Kim Kataguiri
Covid e o fim do liberalismo
Uma análise afastada das falácias retóricas nos mostra claramente que o que ocorre é o contrário

Tempos de peste no Brasil e no mundo. Pessoas morrem, a economia para. O resultado é sofrimento, desemprego e desespero. Um povo cada vez mais castigado pela pandemia procura, desesperadamente, o Estado. Pede auxílio emergencial para pagar as contas e alimentar os filhos, pede remédios, vagas na UTI, respiradores. De um jeito ou de outro, o Estado dá um apoio, mesmo que deficiente.

O Estado agiu e, ao fazê-lo, poupou as pessoas de pelo menos parte do sofrimento. O resultado é largamente anunciado: o liberalismo acabou. Quem pregava um Estado mínimo não contava com um vírus, cuja devastação só pôde ser impedida por um providencial Estado. A lição é clara: mais Estado significa mais direitos e menos sofrimento. De novo, temos o fim da História, mas o grande vencedor da vez é o estatismo.

Ledo engano, claro. Ou melhor, má-fé de quem explora uma desgraça para promover uma ideologia. Uma análise afastada das falácias retóricas nos mostra claramente que o que ocorre é o contrário: o Estado liberal é o que pode dar a melhor resposta à crise da Covid-19 e similares.

O que é o Estado liberal? Linhas muito gerais, é um Estado que garante a ordem na sociedade por meio da edição de leis e do cumprimento dos contratos, deixando aos atores privados o controle da economia. Eventualmente, o Estado liberal pode pôr alguns mecanismos de controle na economia, a fim de impedir abusos. O Estado liberal tem uma predileção por não prestar diretamente os serviços públicos por um motivo simples: serviços geram gastos, que são pagos com impostos, que por sua vez retiram o dinheiro das pessoas. Não por outro motivo, os defensores do Estado liberal querem uma renda universal, que é um mecanismo simples, alheio à burocracia estatal e que permite às pessoas escolher quais serviços consumir.

Este Estado liberal, evidentemente, é muito mais enxuto, e tem uma tendência maior a um equilíbrio fiscal. As dívidas, que paralisam economias, são a marca das políticas da social-democracia. Sem dívidas, o Estado liberal tem algo raro no mundo todo: fôlego fiscal para agir em situações de emergência.

Numa situação anômala, o Estado liberal tem espaço orçamentário para se endividar e, temporariamente, expandir o serviço público, o que pode ser feito de forma rápida pela contratação de serviço privados. Passada a anomalia, volta-se ao equilíbrio fiscal e a dívida contraída é paulatinamente paga.

Há, ainda uma vantagem: sem o endividamento permanente e o inchaço da máquina pública, a recuperação econômica é mais rápida. Eventual déficit pode ser mantido por mais tempo, para que baixos impostos incentivem uma retomada.

A pandemia passará. O problema é que a recuperação econômica será lenta, porque o Estado brasileiro e outros países, eternamente pressionados pelas dívidas contraídas para manter o seu aparato, não conseguirão dar os benefícios fiscais necessários à rápida retomada econômica e, pior, abandonarão os mais carentes, que dependem de auxílio-emergencial, porque sua extensão não cabe no orçamento espremido entre juros e salários.

Pensemos duas vezes, portanto, antes de anunciar o fim do liberalismo. A História é bem caprichosa e costuma trair previsões.

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