Arilton Teixeira
PhD em Economia e especialista em Crescimento e Desenvolvimento Econômico.
Juros, Dólar e a Redução da Lucratividade das Empresas no Brasil
O Brasil caminha na contramão dos países desenvolvidos e poucos têm se beneficiado com isso

Com a recessão criada com o fechamento das cidades no Brasil e no mundo, os principais bancos centrais (BCs) reduziram fortemente os juros básicos e aumentaram o crédito.

Jair Bolsonaro na ONU
Jair Bolsonaro na ONU (Johannes Eisele/AFP)

Nas economias desenvolvidas havia muito espaço para isto. A incerteza e a recessão criadas com o combate ao coronavírus aumentaram a demanda por proteção, atraindo investidores buscando moedas fortes e títulos públicos de países com grau de investimento.

Este movimento levou a valorização das moedas dos países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, a recessão mundial levou a queda dos preços das commodities (como o petróleo). Esta combinação de moedas em valorização e preços em queda, reduzem os custos das empresas e geram espaço para reduzirem os preços dos bens que produzem (note que é possível, neste cenário, reduzir os preços e ainda aumentar a margem de lucro).

O mesmo não acontece nos países emergentes, como o Brasil. Aqui a moeda doméstica desvalorizou mais de 30%, aumentando o preço em reais dos bens comercializáveis (desde que seus preços tenham caído menos que 30%). Eis aqui um limitador que o BC do Brasil deveria levar em consideração.

No momento que tivemos mais uma redução da Selic para 2.25% ao ano, uma das justificativas usadas é a queda da inflação (e não dos preços). A idéia é que a inflação em queda e a recessão, abrem espaços para mais reduções de juros. Aqui temos grandes diferenças em relação aos países desenvolvidos.

Primeiro, a redução da selic não levou a redução do custo do dinheiro para as famílias e/ou para as micro, pequenas e médias empresas. Segundo, o aumento da liquidez não levou a expansão do crédito (de novo, para as micro, pequenas e médias empresas). Terceiro, a redução dos juros levando a desvalorização do dolar, tem pressionado os custos das empresas, devido ao aumento dos preços em reais dos bens comercialiáveis (“tradables”).

Se olharmos a inflação medida pelo IGP/IPA, veremos que a inflação no atacado elevou-se, a partir de fevereiro/2020, mostrando que os custos dos produtores estão aumentando e estão sendo repassados para o atacado. Se este aumento não está chegando ao consumidor final (IPCA), significa que as empresas estão tendo redução das margens de lucro.

Ou seja, além da queda de demanda reduzindo a lucratividade das empresas, a atuação do BC tem propiciado uma queda ainda maior, devido ao seu efeito sobre o dólar (e nenhum efeito sobre o crédito).

Os beneficiários desta política de juros baixos/dólar alto tem sido o mercado financeiro e as grandes empresas (e/ou exportadoras). Mas, o resto da economia não tem recebido benefícios, mas arcado com os custos.

A redução ainda maior da lucratividade, devido a atuação do BC, pode aumentar o número de falências. Aumento este que o BC tenta evitar com a política monetária.

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