Minas Gerais
12 perguntas sobre o conflito com o Irã

O Irã com sua população de mais de 80 milhões de pessoas é um importante consumidor dos produtos agrícolas brasileiros, e as novas sansões anunciadas por Donald Trump em seu discurso no dia 08/01/2020 podem afetar esse comércio dependendo de sua natureza.

10/01/2020 16h16

Por Ivan Gunther

No dia 31/12/2019 a embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque, foi invadida por militantes xiitas ligados ao regime iraniano. Entendendo a invasão como um ato hostil o governo dos EUA no dia 03/01/2020 realizou uma operação com um drone MQ-9 Reaper que resultou na morte do major-general Qasem Soleimani, o líder da Guarda Revolucionária Iraniana e segunda pessoa mais importante do regime. Diante da escalada do conflito e das crescentes ameaças entre atores conflitantes houve um significativo aumento no interesse da opinião pública a respeito desse conflito. Por isso decidi responder as doze perguntas mais recorrentes a respeito do tema no artigo a seguir.

1-Quem era Qasem Soleimani e qual era sua função?

O Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica é um grupo militar integrante das forças armadas iranianas que foi criado após a revolução de 1979 que tem como atribuição garantir a segurança e os interesses do regime xiita comandado pelo Aiatolá. Esse exército conhecido também como Guarda Revolucionária Iraniana tem a atribuição de combater as ameaças externas ao regime e iniciativas de insurgência internas de modo a concentrar grande poder e influência podendo ser comparada com a SS do Terceiro Reich comandada por Heinrich Himmler.

Qasem Soleimani comandava a Força Quds, uma unidade de elite do Exército de Guardiões da Revolução Islâmica, que responde diretamente ao Aiatolá Khamenei. A principal atividade da Força Quds é armar, treinar e conduzir as ações grupos de grupos paramilitares islâmicos no Oriente Médio. Entre os grupos apoiados pela unidade de Qasem Soleimani estão o Hamas da Palestina, o Hezbollah do Líbano, os Houthis do Iêmen, o Kata’ib Hezbollah no Iraque e outros grupos jihadistas em toda a região que cumprem o papel de fazer uma guerra de procuração para o Irã de modo que o país não tenha que diretamente atacar seus oponentes.

Entre os principais feitos da Força Quds sob o comando de Qasem Soleimani está o treinamento e mobilização de grupos na Síria e no Iraque que foram vitais para o combate ao Estado Islâmico. A participação iraniana no combate aos ISIS foi reconhecida até mesmo por Donald Trump em seu discurso proferido no dia 08/01/2020, o que demonstra a importância da unidade liderada pelo major-general Qasem Soleimani de modo que sua constitui um ataque frontal ao regime iraniano.

2-Por que o Irã odeia os Estados unidos?

Até 1979 o Irã era governado pelo Xá Mohammad Reza Phalavi, um monarca absolutista que servia como um governo fantoche dos EUA, gerando assim um crescente descontentamento da população islâmica. O descontentamento com o regime do Xá culminou na Revolução Islâmica liderada pelo Aiatolá Khomeini que veio a se tornar o líder supremo do Irã.

No mesmo ano em que ocorreu a revolução a embaixada americana em Teerã, capital do Irã, foi invadida por militantes revolucionários que sequestraram 52 cidadãos americanos. Os cidadãos sequestrados foram mantidos reféns por cerca de um ano causando um aumento das tensões entre os EUA e o Irã de modo que sansões foram impostas contra o regime islâmico e apoio militar foi dado pelos EUA aos inimigos de Teerã, como foi o caso na guerra do Irã contra o Iraque.

Durante a Guerra contra o Iraque as forças armadas chegaram a atacar embarcações comerciais e militares americanas no Golfo Pérsico, resultando em retaliações pesadas como a destruição de plataformas de petróleo e navios iranianos. Entre as atitudes americanas que mais aumentaram as tensões com o regime está, sem dúvida, o incidente envolvendo um cruzador americano da classe Ticonderoga que alvejou por engano um avião civil vitimando 290 pessoas.

Além das hostilidades militares as sansões econômicas impostas pelos EUA e seus aliados também causaram o empobrecimento do Irã levando a um aumento da animosidade entre os dois países e também a uma maior rejeição da população iraniana em relação a aquilo que viesse do ocidente.

O apoio americano dado aos principais inimigos do Irã como Israel e Arábia Saudita também é um fator que ajuda a explicar a postura do regime iraniano ao armar e financiar grupos terroristas ao redor do Oriente Médio com o objetivo de causar danos a esses aliados do EUA e seus interesses.

3- O que é uma guerra de procuração e qual a sua importância?

Guerra de procuração é um termo utilizado para designar um conflito entre potências maiores realizado indiretamente por aliados mais fracos que recebem apoio logístico, apoio financeiro, armamento, treinamento e etc dessas potências. A função desse tipo de conflito é evitar um enfrentamento direto poupando o território, as forças e a população das potências envolvidas.

Ao longo da Guerra Fria muitas guerras de procuração foram deflagradas entre aliados dos EUA e Aliados da União Soviética sendo as mais famosas a Guerra do Coreia e a Guerra do Vietnã em que forças ocidentais e orientais entraram em conflito sem que as duas superpotências da época se enfrentassem abertamente.

É através desse tipo de estratégia comandada até sua morte pelo major-general Qasem Soleimani que o Irã ataca a maioria de seus inimigos na região de forma a causar danos e não motivar diretamente um confronto. Como exemplos do emprego dessa estratégia temos os constantes ataques realizados pelo grupo Hamas a Israel e o ataque realizado pelos Houthis a uma refinaria da Arábia Saudita em setembro de 2019.

É importante lembrar que criar e equipar grupos terroristas no Oriente Médio não era uma atividade exclusiva de Qasem Soleimani, afinal os EUA já foram responsáveis por armar muitos grupos hoje considerados terroristas como o Talibã, a Al-Qaeda e até mesmo o ISIS mais recentemente.

4- Qual a importância dos recentes eventos para a economia Brasileira?

Como bem ensinou Ludwig von Mises é impossível prever todos os impactos de um acontecimento como esse para a economia, porém algumas previsões podem sim ser feitas. O Irã com sua população de mais de 80 milhões de pessoas é um importante consumidor dos produtos agrícolas brasileiros, e as novas sansões anunciadas por Donald Trump em seu discurso no dia 08/01/2020 podem afetar esse comércio dependendo de sua natureza. Enquanto o setor agrícola corre o risco de sofrer prejuízos é possível que com uma redução na venda de petróleo iraniana ou até mesmo um conflito no Golfo Pérsico resulte em um significativo aumento no valor das exportações de petróleo brasileiras causado por um aumento no preço dos combustíveis decorrente de uma redução de sua oferta no mercado. Tal acontecimento pode encarecer os combustíveis para população mas em contrapartida pode também aumentar o valor de mercado da Petrobras.

5-Por que o Irã é inimigo da Arábia Saudita?

A chave para explicar o conflito entre essas duas potências é a busca das duas por hegemonia regional. Cada uma das duas nações deseja se consolidar como a principal potência islâmica no mundo e hegêmona regional do Oriente Médio, de modo que a cooperação entre elas é impossível.

Além do conflito por influência que tem por trás grandes potências como os EUA, apoiando a Arábia, e a Rússia comprometida em atrapalhar os interesses americanos, existem razões religiosas para a animosidade entre os dois países. No Irã a vertente Xiita do Islamismo é a dominante, enquanto na Arábia Saudita a vertente que comanda é o Salafismo Sunita.  A disputa econômica entre as duas nações também é importante para explicar o conflito pois em razão de serem grandes exportadores de petróleo elas competem pelo mercado externo como usam o Golfo Pérsico como principal rata logística de seus petroleiros existe um estado constante de tensão na região.

6-Qual o interesse americano na região?

 A opinião presente no senso comum é que os EUA tem interesse apenas no petróleo do Oriente Médio e por isso entram em conflito com os países da região, porém a questão da manutenção de sua influência na região é mais importante. Os Estados Unidos da América buscam manter sua posição como potência hegemônica global de modo que todas as regiões do mundo devem estar sob sua influência. Essa busca por hegemonia é o que justifica a presença de forças militares americanas em tantos países com suas bases e porta-aviões de modo de os EUA podem intervir em qualquer região do globo garantindo seus interesses.

 O argumento de que os Estados Unidos da América estão interessados apenas no petróleo iraniano deriva de uma visão infantil de que as decisões dos países tem como única finalidade atender questões comerciais e interesses do capital financeiro. Com firmes raízes no marxismo barato tal tipo de pensamento ignora as questões mais relevantes para a geopolítica global como a balança de poder entre as nações e o dilema de segurança.

 É importante lembrar que os principais aliados americanos na região são Israel e a Arábia Saudita, portanto é de vital interesse para os EUA que o maior inimigo de seus aliados na região não se torne a maior potência regional.

7-Como seria uma guerra entre os EUA e o Irã?

 No cenário atual uma guerra aberta parece improvável visto o pronunciamento de Donald Trump Realizado no dia 08/01/2020 e o aparente recuo iraniano nas hostilidades. Apesar disso uma parcela relevante dos debates que aconteceram em redes sociais tratavam de como se desenrolaria esse conflito caso viesse a acontecer de modo que essa é uma pergunta que merece ser respondida.

 Primeiramente é importante levar em conta a impossibilidade do Irã enviar tropas ao território americano devido ao poder parador das águas, de modo que o conflito deve ocorrer quase exclusivamente no território iraniano e em regiões adjacentes. Vale explicar que o poder parador das águas é um conceito criado por John Mearsheimer que trata da dificuldade das potências superarem grandes corpos de água para exercerem seu poder. O melhor exemplo desse conceito é a posição dos EUA que por estar entre os oceanos Atlântico e Pacífico nunca foi diretamente atacado em seu território tirando os atos terroristas no 11 de setembro de 2001.

 Uma busca simples na internet permite que qualquer pessoa veja que a diferença de poderio militar entre os EUA e o Irã é abissal, sendo a potência americana de longe a mais bem equipada no mundo com recursos, equipamentos e contingente muito superiores ao Irã que não chega nem perto dos números americanos. Para ilustrar tal fato de acordo com o site Global Fire Power os EUA tem um orçamento de 716 bilhões de dólares para investir em defesa enquanto o Irã tem apenas 6 bilhões. Apesar da diferença de força bruta é necessário levar em conta que o poder militar bruto não garante a vitória sozinho, caso garantisse a guerra do Vietnã não teria o desfecho que teve.

 A invasão do Irã tem tudo para ser um evento muito semelhante a invasão do Iraque devido às semelhanças culturais e climáticas entre os dois países, e considerando que a guerra do Iraque custou cerca de dois trilhões de dólares para os EUA o cenário para uma invasão no Irã é sem dúvida alguma preocupante visto seu território três vezes maior, e seu exército mais bem equipado, o que poderia gerar aos EUA um custo algumas vezes maior que o da guerra no Iraque.

 Três fatores são importantes para entendermos como se desenrolaria um conflito e quais seriam os desafios enfrentados pelo exército dos EUA numa invasão do território. Tais fatores são os ativos militares iranianos, o fanatismo religioso da população e os grupos paramilitares leais ao regime que existem em todo o Oriente Médio.

 O ponto forte do exército iraniano em matéria de equipamento e sua tecnologia de mísseis ofensivos como os do tipo Shahab que podem atingir territórios a até 2.000 km de distância com cargas explosivas de até uma tonelada podendo assim atingir tanto os territórios de Israel como da Arábia Saudita. Apesar de contar com uma força aérea centenas de vezes inferior incapaz de enfrentar os F-35 americano a defesa antiaérea iraniana baseada em lançadores de foguetes conta com equipamentos modernos capazes de abaterem aeronaves em curto, médio e longo alcance. A força de blindados iraniana também é um ativo relevante visto que se empregada de maneira eficiente no território montanhoso do país poderá impor severos custos ao avanço americano que mesmo contando com uma quantidade de blindados seis vezes maior não os tem mobilizados para uma invasão no oriente médio visto a necessidade dos EUA manterem sua presença militar em outras partes do mundo. A marinha iraniana por sua vez é fraca se comparada com os poderosos porta-aviões e cruzadores americanos, porém com seus pequenos submarinos é plenamente capaz de causar problemas em todo o Golfo Pérsico dificultando e até impossibilitando a atividade de exportação do petróleo.

 Na guerra do Irã contra o Iraque uma das estratégias utilizadas pelo exército iraniano foi o uso de ondes humanas suicidas, soldados equipados apenas com cargas explosivas que corriam para as linhas inimigas e detonavam suas bombas, tal estratégia demonstra o fanatismo dos soldados que acreditam morrer em nome de Alá. Os soldados americanos pelo contrário não compartilham os mesmos impulsos suicidas de modo que o exército dos EUA tende a se preocupar muito mais com a integridade de seus homens enquanto as forças iranianas podem descartar centenas de milhares de soldados. Vale salientar que o exército iraniano conta com 800.000 soldados enquanto os EUA tem mais de dois milhões, porém o exército iraniano se encontra inteiro no naquele país enquanto o americano tem de ser distribuído ao redor do mundo para lidar com ameaças como a Coreia do Norte, a China, a Rússia entre outras.

 O terceiro fator que pode tornar um conflito com o Irã difícil e danoso é exatamente aquele do qual o major-general Qasem Soleimani se ocupava, a criação de grupos insurgentes paramilitares. Milícias armadas como o Hamas, o Kata’ib Hezbollah e diversos grupos Jihadistas estão presentes em todo o Oriente Médio garantindo que além de lidar com as tropas regulares iranianas o exército dos EUA também vai precisar lidar com esses grupos terroristas atacando suas tropas e o território de seus aliados com artifícios que vão desde homens-bomba a misseis balísticos e drones.

Não é preciso dizer que caso os EUA realmente queiram destruir o Irã aquele regime não tem a menor capacidade de resistir aos bombardeiros furtivos americanos, aos destroyers capazes de lançar centenas de misseis de cruzeiro Tomahawk extremamente precisos, sem falar no arsenal nuclear americano que se empregado reduziria o Irã a cinzas.

8-Um ataque sem retaliação pode alterar o complexo de segurança da região?

Caso a retaliação iraniana pela morte de Qasem Soleimani não seja percebida como eficaz pelos atores no cenário internacional o que vai acontecer é um aumento considerável da influência do Salafismo Sunita na região visto que a Arábia Saudita estará em vantagem. Tal aumento de influência de um aliado dos EUA pode levar potências como a Rússia e a China a tentarem influenciar mais ativamente na região de modo a impedir que um estado aliado dos EUA alcance a hegemonia regional.

Já se a postura americana após os ataques às bases no dia 07/01/2020 for considerada fraca são os aliados americanos na região que perderão influência sendo colocados em uma situação delicada no cenário internacional o que pode motivar outras potências a tentarem reduzir ainda mais a influência americana na região atacando seus aliados, ou seja, é impensável um cenário em que os EUA decidam não reagir a provocações realizadas pelo regime do Aiatolá Khamenei.

 Um fato certo a respeito desse conflito é que as superpotências como os Estados Unidos da América e a Rússia sempre vão tentar fomentar potências regionais para a realizar o balanceamento de poder sem implicar em riscos de confronto direto. Por isso o governo dos EUA apoia Israel e a Arábia Saudita enquanto Vladimir Putin se coloca como um importante aliado da Síria garantindo autoritário de Bashar al-Assad que sem seu apoio já teria caído diante das forças rebeldes ou até mesmo das forças jihadistas do ISIS.

 Citando meu colega Rodrigo Bueno cujos textos podem ser lidos no blog “O Jabotinsky” é importante observar que a postura dos EUA em relação ao Iraque é diferente de sua postura em relação a Síria, afinal o ditador Bashar al-Assad não sofreu o mesmo destino de Sadam Hussein apesar de os Estados Unidos possuírem poder militar de sobra para enfrentar o exército sírio.

9-Qasem Soleimani é o Franz Ferdinand da vez?

 O assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand em 1914 desencadeou um irreversível processo de hostilidade que levou a I Guerra Mundial onde milhões de pessoas acabaram mortas e o cenário geopolítico global foi definitivamente alterado. A morte do major-general Soleimani por se tratar de um evento importante tem sido tratada da mesma forma por leigos que insistem em fazer profecias apocalípticas a respeito de uma III Guerra Mundial.

 Para que o tão temido conflito global aconteça é necessário que a Rússia, China e EUA se envolvam em um conflito direto, e de acordo com o Thomas Schelling a dissuasão causada pela presença de armas nucleares nos arsenais desses países torna um conflito entre eles extremamente improvável. O fato é que a ameaça de aniquilação mutua estimula a prudência até nos regimes mais autoritários e hostis como é o caso da Coreia do Norte que apesar das violentas ameaças não agiu de modo a cumpri-las preferindo uma postura de negociação.

 No cenário atual o mais provável é que aumentem as hostilidades promovidas por grupos como o Hezbollah e o Hamas na região que servem ao propósito das potências que desejam causar danos a outras mas sem promoverem um enfrentamento direto.

 Tanto o ataque iraniano realizado 07/01/2020 que não vitimou nenhum soldado americano como o pronunciamento de Donald Trump realizado dia 08/09/2020 demonstram que não existe uma vontade de escalar ainda mais o conflito nas duas nações.

10-Que interesses a Rússia e a China podem ter no conflito?

 A Rússia tem como principal objetivo na região minar a influência dos Estados Unidos e da OTAN prejudicando os interesses ocidentais. Para Vladimir Putin é inadmissível que os aliados dos EUA alcancem o protagonismo na região e isso justifica suas ações de apoio a grupos e regimes contrários a Israel e a Arábia Saudita.

 A china por sua vez tem menos interesse na região que a Rússia, mas por se tratar de uma superpotência imperialista que tenta tomar o lugar dos EUA no cenário internacional é possível esperar alguma tentativa de intervenção desse país asiático, principalmente através de seu poder econômico que atualmente é o seu maior trunfo.

 A relação entre China e Rússia também é de suma importância para essa análise visto que as duas superpotências competem pela hegemonia na Ásia de modo que uma aliança entre elas é extremamente improvável visto que para a China é interessante que a Rússia seja enfraquecida e para o governo de Vladimir Putin é bom que o regime chinês perca força e influência. Portanto mesmo que tenham os Estados Unidos como oponente em comum é simplista imaginar que tal fato será suficiente para motivar uma aliança entre as duas maiores potências do oriente.

11-Quais fatores internos influenciam as decisões iranianas?

 Na hora de analisar a política externa duas coisas devem ser levadas em conta com maior cuidado, elas são a balança de poder no cenário internacional e a correlação interna de forças nos atores envolvidos. Dentro do Irã os grupos que possuem maior poder são os militares, os religiosos e os exploradores de petróleo, por isso o assassinato do militar mais importante do país tem como resultado certo um aumento da pressão dos militares sob o regime para que ele seja vingado de modo a dissuadir outros atentados contra os militares.

 O fanatismo religioso da população por sua vez é uma espada de dois gumes, pois apesar de ser benéfico para motivar os combatentes iranianos também faz com que o povo espere respostas enérgicas a qualquer agressão realizada contra o regime instaurado por Alá. Tanto a pressão realizada pelos militares quanto a pressão da opinião pública servem para justificar os ataques realizados pelo Irã às bases americanas numa situação em que as ameaças feitas por Donald Trump já seriam suficientes para dissuadir qualquer iniciativa de retaliação.

12-Quais fatores internos influenciam as decisões americanas?

 Existem dois fatores de grande importância no cenário interno americano para explicar a decisão dos EUA de matar o major-general iraniano, elas são o processo de impeachment do presidente Donald Trump e a vantagem do incumbente que o presidente dos EUA possui.

 Durante seu processo de impeachment Donald Trump tem sido atacado tanto por opositores quanto pela mídia de modo que a criação de um conflito para desviar a atenção e ocupar a mídia serve bem a seu propósito de não perder popularidade com o impeachment, mesmo que tal processo tenha reduzidas chances de ser aprovado pelo senado americano é necessário lembrar que o maior interesse de Donald Trump é a sua reeleição para um segundo mandato.

 A vantagem do incumbente é um termo usado na ciência política para designar a vantagem que um político já eleito tem ao se candidatar a uma reeleição. Trata-se da possibilidade de distribuir dinheiro em forma de emendas, comprar aliados com dinheiro público, fazer programas que agradem determinados eleitores ou até mesmo conceder espaço na máquina pública para aliados seja através de indicações para gabinetes ou estatais. Nos EUA uma das principais características dessa vantagem é a possibilidade que o presidente tem de aumentar sua popularidade matando terroristas famosos, Barack Obama matou Osama Bin-laden, Bush capturou Sadam Hussein e agora Donald Trump foi responsável por matar o líder do ISIS Abu Bakr al-bhagdadi e o comandante da força Quds Qasem Soleimani.

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