Daniel José
Deputado na Alesp, economista pelo Insper e mestre em Relações Internacionais.
Transmissão do novo coronavírus: não culpe as crianças
Muitos argumentam que os pequenos podem espalhar o vírus aos mais velhos

As crianças têm menos sintomas provocados pela COVID-19 do que os adultos: mais de 70% das crianças são assintomáticas!

Mesmo assim, muitos argumentam que os pequenos podem espalhar o vírus aos mais velhos e isso impediria a reabertura das escolas nesse momento.

Mas será que os dados confirmam isso?


As últimas pesquisas sobre o tema

Um artigo na renomada revista ‘Pediatrics’ reuniu uma série de estudos que levantam dúvidas se de fato as crianças têm a capacidade de transmitir covid-19 para outras crianças ou adultos.

Vários países, vários contextos, mas um só resultado...


Um estudo francês avaliou o caso de uma criança infectada que interagiu com 100 colegas em 3 escolas diferentes e nenhum deles contraiu o vírus.

Na Austrália, resultado semelhante: 9 alunos e 9 funcionários com covid em 15 escolas tiveram contato com 800 pessoas. Apenas 2 infecções secundárias.

Um outro estudo na Suiça avaliou famílias de 39 crianças com Covid e concluiu que apenas 3 delas haviam sido o primeiro caso na casa.

Na China, cientistas acompanharam os contatos de 68 crianças internadas e concluiu que elas haviam sido infectadas por adultos em 96% dos casos.

Outra coletânea com mais de 60 artigos sobre o tema chegou à mesma conclusão: nenhuma evidência das escolas como vetores de propagação do vírus. Também, constatada a baixíssima probabilidade da criança ser o primeiro caso na transmissão

A própria OMS disse que as escolas não são o motor principal de transmissão da Covid19.

A hipótese da maioria dos pesquisadores é que pelo fato da grande maioria das crianças não apresentar sintomas, elas têm menor capacidade de transmitir. Além disso, crianças têm menos enzimas ACE2, o que diminui a probabilidade da infecção em quadro grave ou médio.

Ok, mas o que isso significa?

Isso significa que as escolas podem ser reabertas sem qualquer preocupação? Claro que não! As escolas devem se preparar para permitir a higienização correta de alunos e professores, com a prática do distanciamento de 1,5m e uso de máscaras, com exceção da educação infantil.

Até porque surtos isolados ocorreram em escolas nos EUA, Israel e França

Mas aqui, os pesquisadores foram bastante enfáticos: muitas vezes são os adultos que desrespeitam as regras de saúde e acabam passando para as crianças dentro do ambiente escolar. A transmissão criança-criança/adulto é rara.

Outro ponto mencionado pelos autores é que a transmissão comunitária deve estar caindo na região da escola a ser reaberta Aqui em São Paulo, a queda se dá há 4 semanas já. E há pouca movimentação dos prefeitos, seguramente mais preocupados com a eleição de novembro do que com a educação.

No fim, as evidências sempre devem nos auxiliar a tomar a melhor decisão sobre um tema. As que apresentei aqui são completamente ignoradas pelos tomadores de decisão.

Convenhamos: é muito mais cômodo falar para ficar do jeito que está, com escolas fechadas.

E dane-se a educação.

continua em outra matéria