Caíque Januzzi
Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
Neymar, moicano, juliette e arquétipo
Ou: cansei de falar sobre política, então falarei sobre futebol

“O pai ta on!”, “adulto Ney” e “somos todos Neymar!” – eis as frases que tomaram conta das redes sociais nas últimas duas semanas. A Champions League, o maior campeonato de futebol do mundo, retornou numa versão única, com emoção até o último instante. Infelizmente, não deu para o adulto Neymar de moicano e juliette, que perdeu para o Bayern na final.

Contudo, o fenômeno nas redes – ao qual até atores políticos, como o presidente da república, aderiram – é sintomático e não deve ser ignorado. Nesse texto, farei uma leitura do porque a população se envolveu tanto nos jogos, especialmente neste ano.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que os últimos dois anos não foram fáceis. A decepção e a desilusão têm sido a tônica do brasileiro, tanto no futebol quanto na política. Nas últimas eleições, fomos às urnas esperando mudanças estruturais – principalmente no âmbito econômico, compromisso com o combate à corrupção e com a verdade. Recebemos inflação, novas estatais, desmonte da Lava-jato e caso Queiroz. O desencanto foi forte.

Como se não bastasse, 2020 chegou e provou que tudo pode piorar. Há 6 meses, estamos enfrentando uma pandemia que já deixou mais de 115 mil mortos. Estamos vendo um descaso geral do Governo Federal com a pandemia e a banalização da vida. Nos acostumamos com mais de mil mortos diários, que só agora estão diminuindo.

Com tantas mazelas e absurdos afligindo o país é natural que tenhamos cansado da política. O brasileiro cansou da realidade e busca projetar suas ambições.

Eis que (res)surge Neymar. No seu passado recente: duas temporadas difíceis, com lesões graves e rendendo abaixo de todas as expectativas. Nessa temporada, entretanto, tudo estava dando certo. O adulto Ney carregou o seu time até a final. Melhor ainda, com os traços característicos do futebol brasileiro: muita habilidade, lances plásticos e muita ousadia e alegria – dentro e fora de campo.

Por outro lado, os problemas que nós, brasileiros, encontramos na esfera política são, apesar de em campos distintos, similares aos enfrentados por Neymar. Almejávamos o sucesso, ao mesmo tempo em que perdíamos a fé. Ao traçarmos este paralelo tão comum em terra brasilis, começamos a criar - no adulto Neymar - o arquétipo do herói. Aquele que percebe uma demanda – neste caso, do clube e do país –, a trata como um chamado interior, sai da sua zona de conforto, enfrenta seu passado assustador (duas lesões graves, em dois anos) e caminha em direção ao título.

Naturalmente, o brilhantismo de Neymar surgiu como uma espécie de luz no fim do túnel. Alguém que, mesmo após tantas expectativas quebradas, após tantas lesões, tantas faltas sofridas, alcança o sucesso. Mais do que isso, ultimamente, é o único motivo para o brasileiro sentir orgulho da sua bandeira.

Por último, o erguer-se do mito Neymar – o mito originário da descrença política – pode significar o início da derrocada do mito Bolsonaro – o mito do super engajamento. Explico. Em primeiro lugar, é indispensável entendermos a emergência de mitos para o brasileiro. Na terra da morena sestrosa, o herói é mais do que rotineiro, ele é natural. Afinal, a única força político-social que o brasileiro conhece é o personalismo, como nos ensinou Sérgio Buarque de Holanda. Esse personalismo, somado ao homem cordial, é a fonte do messianismo que assola nossa terra. O brasileiro, pela extrema cordialidade, precisa se sentir próximo de alguém que detêm algum tipo de respaldo social.

Em segundo lugar, devemos entender que para um mito cair outro deve surgir. Já que, o herói brasileiro é a projeção do inconsciente coletivo e popular.

Ou seja, ao unir direita e esquerda, ao mover as redes e se transformar em herói, Neymar escancara a crise social que nos encontramos. O brasileiro, no seu jeito típico, brinca com a sua desilusão e, me parece, retorna ao espírito pré-2013. Uma insatisfação silenciosa, uma descrença absoluta e uma aversão à política, com a esperança de um eterno sonhador – vai que a virada chega nos acréscimos?

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