Israel Russo
Jornalista e professor de filosofia.
Novos planos de Bolsonaro não incluem Guedes
Na guerra sobre o teto de gastos, o presidente, confiante, já decidiu qual caminho seguir

Jair Bolsonaro está em êxtase, tomado pelo sentimento de invencibilidade e decidido a seguir no caminho que lhe proporcionou estabilidade no cargo, além do notório crescimento de popularidade.

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro
Paulo Guedes e Jair Bolsonaro (Divulgação/PR)

Esse caminho, no entanto, vai na contramão da agenda liberal de seu "superministro" da Economia, que já não é tão super assim, Paulo Guedes. O ministro estava até sendo maleável em relação ao caráter populista das políticas do presidente, mas a saída de Paulo Uebel e Salim Mattar foram um golpe nas bases de Guedes.

Fica difícil sustentar o discurso privatista e desestatizador quando os responsável pelas áreas deixam o governo alegando que as privatizações e reforma administrativa não irão acontecer. O chicaguista busca no dilema do teto de gastos uma saída honrosa, uma válvula de escape, no passo em que coloca Bolsonaro contra a parede.

Todavia, o ministro não escolheu boa hora pra isso, já que o subsídio do auxílio emergencial e a presença em inauguração de obras no nordeste aumentaram a aprovação do presidente. Jair foi ao nordeste, sentiu o calor e o culto do povo mais carente, isso o deixou confiante.

Além disso, o governo perdeu ministros como Henrique Mandetta (Saúde), Sergio Moro (Justiça) e Abraham Weintraub (Educação), mas no final das contas nenhuma das saídas fez a popularidade do presidente cair para a zona de perigo do impeachment.

A confiança está nas nuvens, exonerar Guedes passa a ser uma possibilidade. Seria como abrir caminho para a agenda desenvolvimentista dos ministros "fura-teto" e manter a aproximação com o centrão, aliados que iriam adorar a responsabilidade fiscal.

Bolsonaro quer obras, mas para isso precisa furar o teto, que prevê apenas obras ligadas ao combate à pandemia do coronavírus. Guedes tenta segurar o presidente apontando que os 600 reais já estão ajudando bastante na imagem do governo, argumentando que o plano antiliberal pode ficar para 2021.

Mas o descontentamento de Jair com as falas do ministro da Economia sobre a zona do impeachment e as vozes palacianas indicam que Guedes não passa de dezembro.

O presidente achou a receita do sucesso: substituir o maior trunfo do PT no nordeste. O Renda Brasil vem como um metrô linha 743, na qual as pessoas só enxergam o auxílio e esquecem os escândalos de corrupção, os crimes de responsabilidade e os 100 mil mortos em decorrência da Covid-19.

Esse caminho de caráter lulista adotado pelo atual governo não inclui um ministro liberal, mas o que o novo Bolsonaro confiante de si não está levando em conta é todo cenário econômico, sem se perguntar até quando conseguirá manter as políticas populistas.

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