Por quê (ainda) somos uma direita neo-americana? (intro)

No esforço de compreender as situações históricas, tecer analogias é um método recorrente

Opinião
 13 de março de 2019 | 19h06
Por Ricardo Almeida

No esforço de compreender as situações históricas, tecer analogias é um método recorrente, conquanto não inteiramente seguro. Para comparar objetos é preciso, preliminarmente, que eles sejam similares e diferentes de forma tal que não se igualem (obedecendo o princípio leibniziano dos indiscerníveis isso ainda os faria numericamente distintos) nem sejam totalmente heterogêneos (com o que se destruiria a sua própria condição de objetos). Portanto, entre duas impossibilidades, abre-se o vastíssimo espaço das comparações possíveis; ao comparar os objetos podemos determinar o aspecto sob o qual se pretende fazê-lo (cor, forma, origem, duração, p ex.), se esse aspecto diz respeito a uma propriedade comum ou não (a cor ou a posição relativa no espaço, p.ex.), quais as consequências de processos dinâmicos semelhantes (a performance de processos similares sob as mesmas condições, p ex.), e continuar refinando a abordagem em várias direções. Podemos, no entanto, compará-los e alcançar através disso conclusões equivocadas, atribuindo a certas analogias um peso que elas não tem para, por meio delas, esclarecer algum ponto que pretendamos. Esse é o grande perigo do método, tão recorrente quanto é o seu próprio e inescapável uso na reflexão histórica.

Quando interpretadas corretamente, com o grau de refinamento adequado à parcimônia objetiva dos juízos, as analogias históricas mostram que o mesmo conjunto de características pode nos ajudar a entender desdobramentos similares de processos diferentes. Assim, pensemos no declínio de um império cosmopolita, fundado na longa continuidade de uma família real, dividido por dissensões internas oriundas de etnias cujos sentimentos nacionalistas afloram. Que seja este império ainda economicamente atrasado, conduzido por governantes tradicionais. Tal quadro corresponde a alguns exemplares possíveis. Isolemos um em particular e temos a situação do Império Otomano, na alvorada do século XX. O Califado era o “velho doente” da Europa, como a diplomacia do período o denominava. Dentre outros padecimentos do Califado, ele sofria os males decorrentes de ser uma unidade política antiquada, de se mostrar economicamente débil e de estar sendo fraturado por etnias insatisfeitas, dos gregos aos armênios, cujas aspirações à autodeterminação dos povos levavam-nos a rebeliões. Com a mesma doença, também o Império Habsburgo convalescia, motivo pelo qual poderíamos descrevê-lo nos mesmos termos. Eis como ambos são capturados por igual descrição, que se manifesta, factualmente, de maneira análoga (pois intensidades, posições, extensões e intensões variam amplamente). Separados por diferenças significativas de língua, religião, cultura, economia e instituições políticas, as aproximações viáveis, contudo, estabelecem uma ferramenta de escrutínio bastante eficaz. Ao estudarmos a fase final do Império Otomano, conseguimos apreender alguns problemas emergentes no Império Austríaco e vice-versa, por qual razão eles aparecem, quais os fatores que os fizeram vir à tona. Ficamos sabendo quais as consequências que semelhantes problemas trouxeram para o equilíbrio dessas unidades políticas, por conseguinte, para a homeostase do cenário europeu pré-1914. Sem essa comparação poderíamos estudar cada império detidamente, analisando-o apenas em seus próprios termos, mas careceríamos do auxílio advindo do cotejo dos cenários. Comparando os impérios, eles se iluminam mutuamente.

Esse tipo de análise pode ser explorada tanto para se investigar acontecimentos sincrônicos quanto para se entender acontecimentos atuais à luz dos passados (e também os acontecimentos passados à luz dos atuais, expediente mais raro, visto o interesse histórico voltar-se, com maior frequência, para nos situarmos no presente). Maquiavel é, neste sentido, um mestre para os historiadores políticos, já que a sua obra política repousa precisamente na aplicação arguta do método da analogia histórica por recortes temporais transversos. Acreditando que as situações humanas se repetem esquematicamente, que os mesmos problemas enfrentados por um conquistador romano apareciam na vida de um condottieri italiano, por exemplo, Maquiavel pretendeu dar conselhos atemporais. Os seus conselhos de governança são voltados a auxiliarem o líder político, que se defronta com episódios comuns na luta pela obtenção e manutenção do poder. Essas situações aparecem em quaisquer países a qualquer tempo. Se assim ocorre, elas devem surgir de um estrato universal na dinâmica dos homens em sociedade. Fundamenta-se essa crença na idéia, não menos típica do pensamento maquiavélico, de que há constância nos traços psicológicos e psico-sociais mais profundos do gênero humano, capaz de se manifestar em trajes e formas novas sem prejuízo da unidade essencial. Desse modo, ele elucida o provável desfecho de conluios mancomunados por aristocratas italianos através dos desfechos de conspirações feitas na Grécia para derrubar tiranos. E como Maquiavel faz isso? Eis o método: ele descreve as situações factuais com algum nível de minúcia, depois sonda os motivos que levaram os agentes a tomarem certas atitudes em vez de outras, julgando o acerto das decisões com amparo de exemplos parecidos colhidos na história clássica. Os exemplos de governantes que lidaram com situações parecidas são então apresentados, sublinhando-se o sucesso ou insucesso deles. Por detrás da variação acidental dos casos, Maquiavel destaca os princípios que norteiam as ações destes agentes, assim como as razões mais particulares pelas quais os governantes falharam ou conquistaram seus objetivos ao enfrentarem tais desafios. Como os seres humanos são os mesmos, temem e amam, desejam o poder e a glória, se submetem aos tiranos e os atraiçoam, é natural que as lições aprendidas tenham valor para além do contexto no qual surgiram. A profunda convicção da estabilidade basilar da natureza humana é a fonte do famoso realismo maquiavélico, infenso às sereias da exaltação imaginativa romântica.

Se Maquiavel faz isso, dentre outros propósitos, para prescrever um receituário das técnicas do poder, podemos, por outro lado, seguir-lhe os passos com finalidades puramente descritivas. De nossa parte, porém, não se impõe a obrigação de escalar a explicação ao nível dos grandes princípios. Maquiavel buscava discernir, na particularidade, o princípio universal que permitisse ao governante lidar com determinada conduta humana estereotipada, recorrente, portanto, na seara política. Mostrando diversas situações nas quais governantes amados, porém pouco temidos, perdiam o controle das massas, ele conclui que mais vale, para quem aspira a manter-se no poder, o temor bem administrado do que o amor instável. Essa lhe parece uma regra de aplicação generalíssima, uma espécie de máxima.

Não se exige de toda exploração da analogia extrair conclusões tão gerais. É o caso do nosso exemplo inicial, o dos impérios destruídos após a Primeira Guerra. Não é a condição geral da decadência das instituições imperiais — temática capaz de abranger desde o Egito Antigo até o Império Russo – que necessariamente preocupa o historiador sequioso de entender o declínio dos impérios pré-1914. Ele pode se preocupar em entender poucos casos com o exclusivo intuito de investigar a Primeira Guerra, sem a ambição de postular uma hipótese universal sobre os fatores que levam os impérios à queda. Ele não procura cotejar os cenários e diversos impérios para descobrir o princípio geral da sua decadência. Do mesmo modo, ao compararmos o desenvolvimento do movimento conservador norte-americano com o trajeto já percorrido pela nova direita brasileira, iremos chegar a algumas conclusões profícuas sem a ambição de alcançar o nível dos princípios gerais. Assim como o historiador preocupado com a Primeira Guerra, nosso foco é mais modesto, embora nos separe um ponto fundamental: comparamos desenvolvimentos inscritos em épocas diferentes. Esse descompasso temporal vai nos permitir enfrentar uma tarefa composta de duas frentes associadas. A primeira delas é lançar alguma luz sobre os motivos pelos quais somos uma direita neo-americana para além da obviedade de que importamos literatura conservadora americana (como se verá, essa não é uma condição suficiente). A segunda, para a qual a ausência de simultaneidade dos fenômenos mostra-se relevante, é tecer especulações a respeito do desenvolvimento futuro desta mesma direita, tomando como base alguns traços do desenvolvimento prévio da direita americana. Nota-se, aliás, rara preocupação com esse tipo de abordagem, malgrado o sedutor elemento de futurologia nela contido. Geralmente, articulistas do nosso campo medem o cenário atual da direita brasileira com o da direita norte-americana de hoje, comparando Bolsonaro a Trump, a mídia alternativa verde-e-amarela à mídia patriótica ianque e assim por diante. Mas, imagine se a força epistêmica da abordagem fosse incrementada aceitando-se a premissa de que a direita brasileira e a americana, embora existam na mesma necessária contemporaneidade, não exibem um desenvolvimento paralelo? Assim, talvez até pudéssemos ter um relance do futuro da nova direita brasileira mediante o exame do presente da direita americana. Obviamente, ao empreender essa tarefa delicada precisamos nos precaver das diferenças, sopesando e contrabalançando os fatores em jogo.

Por fim, cabe uma nota introdutória bibliográfica. Essa pequena jornada poderia nos dar um trabalho considerável, caso não tivéssemos a sorte de ter encontrado o guia ideal, espécie de Virgílio em forma livresca para nossa peregrinação na selva oscura. Esse guia é o calhamaço de George Nash, The Conservative Intellectual Movement in America since 1945. Os próximos artigos serão escritos ao modo de uma resenha desse livro, peça historiográfica tremendamente interessante, que marcou o pleno despertar da autoconsciência do movimento conservador americano. Temos boas razões para crer que o essencial nessa nossa abordagem sobre o movimento conservador esteja nos consensos, e não nos dissensos, o que permite-nos seguir esta obra cuja tônica é apresentar certo consenso histórico a respeito da restauração “da direita” nos EUA. Portanto, ao invés de nos valer de vasta literatura acessória, pretendemos acompanhar o périplo do conservadorismo do big brother do norte no que há de firmemente estabelecido – as divisões do movimento, as revistas, os principais problemas, as relações comprovadas entre as alas, ou seja, aquilo que menos oferece margem para controvérsia entre os especialistas, de cujo seleto rol estamos longe de participar. Assim, nos próximos artigos iremos resenhar The Conservative Intellectual Movement in America since 1945, procurando obedecer aos princípios aqui expostos, extraindo dessa leitura as lições de autoconsciência que precisamos, tão urgentemente, aprender.