Israel Russo
Jornalista e professor de filosofia.
O discurso do Corvo da Guanabara ao Brasil de 2020
Palavras de Lacerda ecoam no cenário atual e alertam para a importância da liberdade de imprensa

Toda vez que me questionam sobre o papel da imprensa, recorro ao filme “O Cálice Sagrado”, do grupo de comédia britânico Monty Python. Em uma das cenas iniciais, o rei Arthur encontra uma súdita e diz: “Como vai, boa senhora? Sou Arthur, o rei dos bretões”. A mulher questiona: “rei de quem?”; “dos bretões”, responde o rei. Mas “quem são os bretões?”, volta a questionar a súdita.

Carlos Frederico Lacerda
Carlos Frederico Lacerda

Apesar de cômica, a cena ilustra como eram as comunidades apolíticas do século V, quando Johannes Gutenberg ainda não tinha aprimorado a prensa móvel para imprimir jornais. O papel da imprensa é garantir com que o súdito saiba quem é o rei Arthur e o que ele faz. Na República brasileira, existem três poderes e o papel da imprensa é fiscalizá-los e informar aos cidadãos sobre as ações desses.

Assim como a definição de filosofia, o papel da imprensa não é consenso, mas esse certamente é um deles. Pelo menos assim pensava Carlos Lacerda, um dos maiores jornalistas da história do Brasil, que acreditava que através da corrupção da imprensa e da intimidação da mesma que se acaba por corromper e intimidar a própria opinião do povo.

"É que quando se quer envenenar uma nação, começa-se por envenenar as fontes do conhecimento público, começa-se por envenenar as fontes de informação, sem as quais o povo não sabe o que se passa, ou, pior ainda, só sabe errado aquilo que se passa certo", disse Lacerda em seu memorável discurso de 1953.

No contexto, o Corvo da Guanabara (como ficou conhecido Lacerda) denunciou o governo de Getúlio Vargas por cooptar o grupo de Samuel Wainer - dono do jornal Última Hora - que possuía uma série de contratos ilícitos envolvendo o Banco do Brasil e o grupo governista (algo em comum com o cenário atual?).

Esse discurso foi o estopim da guerra entre o Corvo e Vargas, pois além de denunciar as atitudes ditatoriais do governo, também apontava a corrupção que ocorria por debaixo dos panos. Vargas sempre foi muito afeito à propaganda, não somente pela influência do fascismo italiano de Mussolini, mas por ser o instrumento ideal para combater a imprensa.

A recriação do Ministério das Comunicações pode significar uma perda hoje, mas as falcatruas envolvendo dinheiro público e sites governistas já começaram a aparecer. Apesar das diversas declarações antidemocráticas do governo atual, a guerra real acontece no campo da informação, pois é por meio do domínio da informação que se trancafia uma nação a um poder totalitário.

Segundo Lacerda, o negócio entre Vargas e Wainer não se resume aos milhões de cruzeiros que o segundo recebeu, mas foi também um ataque à confiança do povo na democracia. A maioria dos presidentes brasileiros, em toda história da República, nunca tiveram uma relação muito harmônica com a imprensa, pois esta cumpriu, na maior parte das vezes, seu dever de fiscalizar.

“O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”, disse o rei Salomão no livro de Eclesiastes. De fato, não há nada novo, Vargas prometeu que iria combater e punir corruptos, mas nada fez quando a corrupção cantava nos cofres do Banco do Brasil.

A imprensa na República das Bananas é rechaçada e hostilizada, mas de Getúlio em Getúlio, não se pode tergiversar ao dever de ser o sentinela da informação e do conhecimento público. Não poderia haver melhor representação do dever da imprensa do que no Corvo da Guanabara, o homem que derrubava presidentes.

O discurso de Lacerda ecoa no ano de 2020 e alerta o povo brasileiro sobre a importância de se preservar a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão, direitos fundamentais de todo Estado Democrático de Direito e a única via para estabelecer uma relação entre governantes e governados.

continua em outra matéria