Arilton Teixeira
PhD em Economia e especialista em Crescimento e Desenvolvimento Econômico.
Imprimir dinheiro é a solução contra a crise do coronavírus?
Com o debate público cogitando a ideia, o economista Arilton Teixeira trouxe algumas análises sobre o tema

Recentemente, voltou-se a debater no Brasil o uso da expansão monetária para financiar os gastos públicos no combate ao surto de coronavírus e seus efeitos. A ideia tem respaldo em experimentos realizados pelos USA, União Européia (EU) e Japão. Por exemplo, entre 2008 e 2016 estes países expandiram fortemente a oferta de moeda para combater as consequências do choque do “subprime”, sem qualquer efeito sobre a inflação.

Mas, antes de usarmos a expansão de moeda aqui, deve-se entender o que ocorreu nestes países. Em outras palavras, devemos perguntar se o Banco Central do Brasil (BCB) pode usar a mesma política.

Para responder esta pergunta, vejamos o que acontece em países ricos e emergentes quando um choque gera incerteza, volatilidade e queda nos preços dos ativos nos mercados mundiais (como o surto do novo coronavírus está fazendo em 2020).

Países ricos e estáveis, como os USA, passam a ser vistos como um local mais seguro que investidores buscam para se proteger do choque e da instabilidade. Como consequência, a demanda por dólares e por títulos públicos americanos aumenta. O dólar se valoriza contra a moeda dos demais países, o preço dos títulos americanos aumenta e o retorno pago diminui.

Em síntese, buscando proteção na economia dos USA, os investidores demandam dólares e aceitam receber retornos mais baixos do que receberiam quando não há tanta incerteza e volatilidade no mercado mundial. Neste cenário, o Banco Central (BC) dos USA, o “Fed”, tem liberdade para reduzir os juros e expandir a oferta de moeda.

Passemos agora a analisar países emergentes e instáveis, como o Brasil. Aqui, os efeitos são opostos aos vistos na economia dos USA. Quando choques aumentam a volatilidade e incerteza nos mercados, os investidores reduzem a demanda por real e por títulos públicos brasileiros.

Por um lado, a redução das posições em reais (aumento da demanda por dólares), leva a desvalorização e aumento do risco cambial. Por outro lado, a redução da demanda por títulos públicos, aumenta do risco Brasil, ou seja, aumenta o risco do país quebrar. Temos queda dos preços e aumento dos retornos pagos por estes títulos.

Para sintetizar, quando aumenta o risco, os investidores demandam um prêmio maior para manter seus investimentos no Brasil. Este prêmio tem que pagar o maior risco país e o maior risco cambial. Neste ambiente, o Banco Central Brasileiro (BCB) deve evitar reduzir juros e expandir a oferta de moeda.

A partir da análise acima, podemos entender o que está acontecendo no Brasil em 2020, com o início do surto de coronavírus no mundo. Ou seja, podemos entender o aumento do preço do dólar e dos retornos pagos pelos títulos públicos brasileiros (a despeito da queda da selic).

É interessante notar que com o surto de coronavírus o BCB está tentando expandir a oferta de moeda, reduzir os juros e se comportar como se fôssemos um país estável. Como consequência, o real foi uma das moedas de emergentes que mais se desvalorizou. Em outras palavras, o BCB está tentando aplicar aqui, políticas que funcionam lá fora. Mas, a desvalorização do real e seus possíveis efeitos inflacionários já recomendam cautela, sem termos obtidos os efeitos benéficos (não tivemos nem expansão do crédito, nem redução dos juros).

Dito isso, voltemos a nossa pergunta original. Pode o governo brasileiro tentar financiar os gastos extras com a expansão da oferta de moeda?

Dada a análise acima, se o BCB expandir a oferta de reais na economia para financiar os gastos públicos, terá como efeito imediato o aumento da demanda por dólares e/ou aumento da demanda por bens. Em outras palavras, com o risco país e o risco cambial mais alto, os agentes vão tentar se livrar dos novos reais que o governo colocar na economia.

Por um lado, com a economia paralisada e sem produção, o aumento da demanda por bens vai gerar mais inflação. Por outro lado, o aumento da demanda por dólares, vai levar ao aumento do seu preço (desvalorização do real). Com o dólar mais caro, os preços em reais dos bens exportáveis (entre eles, petróleo, alimentos, etc.) vão subir. Como consequência, os custos das empresas também vão subir. Com a demanda aquecida pela expansão monetária, estes custos vão ser repassados aos preços, gerando ainda mais inflação.

Em síntese, o Brasil não está no grupo dos países estáveis e ricos. Logo, o uso de políticas monetárias deve ter em conta os limites impostos pela nossa realidade: país emergente instável, com dívida e défice público elevado.

Durante os anos de elevada inflação no Brasil, nas décadas de 60, 70 e 80, os economistas brasileiros desenvolveram muitas teorias tentando quebrar a relação entre inflação e moeda.

Na década de 80, criamos os planos heterodoxos, segundo os quais o déficit público financiado com expansão da moeda não gerava inflação. As consequências dos planos heterodoxos foram instabilidade, recessão e hiperinflação.

Estes planos tiveram grande apoio, pois eram tentativas de proteger os privilégios recebidos do Estado por diversos grupos de interesse (na época tínhamos empresas estatais deficitárias, bancos dos governos estaduais e federais que emitiam moeda, empresas privadas recebendo subsídios, etc).

Na década de 90, conseguimos reduzir a inflação, controlando o déficit e a expansão de moeda. Mas, quase 30 anos depois, voltamos às mesmas ideias das décadas de 60, 70 e 80. As lições foram simplesmente esquecidas. Simplesmente, queremos nos comportar como países estáveis.

Não basta apenas “controlar a inflação” (para os padrões internacionais a inflação brasileira continua alta). Se o Brasil quer ser visto como um país estável, tem que ir além. Transformar o Estado produtor de privilégios, sob o manto do “direito adquirido”, em um Estado eficiente, regulador e produtor de bens públicos.

Os governos no Brasil (os três níveis) têm recursos para combater os efeitos do surto, pois arrecadam 35% do PIB. Mas, estes recursos estão sendo gastos pagar privilégios, protegidos sob o “manto sagrado” dos direitos adquiridos. Salário elevado no setor público, aposentadoria integral, ajuda de custo e outros “penduricalhos” colocaram o legislativo e o judiciário entre os mais caros do mundo (sem mencionar o executivo).

Em busca de recursos para o combate ao vírus e seus efeitos, vamos olhar para o lugar certo. Os vultuosos privilégios recebidos por vários grupos de interesse. Deixemos as velhas ideias erradas para ser apenas aprendidas como políticas a ser evitadas.

continua em outra matéria