Israel Russo
Jornalista e professor de filosofia.
Peças sobre a mesa: o quebra-cabeças está sendo montado
O brasileiro carece de uma visão holística necessária para entender a importância de cada fato isolado

O brasileiro carece de uma visão holística. A analogia do caso Queiroz com um quebra-cabeça – por diversas vezes aludida nas lives do Café com MBL – é ideal para compreender essa condição da psique tupiniquim.

Fabrício Queiroz entre a filha Evelyn e Flávio Bolsonaro
Fabrício Queiroz entre a filha Evelyn e Flávio Bolsonaro (Reprodução)

É inegável que a qualidade do debate público por aqui é medíocre, embora haja movimentações para tentar mudar esse quadro. Um dos fatores determinantes para isso é o avanço das massas que passam da condição apolítica para política.

Não é um problema em si, mas é justamente isso que faz emergir ideias e opiniões reducionistas, que não são precedidas pelo holismo. É gravíssimo tentar entender o todo reduzindo-o a uma de suas partes; sendo o que causa a proliferação de narrativas deturpadas.

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Vejamos, portanto, o caso mais atual para compreendermos esse fenômeno. Será muito fácil encontrar apoiadores do Governo Bolsonaro desmerecendo o vídeo da reunião ministerial do dia 22 e satirizando o fato de ela ser "a bala de prata" contra o presidente.

A imprensa possui parte da culpa por alvoroçar os sentimentos e a expectativa com a divulgação da gravação que seria a prova cabal. Não há prova cabal neste caso, pois é um conjunto de peças que compõem o todo.

O bolsonarista desdenha de qualquer novo fato sobre o desenrolar do caso Flávio Bolsonaro ou avanço nas investigações sobre a suposta interferência do presidente na Polícia Federal. No entanto, isso apenas demonstra o quão incauto são aqueles que se negam a ver o plano maior dos fatos.

É importante entender que Bolsonaro não é cachorro morto; sua popularidade segue estável após a prisão de Queiroz e 64% da população acreditando que o presidente sabia o paradeiro do ex-policial. Por outro lado, as peças estão sobre a mesa, o quebra cabeça está sendo montado.

Em janeiro de 2019, Bolsonaro deixou de repetir seu chavão "me chama de corrupto", pois o Coaf detectou atividades financeiras suspeitas nas contas de Fabrício Queiroz. Desde então começou-se a costurar um acordão com o Supremo para paralizar as investigações, o que melou a CPI da Lava Toga.

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Depois de mais de um ano, o Ministério Público do Rio de Janeiro finalmente conseguiu andar com o caso e o ex-assessor de Flávio Bolsonaro foi preso. O MP começa a achar indícios de envolvimento de Jair Bolsonaro com o esquema, mas o mais importante: uma anotação de Queiroz.

Na agenda do ex-policial está anotado o número de "Aroldinho Federal", que o MP suspeita ser parte do "sistema de inteligência" particular do presidente, citado por ele na reunião ministerial.

Esse fato se liga à denúncia do empresário Paulo Marinho, que afirmou que Flávio Bolsonaro teve informação antecipada por um informante da PF sobre a operação Furna da Onça, que iria chegar em Queiroz. Tendo ciência disso, o então deputado estadual demitiu seu assessor, ao mesmo tempo que Jair demitiu Nathália Queiroz de seu gabinete.

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A denúncia de Marinha se conecta com as alegações de Sergio Moro, que deixou o governo após Bolsonaro supostamente tentar interferir na PF. A primeira prova do ex-ministro foi uma conversa em que o presidente reclama da notícia do Antagonista de que a corporação está na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas.

Meses depois o ministro Alexandre de Moraes quebrou o sigilo de 11 deputados aliados do governo no inquérito das fake news, a pedido do PGR Augusto Aras. A gravação da reunião é outra peça importante para explanar a intenção do presidente de interferir.

O que de fato foi feito logo após a exoneração de Moro: Bolsonaro tentou nomear Alexandre Ramagem para a direção da PF, mas foi impedido por Moraes, pois se tratava de uma nomeação suspeita devido as ligações de Ramagem com os filhos de Jair.

O esquema de rachadinha, informações privilegiadas e tentativa de interferência nos órgãos de investigação; todos os fatos estão interconectados e faz-se necessário um olhar holístico para compreender-se a importância de cada peça do quebra-cabeça.

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