Alan Egami
Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Fraude, tolos e militantes no bolsolavismo
O suicídio da direita na guerra cultural

Emprestando o título do livro de Sir Roger Scruton para definir a nova direita brasileira vemos a estrutura do fenômeno político social do “bolsolavismo”. O bolsolavismo é a combinação de fraude política de Bolsonaro e intelectual espiritual de Olavo que opera por meio de militantes ideológicos ou profissionais que manipulam tolos. 

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A ascensão do deputado Jair Bolsonaro se deve à produção de conteúdo midiático, especialmente a partir de redes sociais, sustentado pela insatisfação popular em relação à política. O discurso político de Bolsonaro sempre foi de confronto, ou seja, a própria negação da política, associado ao rebaixado padrão moral quanto ao trato do seu “opositor”, empregando a ofensa como forma de cativar o público e proporcionar um espetáculo de ignorância. A popularidade é produto das paixões mais negativas, representada por um anti-intelectualismo. 

O ambiente virtual, através de uma militância (grande parte espontânea), conseguiu construir uma linguem cativante para o público, adotando tons sarcásticos, estética alternativa e eficaz para demonstrar a contradição dos discursos opositores. A imagem do deputado passou a ser um fenômeno das redes, que tem grande influência e alcance na vida brasileira. Um modismo no qual as pessoas buscam se inserir para se sentir incluídas, alimentando a formação da massa, que na pós-modernidade tem um componente importante que é a presença em redes sociais fértil na criação de narrativas. Muitos oportunistas se travestiram em militantes mimetizando a postura descrita. A massa é formada por tolos e é fortemente atraída pelo discurso de rivalidade, desprezo e violência, explicando a convergência entre a opinião pública e a narrativa política formulada por Bolsonaro.

O vazio propositivo do deputado Jair Bolsonaro foi preenchido pela destruição institucional promovida pelo governo petista que solapou os cofres públicos para abastecimento de uma máquina de corrupção para sustentação do seu domínio político e enfraquecimento institucional por meio da fisiologia que desmoronou com a Operação Lava Jato. A operação judicial exerceu o papel institucional ausente nos mecanismos políticos republicanos, gerando um campo de batalha narrativos, culminando no agravamento da crise econômica social e desgaste emocional do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. No ambiente de terra arrasada, abriu um latifúndio para atuação de militância bolsonarista.

Uma elite progressista que domina o discurso midiático, jornalístico e universitário sufocou valores e crenças populares inerentes à identidade brasileira. Houve a convergência da indignação de uma maioria que se sentia oprimida por essa elite intelectual e política, vocalizada de forma simplória  e direta pelo deputado Bolsonaro.

A voz encontrou eco nas redes sociais com manifestações superficiais e emocionais conduzida por um maniqueísmo dirigido intelectualmente por Olavo de Carvalho indiretamente pelos seus seguidores e influenciadores virtuais gerando uma rede com discurso articulado capaz de provocar ambiente nocivo de revolta e investidas contra pessoas.

O mecanismo foi elaborado de forma extremamente eficaz para dirigir as massas virtuais e aperfeiçoada por ferramentas com alcance amplo dos indivíduos com acesso recente aos recursos de tecnologia de comunicação, base da atuação da militância espontânea ou profissional.

O intelectual Olavo e seus seguires têm a consciência da necessidade de evocação de símbolos e definição das identidades populares combinadas com o personagem capaz de representar os ideais, como motor da revolução espiritual e política da sociedade. O seu pensamento está centrado no perenialismo com o propósito do resgate tradicionalista da sociedade, que não é bem estabelecido na sociedade brasileira, que possui uma história de sincretismo religioso, miscigenação e forte influência positivista e revolucionária de esquerda na formação do pensamento político.

A fórmula mal ajambrada para preencher esse conteúdo é a construção de um reacionarismo militarista cristão, que se vale dos mecanismos modernos populistas de incitação das massa contra instituições corrompidas e não representativas. Na ausência de tradição nessa seara, o grupo se vale de símbolos criados pela nova direita americana e europeia com analogias para reafirmação de valores de nação, povo, religião pela simples reprodução, gerando aparente contradição e aberração.

O antagonismo à institucionalidade construída a partir da redemocratização em 1988 é justamente ao retorno de um mito de um regime autoritário eficiente, onde as pessoas gozaram de prosperidade e segurança, com prevalência dos valores tradicionais, que encontrava em Bolsonaro seu modelo ideal amaçados pelas ideias comunistas e degradação moral da esquerda.

A peculiar estrutura religiosa da sociedade brasileira favorece a identificação política do governo como veículo de restauração espiritual da sociedade brasileira através de um escolhido. Enquanto escolhido, lhe é facultado empregar os meios necessários para superar as hostes demoníacas que corrompem os valores cristão pertencentes aos brasileiros. Sendo um cumprimento de uma missão espiritual, não há barreiras terrenas legítimas para impedir os propósitos superiores que compete a esse governo. Em um sentido escatológico, há uma força maniqueísta cujo apoio ao político é necessário para vencer definitivamente as forças do mau e promover o reencontro do povo e restauração espiritual.

É uma base assentada na descrença absoluta no sistema totalmente condenado e deve ser demolido e concomitante sobre a crença de um escolhido legitimado pela autoridade das forças armadas com áureas religiosas para restauração espiritual. O pensamento central do Bolsonarismo é a restauração da ordem física pelas forças armadas e espiritual através da investidura divina. A incoerência da desordem é atribuída a resistência do próprio sistema burocrático e elite política que obriga o uso da força reativa. 

Logo, a guerra cultural bolsolavista é o avanço da ideia autoritária evocada a partir do regime militar ditatorial para concentração de poder no seu representante político e espiritual Bolsonaro com a promessa de restauração moral da sociedade e entrega do poder ao brasileiro, solapada pelas elites do estamento burocrático.

A guerra cultura foi desvirtuada para abarcar o projeto de poder pessoal resultado no pensamento bolsolavista.

A guerra cultural é uma atuação prática na sociedade construída a partir da construção do pensamento dos espectros ideológicos. A direita se compromete a extrair de uma ordem metafísica de valores seus princípios e suas ideias políticas que precisam ser introduzidas por meio eficazes no campo cultural da sociedade em seus diversos seguimentos. A esquerda se dedica a criação de valores relacionados à ordem social imanente em busca de um sentimento igualitário, com largo êxito a partir de uma base intelectual universitária ampla e quase hegemônica combinada com a efetiva política de alcance popular estético e sentimental. 

A guerra cultural em sentido strictu é a disputa por espaço dessas ideias e aumento de alcance na sociedade em torno dos valores e fundamentos, como se encontra delineado por James Davinson Hunter. É a ponta de lança de uma formulação bem estruturada e elaborada a partir de uma evolução e discussão do pensamento. 

O deputado nunca pertenceu à tradição de direita ilustrada por figuras icônicas como Carlos Lacerda, Paulo Mercadante, Mario Ferreira dos Santos, Nelson Rodrigues, Paulo Francis, entre outros. É incapaz de pautar e dirigir o campo da direita nessa batalha.

O intelectual Olavo de Carvalho tem sua ascendência e mérito por ter sido o principal difusor das ideias políticas filosóficas da direita muitas vezes abandonadas ou esquecidas e denúncia do método de domínio da esquerda na guerra cultural. O fato é que o pensamento de Olavo de Carvalho é permeado por visão política peculiar, imersa em misticismo baseado em um perenialismo (Guenón, Schuon, Évola, Ilyn, etc), combinada com um sentimento pragmático utilizando os meios de ação política (Gramsci e Alinsky) em associação com figuras como Bannon da nova direita.

A combinação do bolsolavismo sobre o ambiente narrado acima produziu uma guerra cultural artificial (fraude), onde se busca uma hegemonia das ideias produzidas de formas açodada culminando em uma revolução do sistema político e espiritual para elevar o projeto particular de um líder político e outro líder espiritual.

O rebaixamento moral pragmático é necessário para adaptação das ideias ao representante com histórico político contraditório, alianças questionáveis e incapacidade política. A militância tem seus tolos, mas tem sua estrutura que confere benefícios particulares aos seus apoiadores.

O atalho intelectual utilizado e farsa política produz um resultado reverso no campo de guerra cultural. 

A direita sofre sucessivas perdas na guerra cultural de verdade, onde a indecência e ilicitude dos meios empregados para comunicação tem gerado uma impressão negativa que autoriza o estamento burocrático a se valer de meios para o cerceamento da liberdade de expressão. Ao contemporizar as ações ilícitas e imorais tem causado a perda da autoridade de condenação da corrupção política e social. O fanatismo político manipulado por mecanismos religiosos implica em descrédito dos valores espirituais e pautas de costumes confundidas como meros preconceitos fundamentalistas.

A guerra cultural nunca foi corretamente explorada pela direita e pode ter uma derrota épica e fatal.

Na espera de encontrar redenção ouço a 8ª sinfonia de Mahler (sinfonia dos mil) que me prova a natureza do conserto e como é fraudada a missão na qual se empenham os bolsolavistas. Diz o cântico de Pentecostes “veni, creator”:

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