Arilton Teixeira
PhD em Economia e especialista em Crescimento e Desenvolvimento Econômico.
Risco Fiscal e Risco de Inflação: mas podemos piorar
Não há porque os bancos comerciais tomarem mais risco num momento de crise

O mercado financeiro e vários indicadores sinalizam a piora no ambiente econômico no Brasil, devido ao aumento do desequilíbrio fiscal e o do risco crédito. Ao mesmo tempo, há sinais de pressão inflacionária.

Governo Bolsonaro
Governo Bolsonaro (Reprodução)

Para entendermos o que esta se passando na economia neste momento, vamos analisar as políticas monetárias e fiscais adotadas em 2020, bem como o abandono das reformas do setor públlico.

Pelo lado da política monetária, seguindo os países de primeiro mundo, o Banco Central do Brasil (BCB) aumentou a oferta de crédito e reduziu os juros. Infelizmente, dado a concentração bancária no Brasil, este movimento teve efeito limitado. Não há porque os bancos comerciais tomarem mais risco num momento de crise, ampliando a oferta de crédito para famílias, pequenas e médias empresas.

Mas, esta política do BCB afetou as taxas de câmbio, desvalorizando o real. Num momento de instabilidade, a busca de proteção gera aumento da demanda por moedas fortes. Ao mesmo tempo, o mercado passa a demandar maior retorno para investir em países emergentes.

Assim, a redução dos juros pelo BCB, no momento que o mercado demanda maior prêmio, levou a forte e persistente desvalorização real frente as moedas fortes, como o dolar.

Esta desvalorização do real (valorização do dólar) gerou aumento dos custos das empresas devido o aumento dos preços dos bens comercialiáveis em reais. No momento atual, em que a economia está se recuperando e a demanda aumentando, estes aumentos de custos começam a ser repassados para os preços gerando a atual pressão inflacionária.

Vamos agora analisar a política fiscal. Aqui tivemos a ampliação dos gastos públicos e abandono das reformas. O aumento dos gastos elevou o déficit e a dívida pública, mas tinha como justificativa a tentiva de mitigar os efeitos da recessão e os aumentos dos gastos com saúde.

Já o abandono das reformas, impediu a eliminação dos privilégios e manteve o crescimento vegetativo dos gastos públicos, aumentando ainda mais o déficit e a dívida pública. Com isto, o risco de crédito do governo aumentou, levando o mercado a pedir maiores retornos (nos últimos dias, o risco Brasil, calculado peldo CDS de 5 anos, subiu de 200 para 250 pontos básicos e os juros futuros subiram).

Em síntese, tanto a política momentária quanto a política fiscal geraram incertezas, aumento do risco Brasil. Em plena recessão, a politica monetária desvalorizou o real e gerou pressão de precos. Já a política fiscal e o abandono das reformas, ao aumentarem o desequilíbrio orçamentário, geraram risco de crédito, elevando os juros futuros e o risco Brasil.

Para piorar a situação atual, o governo federal começa a negociar a PEC 45 com o Congresso, trazendo ainda mais incertezas. Esta PEC deve aumentar e congelar a carga tributária (além de cercear o poder dos estados em gerenciar seus impostos). Mas, isto não é suficiente. O governo federal quer ainda mais receita. Quer adicionar a esta PEC, a criação da CPMF.

Nada como frases populares para sintetizar a situação atual. Primeiro, nada é tão ruim que não pode piorar. Segundo, o Brasil não é um país para amadores. Terceiro, o Brasil é, e continuará sendo, o país do futuro.

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