Israel Russo
Jornalista e professor de filosofia.
É ético torcer pela Covid-19?
O polêmico artigo da Folha de São Paulo suscitou um debate acerca da justificação da "morte lógica"

A coluna de Hélio Schwartsman suscitou reações de todos os tipos desde a sua publicação. Embora seja um texto mal escrito e com uma argumentação rasa, gerou um debate ético muito interessante em torno do tema: é eticamente permissível desejar ou torcer pela morte de alguém?

Jair Bolsonaro e Hélio Schwartsman
Jair Bolsonaro e Hélio Schwartsman (Montagem)

Para Schwartsman, sim. Ele se baseia em uma ética consequencialista, que elevada à última potência, serviria para justificar muito mais do que a morte de Bolsonaro. Apesar de parecer grotesco, é preciso entender os argumentos apresentados para poder fazer uma réplica.

Na ética consequencialista, o que define se algo é correto ou não são suas consequências; uma ação será correta se provocar o maior bem possível para a humanidade. Por isso, no entendimento de Hélio, desejar a morte de Bolsonaro seria correto, pois isso salvaria muitas vidas.

Apesar de o colunista trazer alguns dados da FGV, é impossível mensurar o número de mortes reais que foram causadas pelas ações de Bolsonaro, muito menos querer prever a quantidade de óbitos que ainda poderão ser causadas pelo presidente.

Hélio reconhece que, para usar esse argumento, precisa abandonar a deontologia, mas nós devemos retomá-la para entender o porquê de ele estar errado.

Por meio da razão, o ser humano é capaz de traçar princípios segundo o qual ele age. Esse princípio é tido como uma máxima, sempre subjetiva. Por outro lado, os imperativos categóricos são objetivos e uma máxima é ética quando se adequa a esses imperativos.

O primeiro imperativo é agir de tal modo que a máxima de uma ação possa ser tomada como uma lei universal. Isto é, universalizar um princípio subjetivo segundo o qual toda humanidade iria agir. O segundo imperativo estabelece que, justamente pela capacidade de conseguir seguir a lei moral, toda humanidade deve ser tratada como um fim em si mesmo, não como um meio.

Portanto, a ética deontológica (mais especificamente a kantiana) não legitima o desejo da morte lógica de um ser humano para alcançar o fim de maior benefício para a humanidade.

Primeiramente, essa máxima não poderia ser universalizável. Ora, se torcer pela morte de Bolsonaro para talvez salvar vidas se adequa em uma lei universal, então seria correto desejar o falecimento de qualquer pessoa que pode provocar a morte de duas pessoas.

É aí que entra o conflito com o segundo imperativo. Suprimir o valor de uma vida por acreditar que duas valem mais que uma, possibilitaria fazer uma equação em que seria correto desejar a morte de qualquer pessoa pelos argumentos tão especulativos quanto os usados por Hélio.

Toda vida é um fim em si mesmo, com um valor que não pode ser quantificado, justamente por isso não pode haver cálculo sobre esses valores. Seria correto, portanto, desejar a morte de alguém que furou (antieticamente) a quarentena, se infectou e transmitiu para dois familiares que vieram a óbito?

Esse tipo de pensamento que tenta quantificar o valor de uma vida de forma utilitária, quando elevado à última potência, pode justificar qualquer tipo de atrocidade, como por exemplo, o comunismo, o nazismo, etc. Regimes ditatoriais que assassinaram milhões em prol de um suposto bem maior.

Além de ser um argumento falho, é arrogante e prepotente, pois o seu idealizador toma para si a competência de definir o valor da vida e ainda prever o que aconteceria em decorrência dessa quantificação.

Portanto, não é ético torcer pela morte de alguém pressupondo que haverá uma suposta consequência benéfica para a humanidade. Pelo menos é assim que pensa alguém que toma cada ser humano como um fim em si mesmo.

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