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Como ser um mártir da revolução: Marat

A quem será dada a fama de mártir da ‘nova política’?

06/02/2020 14h02 - Por Beatriz Ferrarez

Aos leigos no assunto da Revolução Francesa, gostaria de familiarizar uma figura importantíssima no processo revolucionário da França, Jean-Paul Marat, radical, fez parte da tríade suprema da época do Terror, ao lado de Danton e de Robespierre. Figuras poderosíssimas que, obviamente, atraíram para si grandes inimigos, a de grande destaque, Charlotte Corday.

No meio do Terror instaurado pela tríade suprema na França, em treze de julho de 1793, Corday mata Marat a golpes de punhal em sua banheira. O motivo ocasionado em Charlotte é o fato de a Revolução ter perdido totalmente o controle, além da tirania presente em Marat. Segundo os arquivos históricos, Marat contraiu uma doença na pele denominada herpes ou eczema. Aqui se encontra o início do nosso mártir e o tiranicídio nomeado, na análise de José Alexandre Tavares Guerreiro sobre o caso.

Guerreiro, em sua breve análise sobre as divergências existentes em Jean-Paul e Charlotte, caracteriza o poder do tiranicídio, destrinchado por Charlotte, como um plano, talvez, uma espécie política, ‘e que pudesse prever, inclusive, sua própria morte após o atentado contra Marat’. Porque sim, quatro dias depois da morte do revolucionário, Charlotte fora condenada à guilhotina, a hipótese em aberto que Guerreiro deixa é: com o caos efetivo na França à época, provavelmente, Corday saberia do seu fim, uma vez que, as pessoas contrarrevolução eram perseguidas frequentemente pelos mandatários da tríade suprema.

Num exame maquiavélico, partindo da ideia de que os fins justificam os meios, o dito por Charlotte ao tribunal que a condenaria parece caber: “Matei um homem para que cem mil não pareçam”. Entrando nessa toada, vale destacar, a pintura de Jacques-Louis David, inspirado na morte de Marat:

Jacques-Louis David – A morte de Marat

A imagem de algo ou alguém é essencial para despertar um sentimento seja ele de repulsa ou de simpatia. Aos leigos, novamente, Marat, neste quadro, é representado como um coitado, e é fácil sentir um afeto – sejamos sinceros – exemplo destacado por Patrícia de Camargo, a mesma relata que a posição do braço flexionado de Marat nessa pintura relembra grandes quadros e esculturas heroicas, como o de a Pietà de Michelangelo. Observe:

Michelangelo Buonartti – Pietà

José Alexandre baseando-se ainda na construção de opostos que foram Charlotte e Jean-Paul, realça: “o tiranicídio é um desses momentos extremos da história em que a política se torna drama e se questionam as bases últimas da vida social. E é exatamente nesse momento que duas cogitações máximas se apresentam, dotadas de perene importância e sinais contrários: o terrorismo e o tiranicídio, semelhantes pela violência, mas díspares pelo objetivo imediato”.

Partindo desse pressuposto, inicio minha breve avaliação com relação às duas figuras mais importantes e interessantes na política atual, de quem poderia comparar neste artigo. Dispensam apresentações, Jair Bolsonaro e Sérgio Moro.

Para antes das críticas mentais, não há comparação alguma relacionada à morte, tanto que não destaquei esta parte da história, mas sim, o fato de ambos terem opiniões contrárias e o que isso configurou em último estado. Gostaria, na verdade, de personificar a palavra ‘tiranicídio’ e ‘mártir’. Relembrando que, a discussão a ser feita a partir de agora é política, estritamente, política.

O mártir significa, em seu sentido figurado, aquele que oferece a própria vida diante da outra. O problema vinculante entre o Presidente da República e o ministro da Justiça e Segurança Pública é a questão entre a presidência de 2022 e de quem, afinal, ocupará o cargo de Celso de Mello no STF. O questionamento tem sido bem frequente depois que o ministro fora ao programa da Cultura, Roda Viva, entrevistado e perguntado sobre possível animosidade entre ele e o presidente pareceu algo irrelevante e descartável para Moro, pois, apesar de responder as perguntas, deu aquela famosa saída pela tangente.

Entretanto, no dia seguinte a entrevista, Bolsonaro comentou sobre uma possível separação do superministério de Sérgio Moro. Claramente, o presidente apanhou da direita (e suas variações), uma vez que, não se mexe em time que está ganhando, fato.

Outro argumento que seria necessário trazer ao insight: as opiniões divergentes entre ambos. Realçado quanto ao pacote anticrime, contrariando a observação de seu ministro acerca do Juiz de Garantias. O presidente acabou acatando a emenda de Marcelo Freixo, psolista.

Tiranicídio, a priori, significa a morte de um tirano que, neste artigo, será tratado como um personagem maior, politicamente falando. O ex-juiz Moro tem sido cogitado para concorrer ao cargo de presidente da República no ano de 2022, por esta razão, já há pesquisas em que o mesmo aparece na disputa, e, adivinhem, em um suposto segundo turno entre as figuras aqui retratadas, teríamos:

Poder 360 – intenção de voto (2°turno)

Pois bem, talvez a intenção de Moro não seja a de concorrer à presidência, mas de, simplesmente, fazer o seu melhor no sentido do combate à corrupção, a melhoria da segurança em nosso país, estabelecer metodologias adequadas aos crimes em suas diversas escalas. Porém, o atrito permanece em aberto, já que, membros do próprio governo querem ver sua queda. Será que essa pressão resultará em alguma estratégia drástica?

Mártires estão muito bem relacionados e interligados com a visão de um mito político.

Alguém que quer ser lembrado pelo que é, e, que sejam exaltados pelos seus ganhos, ou até mesmo perdas, porque o que importa é a pose de herói.

A quem será dada a fama de mártir desta ‘nova política’? Quem terá a pena de Marat em suas mãos, posando para o povo, mostrando quanto o poder da articulação pode te fazer rei de uma grande onda de coitados que precisam de alguém para enaltecer cegamente.

Bibliografia :
José Alexandre Tavares Guerreiro – Os grandes Julgamentos da História. Charlotte Corday, pg. 617-625.

Notas:
Patrícia de Camargo – https://www.youtube.com/watch?v=fSkS7w7SDYY
Poder 360 – https://www.poder360.com.br/pesquisas/bolsonaro-lidera-intencoes-de-votos-para-2022-diz-veja-fsb/