aspecto da cidade do Rio de Janeiro. Você pode olhar saúde, você pode olhar a educação, como você falou da precariedade das escolas, você pode olhar a mobilidade urbana, você pode olhar transporte, você pode olhar as ruas, você pode olhar o que você quiser, que eu não consigo ver nada, que é o termo que eu consigo usar que não é bagunça. É isso que eu pretendo trabalhar. Acabar com a bagunça, é um governo extremamente aparelhado politicamente, inclusive ele troca de secretários à medida que ele tem problema aqui e acolá, o que mostra que não tem uma linha. É isso que a gente pretende acabar. É ter, primeiro, objetivos claros, estrutura de gente de qualidade, se um ou outro não estiver funcionando é lógico que nós vamos trocar, mas não é normal se fazer como se está fazendo em que você não tem continuidade administrativa, você não tem qualidade e é só ver a penúria que a cidade do Rio de Janeiro está passando.”

Já que o senhor não gosta de dar nota, qual a avaliação do governo Wilson Witzel?

“Eu acho que o governador Wilson Witzel ele tem números positivos em relação à segurança, mas eu não atribuo essa melhoria na segurança 100% ao governo dele, porque eu acho que se deve muito à política federal, porque os índices estão melhorando no Brasil inteiro, inclusive em Minas Gerais está melhorando muito mais do que no Rio de Janeiro. Também não acho que seja só o Zema, acho que também tem efeito do Governo Federal, até mesmo para falar. Vejo um aparelhamento político na estrutura do Governo Witzel que eu não gosto, mas eu acho que tem algumas iniciativas, quando fala de promover o turismo, quando fala de trazer mais negócios para a cidade do Rio de Janeiro, que atenuam um pouco essa minha visão negativa.”

E a avaliação do senhor do governo do Presidente Jair Bolsonaro?

“Eu acho que tem mais acertos do que erros. Também não concordo com tudo, mas eu acho que tem muita coisa boa, principalmente na área econômica, que o Novo e eu pessoalmente aprovo completamente, acho que isso traz um avanço, trouxe uma mudança da forma como o Brasil estava lidando com isso né, a reforma da Previdência, essa tentativa da reforma tributária, essa lei de facilitar a vida das empresas, de mais flexibilidade trabalhista, tudo isso eu vejo como boas iniciativas e bons sinais. Acho que está lento no processo de implementação. Não gosto de muitas manifestações do Presidente Bolsonaro, principalmente quando ele ataca as instituições, porque eu sou a favor do regime democrático, do respeito às instituições, que é muito diferente de dizer que todo mundo que está no Congresso é bom e que nenhuma pessoa ali poderia ser criticada ou condenada. Que no Supremo, que também nenhuma pessoa poderia ser criticada ou condenada. Defender a instituição não tem nada a ver com isso. Eu acho que só tem um exagero quando se vai para a instituição como um todo, que cria uma instabilidade política no país e eu acho que isso não é bom.”

Colaboração: Raquel Mayerhofer

Jornalista formado pela UniverCidade, pós-graduado em Sociologia, Política e Cultura pela PUC-Rio. Formado em cinema pela New York Film Academy. Um liberal de direita que luta desde sempre pelos ideais que acredita.