Economia
Um País que Não Aprende

Estranho que uma equipe econômica que queria acabar com os privilégios venha agora reinventá-los

11/03/2020 15h59

Durante décadas o Brasil perseguiu uma política conhecida como “substituição de importações”. Consistia em criar um setor manufatureiro através da proteção das empresas brasileiras contra as importações via barreiras e subsídios. O resultado foi a criação de um setor manufatureiro ineficiente, que produzia bens caros e de baixa qualidade (lembrem da indústria de computadores gerada nos anos 70).

Parecia que havíamos deixado de lado estas práticas nos anos 90. A surpresa é a volta destas idéias agora com o Ministro Paulo Guedes, que diz querer reindustrializar o Brasil.

Mas, agora a “política industrial” tem roupagem nova. A proteção e os incentivos não é mais via tarifas e subsídios. Agora tudo vem com uma taxa de câmbio elevada, propiciada com uma política de juros baixa (o Banco Central (BC) virou “Ministério da Industrialização”).  

É claro que esta política gera riscos de inflação (que o choque do coronavírus pode postergar), mas não é nosso objetivo discutir este ponto. Vamos analisar algumas outras consequencias desta política de câmbio elevado.

Claro que se elevarmos o cambio o suficiente, até computadores produzidos no Brasil (sonho antigo de alguns economistas brasileiros dos anos 70) podem ser exportados para a China. Em outras palavras, se elevamos o câmbio o suficiente, cobrimos os custos e as ineficiências do País, fazendo com que empresas brasileiras sejam competitivas e possam exportar. Mas, quem está pagando esta conta?

É o setor não exportador que está pagando a conta. É a grande massa de brasileiros que trabalham em setores que produzem bens que não são exportáveis. Antes isto era feito com tarifas e subsídios, agora é com alteração dos preços relativos, via câmbio elevado. A forte elevação do câmbio, induzida por uma política de juros baixos, provoca uma grande distribuição de renda dos setores não exportadores para o setor exportador.

Mas, um setor exportador lucrativo é garantia de expansão e investimentos? Primeiro, se a lucratividade é garantida pela combinação juros baixos/câmbio elevado, o risco para as empresas exportadoras investirem está colocado. Por exemplo, se a inflação subir, então, o BC tem que elevar os juros o suficiente para conter a inflação, levando a queda do câmbio.

Em outras palavras, sem que os fundamentos econômicos garantam vantagens competitivas para os exportadores, mudanças geradas de forma transitória pelo governo ou pelo BC, não devem gerar investimentos e expansão dos setores.

Como acontecia nos anos 70, empresas vão elevar os preços e podem até produzir mais,  embolsando os lucros, mas ninguém investe em queda de custo ou melhoria de produtos. Uma vez findo os subsídios, findam também a produção e as empresas deles derivadas.

Além disto, dado o câmbio elevado, o custo investir, de comprar máquinas e equipamentos, também sobem, sejam eles produzidos no Brasil ou importados. Em síntese, a reindustrialização do Ministro Guedes é duvidosa que ocorra. E se ocorrer, é duvidosa que se mantenha.

Olhemos agora o setor não exportador. Se os preços dos insumos sobem devido ao câmbio, a tentativa é repassar estes aumentos para os preços. Se os preços aumentam, a inflação sobe e o BC tem que atuar, elevando os juros , reduzindo o câmbio e acabando com a vantagem do setor exportador. Neste caso, o BC apenas gerou maior volatilidade cambial! Mais Risco!!!

Imaginemos que devido a condições de demanda, estes repasses não sejam possível. Isto implica num setor não exportador com custo maior e com lucratividade menor. Esta lucratividade menor vai determinar se esta empresa encolhe, quebra ou vai para informalidade. Implica também em investimento menor (lembre-se, também devido ao custo de investir ser maior).

Para a grande massa de trabalhadores destes setores não exportadores, o resultado é perda de renda via queda de salários (assim como ocorreu nos anos 70). Mais uma vez, o sonho de uma equipe econômica de industrializar o país vai ser pago pelos milhões de brasileiros de baixa renda. Mais uma vez, deve gerar instabilidade e ineficiênica.

É estranho que uma equipe econômica que dizia querer acabar com os privilégios pagos pelos 200 milhões de patos venha agora reinventá-los.

Se a equipe econômica quer gerar crescimento (do setor exportador), o caminho é as reformas que reduzam o custo (tributário, juridico/regulatório, infraestrutura, etc), a instabilidade e gerem mão de obras preparadas para o mercado de trabalho atual.

Arilton Teixeira é PhD em Economia pela University of Minnessota e especialista em Crescimento e Desenvolvimento Econômico.