Kim Kataguiri
Biden ganhou
Só tolos brigam com amigos e família por causa de políticos

    Joe Biden, o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, ganhou as eleições. É fato consumado e teorias da conspiração não vão nos ajudar a entender esta importante mudança no cenário político. Biden é o novo presidente-eleito dos Estados Unidos e está aguardando o dia 20 de janeiro de 2021 para tomar posse. Como isso mudará as nossas vidas, se é que muda?

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden (Kevin Lamarque/Reuters)

    Antes de mais nada, convém lembrar uma lição conservadora: política não é religião. Em política, há diálogo e busca por um senso comum; nada é questão de fé. O fato das preferências políticas terem virado algo tribal, parecido com torcidas de time de futebol (que preferem o time A ao time B sem maior explicação lógica) fala muito - e muito mal - sobre o nosso tempo. Por isso, esqueça, por um minuto, a sua preferência. Se você gosta ou não de Biden, se você preferia que Trump tivesse sido reeleito, não é algo que interessa no momento. Se você, eu ou qualquer de nossos entes queridos falecessem hoje, Trump ou Biden não estariam minimamente interessados em nossa dor. Convém lembrar isto e jamais - friso: jamais - brigar com amigos ou família por causa de política. Os políticos, quando interessa, esquecem velhas rusgas e se tornam grandes companheiros. Só tolos brigam com amigos e família por causa deles.

    Feita esta advertência, voltemos ao cenário: é dia 20 de janeiro de 2021, um dia gélido de céu azul em Washington. Biden toma posse. Discursos, bailes, jantares, etc. Tudo muito bonito. Agora, vamos ao dia 21 de janeiro. O que acontecerá?

Em política interna, Biden herdará um país absolutamente fraturado, dividido em dois campos que se odeiam. Na remota hipótese dele me ligar pedindo ajuda, eu o aconselharia a fazer um governo moderado, clamando sempre por união nacional e estendendo a mão aos republicanos. Duvido, no entanto, que ele aceite o conselho deste humilde deputado tupiniquim. O partido democrata está afogado na pauta identitária e também incentiva a polarização excessiva. As bases exaltadas elegeram Biden e sossegá-las não será fácil.

Sem diálogo, Biden terá dificuldade para lidar com os problemas internos. Além das tensões causadas pelas acusações de violência policial motivadas por racismo, há um déficit orçamentário anual quase trilionário e uma dívida externa avassaladora. É preciso equacionar isto e não será fácil.

Em política externa, Biden deve voltar a um tom mais moderado, com valorização de foros multilaterais. Significa voltar a ter uma atuação mais forte na ONU, parar de boicotar a OMC e ficar no acordo de Paris. Boas notícias? A princípio, sim, mas significa também pressionar o Brasil por conta das questões ambientais, o que pode gerar estresse, já que a estratégia de defesa brasileira tem ênfase na soberania sobre a Amazônia. A relação será complicada e o governo Bolsonaro deve admitir que a aposta em uma diplomacia personalista com o governo Trump foi um fiasco e passar a refazer a relação diplomática com os EUA. Não devemos abrir mão de um centímetro de soberania, mas tampouco devemos ter má vontade com um novo governo só porque ele não agrada ao chefe do clã Bolsonaro e aos seus ideólogos conspiracionistas. Deve-se buscar uma política de conciliação, cooperação e apaziguamento.

O problema é que Bolsonaro, como se sabe, não é dos mais brilhantes estadistas (aliás, o termo “estadista” não se aplica a Bolsonaro). Ele ouve os seus próprios estrategistas que, do longínquo Estado americano da Virgínia, sopram teorias malucas em seus ouvidos influenciáveis. Fazer Bolsonaro ser pragmático e racional não é tarefa das mais simples.

No mais, o governo Biden pode dar espaço à nova esquerda americana, mais radical, sem medo de se dizer socialista e obcecada com a pauta identitária. É justamente esta nova esquerda que impedirá que o governo Biden seja um governo de pacificação nacional, como ele pretende. A nova esquerda funciona, justamente, com uma retórica identitária, inflamada e divisionista. Ela se vê como a heróica redentora dos oprimidos, e todo herói precisa de um vilão.

 Por influência, a esquerda brasileira tentará dar ênfase a esta pauta identitária. O PSOL já o faz; o PT, que não tem nenhum interesse sincero nisto (vejam as declarações não muito politicamente corretas que Lula fez nos anos 80 e 90 sobre homossexuais), está se vendo forçado a fazê-lo, por instinto de sobrevivência.

Devemos contra-atacar com uma doutrina liberal-conservadora que reforce os cânones da igualdade, em que ninguém deve ser julgado (positiva ou negativamente) por cor, sexo ou origem, mas somente pelo mérito e pelo caráter. Não podemos ter medo desta briga. A guerra cultural virá, inevitavelmente - aliás, já está vindo. Devemos nos certificar que estamos prontos para ela.

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