Kim Kataguiri
Eleições 2020
Com o fim das eleições, resta fazermos as contas e analisar quem foi vencedor e vencido

Terminado o ciclo eleitoral de 2020, resta fazermos as contas e analisar quem foi vencedor e vencido - e o que isto pode significar para 2022. Antes, porém, é preciso lembrar que análises devem ser feitas de forma dissociada das nossas preferências. Parece óbvio, mas em tempos de fanatismo político, em que a realidade perde espaço para a ideologia, o óbvio nem sempre se presume.

Arthur do Val
Arthur do Val (Reprodução/Instagram)

Comecemos pelos vencedores.

Um dos vencedores de 2020 foi o PSOL. O aristocrata Guilherme Boulos, oriundo da classe alta paulistana, finalmente deixou de ser um candidato insignificante para ser uma alternativa na esquerda, apesar de ainda não se mostrar como candidato viável para vencer pleitos majoritários. A tática do PSOL de apostar na paranoia identitária que contaminou a esquerda americana, deu frutos. Os bairros ricos de São Paulo, embriagados pelo discurso identitário do PSOL, deram ao partido seis vereadores e colocaram Boulos no segundo turno. Não nos esqueçamos, porém, que a empolgação dos ricos eleitores do PSOL e da mídia que os festeja é superior à realidade; a diferença final entre Boulos e Covas foi muito grande (cerca de vinte pontos).

Após o PSOL, outro vencedor foi o MBL. O Movimento conseguiu manter-se como uma alternativa da direita liberal e democrática contra o Bolsonarismo tosco. Arthur do Val, que foi insistentemente tratado pela mídia como candidato nanico, conseguiu quase 10% do total de votos na capital, apesar do tempo diminuto na TV e da insistência do Datafolha em colocá-lo na casa dos 3%. Lembremos que esta é apenas a segunda eleição de Arthur; a primeira, em 2018, rendeu-lhe uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo com mais de quinhentos mil votos. Em 2020, esta foi a quantidade de votos que ele conseguiu apenas na capital paulista. Quem insiste em ver Arthur como uma excentricidade vai se dar mal.

O MBL também conseguiu triplicar as suas cadeiras na Câmara de Vereadores da Capital, reelegendo Fernando Holiday com um aumento de 40% dos votos em relação a 2016. Rubens Nunes, o famoso Rubinho, também foi eleito. Outros vereadores foram eleitos em diversos lugares do Brasil. Nada mal para um movimento que foi alvo do bolsonarismo e da esquerda.

O DEM é outro vencedor. Não só prevaleceu no tumultuado município do Rio de Janeiro, mas ainda fez um expressivo número de prefeitos e vereadores.

No meio do caminho, entre vitória e derrota, está o PSDB. Sim, o partido ganhou a eleição em São Paulo, mas boa parte da vitória é explicada pela aversão da classe média e baixa paulistana ao socialismo representado pelo PSOL. Ainda, Covas está atrelado ao governador Dória e logo terá que enfrentar o dilema entre continuar prefeito ou renunciar e se candidatar ao governo do Estado - como fizeram antes dele o próprio Dória e José Serra. O dilema existe porque João Dória, sempre obcecado pelo poder, será candidato à presidência em 2022. Se Covas renunciar, deixará a cidade das mãos do MDB, o que pode gerar impressão negativa no eleitorado paulistano. O PSDB ainda tem o trunfo de, junto com o PT, ter a maior bancada na Câmara de São Paulo (oito vereadores), mas o fato é que o partido tem cheiro de uma melancólica decadência.

No triste campo dos perdedores há o eterno candidato Russomano, que deixa de ser visto como força política séria. Não se pode perder tantas eleições seguidas, sempre da mesma forma - começando bem e terminando mal, tropeçando nos debates, tendo um discurso fraco e confuso, etc. - e continuar sendo uma força viável. Aliás, é bom que o povo se lembre (e o MBL o lembrará) que Russomano foi o candidato de Bolsonaro.

Também no campo dos perdedores há Márcio França. Alçado ao governo do Estado em um curto mandato em 2018, já que o então governador Alckmin candidatou-se à presidência da República, França acreditou (sabe-se lá por qual motivo) que era uma nova força política paulista. Animado, concorreu ao governo do Estado Não conseguiu vencer João Dória e podemos até dizer que só houve segundo turno porque os eleitores paulistanos rejeitaram Dória, em parte por conta da sua deslavada mentira de continuar na prefeitura até o fim do mandato. França, porém, acreditou que ainda era relevante e saiu candidato à prefeitura, tendo obtido um sombrio terceiro lugar. Possivelmente continuará acreditando na própria relevância e será candidato ao governo do Estado em 2022, obtendo outro resultado pífio.

Para finalizar, o maior dos perdedores é o PT. Jilmar Tatto, candidato do partido em São Paulo, ficou em um patético sexto lugar. Tatto não conseguiu responder os questionamentos sobre sua suposta ligação com grupos criminosos, sofreu com o fato do PT ainda não ter conseguido fazer a transição para uma pauta identitária (o que aos poucos vai fazendo, de muita má vontade) e pela péssima avaliação que o último prefeito petista, Fernando Haddad, teve. Sim, o PT ainda tem, junto com o PSDB, a maior bancada da Câmara paulistana, mas isto se deve em boa parte à votação expressiva de Eduardo Suplicy - que, aliás, teve menos da metade da votação de 2018 e perdeu as duas últimas eleições ao Senado.

O PT é, portanto, apenas uma sombra do partido poderoso que outrora comandou o Brasil por meio de propinas e que sonhou em fundir-se com Estado, solapando a própria democracia.

Cumpre, porém, sermos cautelosos. O PT está ferido, mas não morto. Pode ressuscitar como uma fênix. Ou como uma jararaca.

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