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Déficit no contingente da polícia civil de São Paulo chega a 30%

Por que aprovados nos concursos da polícia civil não estão sequer iniciando a sua formação?

17/03/2020 20h43 - Por Orlando Neto

Autor: Orlando Neto

Como se já não bastassem 20 delegados de um total de 250 chamados à posse desistirem antes mesmo de começar o curso de formação na academia de Polícia, a preocupação novamente tomou conta dos policiais de base (atendimento direto ao cidadão).

Ao verificarem no Diário Oficial do Estado de São Paulo a notícia de que mais 378 candidatos aprovados distribuídos em várias carreiras policiais desistiram de ingressar nos quadros da polícia civil e não compareceram à posse, a certeza de que a situação precária em que se encontram irá demorar a findar veio mais uma vez a tona.

Dentre os aprovados, foram constatadas absurdas 98 desistências para a carreira de escrivão, a mais deficitária e com escassez seríssima no interior de São Paulo.

A disputa por uma vaga na polícia civil costuma ser bem concorrida, contudo, manter os novos profissionais trabalhando com as condições pouco atraentes tem sido cada vez mais difícil.

Os motivos são variados, vão desde a demora demasiada do governo em chamar os aprovados à posse até problemas estruturais dos planos de carreiras com progressões pouco atraentes. A sobrecarga de trabalho constantemente denunciada e a falta de respeito aos períodos de folga dos agentes são outros motivos apontados.

Em tempos de pandemia, atenção e precaução diante de uma iminente sobrecarga no sistema de saúde, a crise das polícias segue aguda, oculta, incorrigível e camuflada com a inauguração de novas delegacias de defesa da Mulher 24hs.

O déficit de policiais civis chega a 30% do efetivo que se deveria ter no Estado com aproximadamente 14.000 cargos policiais vagos. E o exercício da atividade de Polícia investigativa continua severamente prejudicado.

A reforma administrativa que será proposta em breve pelo governador João Doria também preocupa muito os agentes da ativa e desencoraja novos quadros a ingressarem na polícia civil. Apesar de extremamente necessária para o equilíbrio fiscal do Estado, esta reforma irá reestruturar os planos de carreira e os complementos salariais dos policiais. Benefícios como: a sexta parte, o qüinqüênio, licenças Premium, bônus e etc, de acordo com declarações do vice-governador Rodrigo Garcia, podem ser alterados, diminuídos ou até extintos. Por enquanto, essas alterações são apenas especulações, mas já bastam para causarem os efeitos que estamos observando.

Enquanto João Doria inaugura novas delegacias, anuncia investimentos estruturais e números fantasiosos sobre a segurança pública de São Paulo, isso tudo a serviço do seu marketing pessoal e de seus planos presidenciais, o material humano fica em último plano. A polícia pior remunerada do país escancara os seus medos, expõe as suas deficiências e vai encolhendo em uma velocidade espantosa.

Será que remunerar de forma justa, com um plano de carreira adequado e condições dignas de trabalho, não iria dar resultados muito melhores a serem exibidos pelo João Gestor? À custa de salários pagos acima do teto para fiscais, projetos de dar comissões por multas a esses mesmos fiscais e angariar apoio da elite do funcionalismo ao seu projeto de poder, Doria expõe uma das profissões mais importantes do funcionalismo ao fracasso. O tão prometido choque de gestão está colocado sobre a mesa, cabe ao eleitorado julgá-lo.

Revisor: Felipe Donadi

Fonte: G1 e Correio Popular.