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China
Todo Dia é Dia de Protesto na China

Chineses pedem ar puro, mas recebem bordoadas da polícia

10/07/2019 15h19

Enquanto as coisas se agravam nos protestos em Hong Kong. Na China continental, mais precisamente em Wuhan, capital da província de Hubei, outros protestos são feitos. Enquanto em Hong Kong os protestos têm como principal motivação a lei de extradição proposta pela Chefe de Estado Carrie Lam (que já disse que a lei morreu); em Wuhan os protestos giram em torno da construção de uma usina de incineração numa área residencial de Yangluo próxima de Wuhan.

Nos anos 60, durante o Grande Salto Adiante de Mao Zedong Wuhan foi uma das grandes cidades que sofreram com a coletivização forçada, principalmente no sistema de saúde que sucateou hospitais e ostentou um cenário devastador de fome, abusos e morte. Médicos e enfermeiros auferiam lucros com a diluição de remédios; pacientes eram roubadas e as mulheres eram abusadas por médicos, sem mencionar que a comida causava males para os próprios funcionários dos hospitais por conterem moscas e vermes. Hoje, porém, Wuhan é uma das cidades mais desenvolvidas e organizadas da China a ponto de ser considerada a Chicago chinesa.

Os protestos iniciaram-se em 28 de junho em razão do descumprimento da promessa da autoridade política local – que não se distingue do Partido Comunista Chinês – de construir um parque público para construir em seu lugar uma usina de incineração em Yangluo, área desenvolvida tecnológica e economicamente, com mais de trezentos mil habitantes, localizada em Wuhan que possui 10 milhões de habitantes. Com uma população desse tamanho, naturalmente é necessário encontrar uma forma de lidar com o tanto de lixo que é produzido, mas não é sem motivo que seus residentes tenham ido ás ruas para protestar, já que Wuhan uma vez já foi uma cidade bastante arborizada e com muitos lagos – é bom lembrar que durante o Grande Salto quase metade da China sofreu desmatamento e quase todas as casas foram demolidas na busca incessante e irracional por fertilizantes –, mas que perdeu boa parte de suas belezas naturais para dar espaço a fábricas, prédios residenciais e aterros sanitários. A cidade, antigamente bela e habitável, tem se tornado inabitável e feia – pais não deixam os filhos brincarem fora de casa, pessoas não se exercitam de manhã e muitas famílias passam o ano inteiro com as janelas de suas casas fechadas numa tentativa debalde de não respirar o ar poluído e desagradável dos aterros sanitários situados a quilômetros de distância.

Assim sendo, muitas pessoas se reuniram para tentar impedir a construção dessa usina de incineração, uma vez que há o sensato temor dos malefícios à saúde que uma usina como essa pode vir a causar, sem mencionar que ela será construída (1) onde foi prometido construir um parque público; (2) e desobedece inclusive a norma do governo comunista de que uma usina assim só poderia ser construída a mais de um quilômetro de distância e também não seria primeira – faça o que digo, mas não faça o que faço, eis uma das leis do comunismo.

Como não poderia ser diferente, o governo comunista chinês já se mobilizou para ouvir a população tal como fez no Massacre da Praça da Paz Celestial: os manifestantes bradaram por “democracia ou morte” e o governo atendeu dando-lhes uma das alternativas: a morte e a repressão. A China, igualmente, não cobre os protestos em Hong Kong e já se mobilizou para impedir qualquer disseminação de conteúdo sobre os protestos em Wuhan além de, claro, enviar policiais para conter agressivamente seus residentes que nada pedem senão ar puro para que não possam ser dizimados, gradativamente, por doenças como câncer.

Pelo andar da carruagem, resta-nos a pergunta: no que que darão os protestos de Wuhan? Talvez já saibamos…

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Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.

Natural de São Paulo, mas residente em Salvador, é ouvinte de Alborghetti desde 2005, leitor de Olavo de Carvalho desde 2007 e membro do MBL-BA e articulista para assuntos chineses do MBL Nacional desde 2019. Suas principais influências na escrita e no pensamento são Oscar Wilde, Camilo Torres, Arthur Schopenhauer, Roger Scruton, Santo Agostinho, Machado de Assis e outros.