Kim Kataguiri
Escolas e futebol
Parece óbvio que devemos priorizar aquelas atividades que são consideradas essenciais

Conforme a pandemia que nos acomete se torna uma ameaça mais controlável (mas nem por isso menos séria), podemos ensaiar uma volta à normalidade, mesmo que de forma tímida. Estamos todos ansiosos para retomar nossas atividades, revertendo os enormes danos econômicos e sociais que o coronavírus nos deixou. Aos poucos, vamos retomando nossas vidas, mesmo sabendo que uma vitória definitiva só virá com uma vacina.

A questão que se coloca diante de nós é: como fazer uma retomada? Não podemos, da noite para o dia, levantar todas as restrições sanitárias. A nossa volta à normalidade tem que ser lenta, segura e gradual (já dizia o velho Geisel, cujo ímpeto antidemocrático e estatizante nos lembra o atual governo). Temos que escolher quais atividades retomar e, apenas após conseguirmos retomá-las com segurança, poderemos voltar às demais.

Parece óbvio que devemos dar prioridade àquelas atividades que, por serem muito importantes, inadiáveis e terem que ser feitas de forma presencial, são consideradas essenciais. A educação infantil é o melhor exemplo: crianças não podem receber uma escolarização adequada apenas pela internet; é preciso que elas se encontrem, brinquem, socializem, corram, enfim, tenham uma vivência lúdica, que propicia um desenvolvimento não só pedagógico, mas físico, emocional e social. Elas precisam comer, ser vacinadas, ser abraçadas, ser estimuladas e, acima de tudo, ser mantidas à salvo de qualquer ameaça. Nós prometemos isto a elas no art. 227 da Constituição e em tratados internacionais da maior importância.

No Brasil, entretanto, pouca coisa é óbvia. Diversos governos têm autorizado a volta das atividades esportivas e, concomitantemente, têm se recusado a promover a volta às aulas. Supostamente, isto seria justificado por um anseio de proteger as crianças que, se voltassem à escola, estariam vulneráveis ao coronavírus.

Temos poucas certezas com relação ao coronavírus, mas uma delas é que as crianças são o grupo menos vulnerável de todos. Sabemos também que as crianças precisam do espaço físico da escola para aprender, brincar e se desenvolver. É preciso ser dotado de muita insensibilidade para confundir a educação infantil com uma educação superior, que pode (mesmo que com considerável prejuízo) ser feita pela internet. Chega a ser cruel querer que uma criança fique sentada por horas em frente a um computador, assistindo uma aula.

Os contra-argumentos que apresentei no parágrafo acima deveriam bastar, mas, infelizmente, ainda temos outras - e mais graves - questões envolvendo o fechamento das escolas. Muitas crianças vão às escolas para comer e muitos pais dependem da escola para deixar os filhos em um lugar seguro enquanto trabalham. Com as crianças fora da escola, os pais não conseguem trabalhar, ou têm que deixar os filhos aos cuidados dos avós - e sabemos que os idosos são o grupo mais vulnerável ao coronavírus. Se os pais trabalham virtualmente, de casa, as crianças atrapalham e muito a rotina laboral; se os pais trabalham presencialmente, não têm com quem deixar as crianças. Já dá para perceber o tamanho do problema.

Chega? Já é suficiente? Receio que não. A coisa fica ainda mais grave. As escolas são um refúgio para as crianças que são submetidas a alguma forma de violência doméstica. Os professores e funcionários podem perceber que a criança é submetida a um tratamento inadequado em casa e entrar em contato com as autoridades competentes. Sem as escolas, as crianças ficam à mercê da violência doméstica, sem ter ninguém que lhes ajude.

É possível reabrirmos escolas de forma segura e controlada, adotando protocolos que protejam a saúde de funcionários e professores. O que não é possível é priorizarmos o futebol às escolas e, cinicamente, dizer que somos um Estado de Direito. Ora, Estado de Direito cumpre a Constituição. A nossa determina que devemos pôr as crianças à salvo de violência e priorizá-las nas políticas públicas. Estamos fazendo isso?

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