Daniel José
Deputado na Alesp, economista pelo Insper e mestre em Relações Internacionais.
Qual o retorno à sociedade do investimento feito nas Universidades?
A pesquisa sobre o desempenho teria nascido com um objetivo de provar algo pré-determinado?

Uma pesquisa repercutiu nesta semana: “Só com graduação, USP, Unicamp e Unesp retornam 15% mais do que custam”.

Universidades
Universidades (Montagem)

Legal, hein? Eles só não te contaram as letras miúdas…um festival de erros e hipóteses bastante questionáveis.

Deixa eu te explicar melhor.

A pesquisa 

Resumindo o estudo: pesquisadores compararam o custo anual de manutenção das 3 universidades (R$ 10 bilhões) com a diferença salarial entre estudantes formados por USP, UNESP e UNICAMP comparado com todo o resto.

Assim, projetaram esse ganho maior para o futuro. E qual foi o resultado?

Descobriram que essa diferença de produtividade (salários) conjunta desses estudantes era de R$12 bilhões, portanto superior aos R$10 bi do custo anual das Universidades.

Concluíram, portanto, que as Universidades “se pagavam” apenas com a graduação

Agora, explicado o estudo, vamos para as letras miúdas dessa pesquisa.

Uma análise intelectualmente honesta sobre a pesquisa

Em primeiro lugar, a pesquisa foi solicitada pelos reitores e feita por professores das 3 Universidades alvos da análise.

Teria a pesquisa nascido com o objetivo de provar algo pré-determinado? Por que não uma pesquisa realizada por auditoria externa?

Outro ponto: está se comparando um investimento público nas Universidades (R$10 bilhões por ano) com um ganho privado dos ex-alunos (R$12 bilhões por 40 anos). 

E com simplificações que favorecem o argumento inicial: a diferença da média salarial se mantém nos 40 anos, não há desemprego ou queda salarial, etc.

Mas há 1 ponto ainda pior: há um claro viés nos resultados, uma vez que melhores alunos do ensino médio normalmente vão estudar nas 3 universidades públicas. Supondo que esses alunos não fossem para lá, será que o salário não seria parecido de qualquer forma?

Isso, obviamente, não foi levado em conta nos cálculos.

Os próprios autores reconhecem isso:

“Como eles entram melhores, eles saem melhores”, diz o pesquisador.

“Tanto isso como o fato de os nossos egressos acharem os melhores empregos ajuda a explicar por que eles ganham mais. 

Por fim, ignorou-se o retorno das pesquisas acadêmicas feitas pela Universidades.

Mas não estranhe: foi de propósito. Pesquisa recente mostrou que a USP, por exemplo, publica bastante (7a no ranking) mas não tem relevância acadêmica (915a no ranking).

A sujeira para debaixo do tapete

No final, uma pesquisa como essa serve a um objetivo claro de tentar justificar os investimentos para manutenção das 3 Universidades. Nada foi falado sobre receitas alternativas ou da redução da participação da folha salarial sobre o total de despesas (que neste ano deve chegar a 100%).

E mais uma vez perdemos a oportunidade de discutir o problema real nas contas das Universidades Públicas, ao tentar justificar “à força” o seu custo que deve chegar a R$ 12 bi em 2020.

Mas não era isso que foi pedido pelos reitores, não é mesmo?

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