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China
Um comunista e um liberal entram em um bordel… Parte II e Final

Sob a tentativa de defender a economia de mercado, o autor liberal acabou por defender o maoísmo e, assim sendo, prestou um serviço à esquerda radical e à esquerda cultural

02/08/2019 13h02

Com a morte de Mao Zedong em setembro de 1976 muitos dos que foram afastados de seus cargos dentro do Partido e da política chinesa, durante a Grande Revolução Cultural, foram reabilitados, dentre eles Deng Xiaoping que, não obstante não fosse ainda o presidente da China, foi o responsável pro promover a campanha de “libertação de pensamento” (abolir ou reduzir o extremismo ideológico maoísta entre os membros do governo e do partido mais do que entre as massas) e das “Quatro Modernizações” (indústria, agricultura, ciência e tecnologia), além de promover também a criação de um sistema judiciário, inexistente durante o regime de Mao.

Nesse sentido, houve reformas drásticas e importantes para a ressureição econômica da China: (1) o governo não mais seria gerente de firmas; (2) dar-se-ia mais autonomia a regiões e empresas; (3) reduzir-se-ia o centralismo da liderança econômica e das grandes organizações burocráticas; (4) incentivar-se-ia materialmente os camponeses a trabalharem, isto é, seus interesses não mais seriam subordinados aos interesses coletivos e da coletivização; (5) o Estado passaria a pagar pelos remanescentes do que camponeses produzissem; (6) terrenos foram dados às famílias permitindo-se, assim, o cultivo privado da terra e do artesanato individual; (7) quem tivesse aptidão para empreender poderia voltar a vender seus bens e serviços em feiras, não mais sendo proibido o lucro pessoal, antes considerado um gravíssimo pecado social.

Com toda essa abertura do país política e economicamente, ao contrário do que afirmou Thiago Fonseca em seu artigo sobre as mulheres venezuelanas, é que a prostituição retornou ao cenário social chinês de forma hierarquizada como costumava ser nos períodos anteriores a Mao, compondo-se de acompanhantes, “pisteiras” (prostitutas que trabalham na rua), em bordéis oferecendo serviços sexuais a clientes de todas as camadas sociais, com o respectivo crescimento da migração para as cidades de muitos homens que foram para trabalhar em fábricas e na construção civil. Hoje encontra-se garotas de programa nos mais diversificados estabelecimentos como hotéis de luxo, karaokês, salões de beleza, barbearias, saunas, casas de banho e de massagem, boates, sempre de forma disfarçada, já que a prostituição permanece ilegal conferindo aos transgressores – garota e cliente – até 2 anos em “centros de educação”.

Ainda, argumenta o liberal que somente na economia de mercado a mulher tem liberdade para escolher sua profissão de acordo com sua vocação. Verdade. Mas na mesma economia de mercado que o autor defende é permitido aos patrões, livres para escolherem seus funcionários, darem preferência à contração de homens no lugar de mulheres, conforme ocorre na China economicamente aberta. Ao contrário, porém, do que ocorria no tempo do centralismo de Mao, em que o Estado alocava cada pessoa no trabalho que julgasse necessário, mas sem discriminar as pessoas por seu sexo. Hoje, então, exige-se padrões profissionais elevados de mulheres, não se contrata mulheres em idade fértil e quando empresas precisam fazer demissões em massa, as mulheres são as primeiras a serem mandadas embora. Adivinhe, então, o que acontece em seguida e nesse contexto: a muitas mulheres, inclusive aquelas com formação superior, resta tão somente a prostituição como forma de conseguir o próprio sustento e, como diz o liberal pagando pedágio para a esquerda, alcançar o “empoderamento” que é a independência financeira para gastar o dinheiro como melhor lhes convenha.

Com abertura política e econômica da China, isto é, abandonando quase que complemente a economia planejada para tornar-se economia de mercado, é que a prostituição “explodiu”, pois estima-se que a indústria do sexo consista em 6% do PIB chinês – mais de 1 trilhão de yuans, algo em torno de 1 trilhão e 800 milhões de reais. Também, não poderia ser diferente já que se estima haver mais de 20 milhões de prostitutas na China – um pouco menos que o dobro da população do Estado de São Paulo.

Querendo provar que o socialismo aumenta a prostituição – como se houvesse algum problema moral nisso para um liberal que, na verdade, em alguns casos não vê problema nem mesmo em incesto, desde que “sejam partes capazes e haja consentimento mútuo” – citando o caso das venezuelanas, acaba por demonstrar o contrário, já que a prostituição só foi rentável e possível na Colômbia, onde há economia de mercado.

Ao liberal não importa, em realidade, que o socialismo promova a “abolição de direito das mulheres”, inclusive, o autor do artigo em comento sequer diz qual seja esse ou esses direitos. Deduz-se, porém, através do que está escrito no artigo e do que se sabe sobre liberalismo, que o que o socialismo abole é a liberdade de escolha que não pode ser considerada como um direito, já que o direito de um presume o dever jurídico de outro. Ou seja, sob o argumento de defender a liberdade, acaba contradizendo-se e defendendo a um só tempo a restrição.

Como bem demonstrou o filósofo Olavo de Carvalho (vide aqui e aqui), a liberdade não é um princípio, pois este configura-se como uma regra que pode ser aplicada a todos os casos sem que em momento algum entre em  contradição, o que não ocorre com a liberdade considerada em si mesma e menos ainda quando se arroga a ela o caráter de direito.

Ao fim e ao cabo, sob a tentativa de defender a economia de mercado, o autor liberal acabou por defender o maoísmo e, assim sendo, prestou um serviço à esquerda radical e à esquerda cultural – promovendo pauta feminista ao legitimar seu discurso. Eis tudo.

Referências do primeiro e do segundo artigo:

  1. What’s behind China’s prostitution boom?
  2. Prostitution in China
  3. China keeps ‘education’centres for prostitutes
  4. How Did Women Fare in China’s Communist Revolution?
  5. “Behind the red door: sex in China” de Richard Burger
  6. “De Mao a Deng” de Fernando Mezzetti

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Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.

Natural de São Paulo, mas residente em Salvador, é ouvinte de Alborghetti desde 2005, leitor de Olavo de Carvalho desde 2007 e membro do MBL-BA e articulista para assuntos chineses do MBL Nacional desde 2019. Suas principais influências na escrita e no pensamento são Oscar Wilde, Camilo Torres, Arthur Schopenhauer, Roger Scruton, Santo Agostinho, Machado de Assis e outros.