São Paulo
Em meio à crise das polícias, governador homenageia “Policiais nota 10” em São Paulo

Policiais que se destacaram em ocorrências são homenageados pelo bom desempenho

04/02/2020 18h39 - Por Orlando Neto

Autor: Orlando Neto

O governador João Doria (PSDB), juntamente com o secretário de segurança pública, General João Camilo Pires de Campos, homenagearam no início do mês de janeiro, 16 policiais militares, 10 policiais civis e 2 técnico-científicos em cerimônia na sede do palácio dos Bandeirantes. Em sua nona edição, o evento homenageou com o certificado “Policial nota 10”, agentes da capital, Grande São Paulo, Bauru, São José do Rio Preto, Baixada Santista e Piracicaba.

Mas, o que está por trás da reconhecida meritocracia na policia de São Paulo?

O reconhecimento pelos trabalhos prestados, muitas vezes arriscados, que exigem abnegação, coragem e dedicação máxima é algo positivo. Render homenagens aos heróis responsáveis pela segurança da população paulista, bombeiros, policiais e guardas civis municipais, faz parte de um processo de incentivo chamando a população ao reconhecimento dessas atividades envoltas em insalubridade e risco, e também, aumenta o prestígio destes homens, cada qual dentro da própria instituição criando uma competição saudável entre os pares.

O problema da “medalha”, surge quando ela serve de máscara. Quando é oferecida por um governo que há muito tempo trata a segurança pública com imprudência e imaturidade.

Infelizmente, essa “nova gestão” é mais velha do que parece. Pois veio para esconder a política salarial adotada e a caótica falta de reposição dos efetivos dos policiais paulistas. Esqueçamos por hora, das questões, embora não menos importantes, como a falta de investimentos técnicos, materiais e estratégicos que não são perceptíveis aos leigos da opinião pública, fogem do tema meritocracia, relacionado diretamente à figura humana.

Enquanto não tivermos um governo em São Paulo verdadeiramente bem intencionado com as forças de segurança, menos político e menos marqueteiro, e que vise “o estado pelo policial e o policial pelo cidadão”, os sinais de melhora não trazem qualquer solidez.

Os índices criminais estão abaixando, é verdade, mas a sensação de segurança não acompanha esses novos e progressivos números. Alguns fatores colaboram para esse resultado: reversão dos valores sociais perdidos pela população, reeducação da sociedade quanto às forças de segurança, talento e obstinação sob situação adversa a que se sujeitam nossos policiais militares e civis, ainda que, sob a égide de um governo estadual omisso. Outro fator que vale ressaltar é que, a melhora nos índices de criminalidade, é nacional, e já vem caindo desde o governo Temer. Portanto, por hora, Bolsonaro e Moro, estão apenas usufruindo de resultados de um governo anterior.

O fato é que, a população paulista está descrente de sua polícia, e essa descrença leva as vítimas, principalmente de pequenos crimes, a não registrarem o Boletim de Ocorrência, o que também colabora muito para derrubar as estatísticas.

Em São Paulo, as polícias se tornaram um barril de pólvora com uma singela sobra de pavio aceso. Há tempos enfrentam ingerências políticas, ineficiência de comando e investimentos insuficientes de um partido (PSDB), que se perpetua no poder há mais de duas décadas, e que literalmente, varre para baixo do tapete o caos que se avizinha e a iminente falência de importantes instituições sob o seu comando.

Segundo fontes policiais, agentes de segurança em São Paulo, são remunerados muito aquém dos demais entes federativos em caráter estratégico para a linha de raciocínio do PSDB paulista. Como exemplo, vemos o corpo da segurança pública suplicando pelo pagamento do bônus por produtividade constantemente em atraso, que embora trimestral no ano passado, e bimestral este ano, são migalhas que nem de longe repõem as perdas salariais dessas categorias. Com isso, o governo cria um mote de controle e cobrança de produção e cria uma bolha da qual, policiais não conseguem mais sair.

Quando questionado, o governo inclui esta bonificação nos índices irrisórios de aumento gerando uma crença de que está remunerando muito melhor a polícia. É o mesmo que ocorre nas políticas que envolvem a Operação Delegada e o DEJEM, ambos foram formas encontradas para driblar a gritante falta de policiais, explorando as horas de folga dos policiais militares que se sujeitam a trabalhar nas poucas folgas que a profissão permite para complementar a sua renda. Será que os problemas financeiros, familiares e emocionais dos policiais, que se ausentam por longos períodos de suas casas, estão relacionados aos casos de suicídio a níveis de epidemia que chegou às polícias paulistas?

A ingerência se mostrou mais evidente quando o governo enviou à ALESP, no fim do ano passado, a sua proposta de reforma da previdência, acompanhando os moldes da reforma federal, e devido à pura falta de conhecimento, por que não falar ingenuidade, acerca das instituições sob seu comando, se viu dentro de um imbróglio administrativo dado ao fato de que 30% do efetivo já muito aquém do quadro de policiais civis (déficit atual de aprox. 13.000), tem condições de se aposentar e ameaçam fazê-lo, o que traria um dano bem maior e irreparável a curto e médio prazo no quadro de funcionários da polícia civil de São Paulo.

Vale lembrar que a reforma da previdência estadual é de suma importância e amplamente defendida por esse Movimento, por sanear os gastos com funcionalismo público evitando uma futura insolvência fiscal do Estado. Privilégios devem ser veementemente combatidos, e no caso das polícias, não devem ser de forma alguma compensatórios aos péssimos salários hoje praticados. Posicionamos-nos sempre a favor das polícias, para que seja remunerada de forma justa, com efetivo adequado e condições de trabalho satisfatórias, para que o policial possa, em sua vida laboral, conseguir independência e conforto para sua família sem depender de privilégios previdenciários quando se aposenta.

Se essa forma juvenil de conduzir a segurança pública não mudar radicalmente, e policiais não forem agraciados com uma “graça” real, a “Polícia NOTA DEZ” cairá, e consigo a já pouca sensação de segurança do povo paulista. Algo tão difícil de conquistar e de se manter ruirá.

Um bule de água quente sem o pó do café ou chá pode até fazer o barulhinho, mas é só água quente. Menos barulhinho governador, e mais café!

Resumindo: elogios verbais e condecorações sem salários estabelecidos, planos de carreira atraentes, e estruturas dignas, não se sustentarão por muito mais tempo. Mais uma vez, apelamos ao bom senso do nosso governador para que, seja de fato, o autodenominado “João Gestor”, ao invés do “João Marqueteiro” que se mostra.

Fonte: Portal do Governo de SP