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Por que ainda somos uma direita neo-americana? (as três correntes)

Veja como as três correntes da direita americana correspondem às nossas

09/04/2019 18h33

No artigo anterior dessa série (veja aqui), aventei uma hipótese de interpretação histórica: somos uma direita neo-americana porque o nosso desenvolvimento histórico enquanto campo político pode ser emparelhado com o da direita dos USA. O périplo da direita estadunidense, consubstanciado nos esforços de reconstrução pós-Roosevelt, foi exposto, magistralmente, no livro de George Nash The Conservative Intellectual Movement in America since 1945. Se estiver correta a hipótese do primeiro artigo, descobriremos mais pontos em comum entre elas do que aqueles que se explicariam pela mera recepção da literatura conservadora americana por parte dos formadores de opinião nacionais. Evidentemente, seria preciso trazer uma explicação mais robusta para dar conta dessas similaridades. Contudo, já fiz na introdução algumas observações de caráter metodológico para situarmos preliminarmente este paralelismo, sugerindo o que podemos dele inferir de maneira legítima e o que seria uma extrapolação sem base (recomendo a leitura do artigo introdutório). Neste novo artigo, pretendo começar a montar as peças do quebra-cabeças descritivo a partir do exame, simultâneo, das correntes principais que surgem nos Estados Unidos e das que surgem no Brasil com a nova direita dos anos 90 (1). O exame procederá ao modo de uma resenha crítica, acrescentando-se, no entanto, a comparação entre aquele trajeto e a contraparte brasileira. O que me levou à intuição já exposta foram as semelhanças extraordinárias entre as duas situações, visíveis desde a simples descrição objetiva dos fatos principais na formação de ambas as direitas.

Sumariamente, segundo George Nash, a divisão primária estabelecida no seio do movimento conservador se dá em três: a) a ala libertária e liberal clássica, representada por F. Hayek, Wilhelm Röpke, Mises, Lawrence Reed, Frank Chodorov, os chicaguistas b) a ala conservadora tradicionalista representada por Richard Weaver, Russell Kirk, Bernard Iddings Bell, John Hallowell c) a ala anticomunista, representada por Whittaker Chambers, James Burnham, M. Stanton Evans. Ao redor das mais eminentes figuras, aparecem outras: as de historiadores, sociólogos, jornalistas, polemistas, cientistas políticos, intelectuais, em suma, tributários das perspectivas descortinadas pelos luminares de cada nicho do movimento conservador americano. Cada uma dessas alas também produz expressões institucionais: associações, revistas, jornais, movimentos (destacando-se a National Review como síntese das três). Obviamente, a divisão ternária de Nash não implica que as alas não são porosas umas às outras. Bem ao contrário, o livro mostrará os intercâmbios entre esses vários pensadores: como eles se apropriam uns dos outros, as tensões surgidas no embate das idéias e dos egos, as polêmicas e as soluções dos dilemas. A despeito da complexidade da mútua influência, três linhas são claramente delimitadas, pois as questões fundamentais para cada uma delas são diferentes, assim como são diferentes as soluções apresentadas para as questões compartilhadas por todas. Existe, é claro, uma espécie de mínimo denominador comum conservador (1), formado não sem luta, tendo sido o grande feito de Bill Buckley — fundador e editor da NR – tê-lo encontrado.

Não são essas alas as mesmas que possuímos na nossa direita nativa, cuja divisão esquemática se adequa a esse modelo, de tal modo que Nash poderia aplicá-lo à nossa realidade? As evidências apontam para essa conclusão. Vejamos a construção do cenário atual: temos, hoje, na nova direita a) uma ala caracteristicamente liberal e libertária. Ela é representada por Helio Beltrão, por youtubers como Rafael Hide, Paulo Kogos, pelo Neoiluminismo, pelo Mises Brasil, Instituto Rothbard, SFL. A fundação dessa corrente tem dois grandes marcos: o advento do Instituto Liberal em 1983 assim como a edição inaugural do Fórum da Liberdade em 1988. Tipicamente, os autores mais celebrados, traduzidos, lidos e emulados, em todo esse meio, são os liberais da escola austríaca, da escola de Chicago, e os libertários, isto é, precisamente os indivíduos cuja laboriosa resistência constituiu a própria renovação do pensamento econômico americano. O Partido Novo é uma expressão partidária clássica dessa tendência.

Além dos liberais, temos, hoje: b) uma ala que poderíamos denominar conservadora, em sentido análogo ao que Nash chama de conservadores tradicionalistas. Aqui o acento é dado na preservação de uma tradição política reformista, bem como no esforço em prol da restauração da cultura, sendo, portanto, a corrente mais ciosa de tópicos como prudência (Kirk), ceticismo na política (Oakshott), imaginação moral (Burke), ora tomados como objeto de reflexão teórica, ora como princípios a serem aplicados na análise política cotidiana. Essa corrente é bem representada por Alex Catharino, Martim Vasques da Cunha, Paulo Cruz, Francisco Razzo, o ex-libertário Rodrigo Constantino, assim como por boa parte dos jornalistas de direita que escrevem na Gazeta do Povo. Não existe uma expressão partidária dessa corrente, mas a índole reformista que lhe é própria termina por fazê-los revalorizar os modos mais tradicionais de exercício democrático partidário.

Por fim, temos: c) a ala anticomunista, tributária de análises conjunturais e estudos sobre o fenômeno marxista, sobre o globalismo, entre outros tópicos relevantes. As manifestações dessa última corrente se encontram na Radio Vox, em Graça Salgueiro, no youtuber Nando Moura, no canal Terça Livre, em uma vasta rede de blogs e canais cuja principal militância consiste em defraudar esquemas de poder revolucionários — com ênfase particular em deslindar as movimentações do comunismo ou da esquerda global. A tensão ideológica com a esquerda é aqui não exatamente maior que nos outros casos, mas possui um componente de embate institucional muito mais específico: se o combate da ala liberal é, primordialmente, contra o estatismo, o da ala conservadora tradicionalista contra o revolucionarismo e o obscurecimento da cultura, o da ala anticomunista será contra o comunismo, o globalismo e a esquerda em geral. Trata-se, pois, de alvos muito determinados, que encarnariam tendências deletérias, e não contra tendências deletérias encarnadas particularmente neste ou naquele alvo. Esta sutil diferença de tônica confere a essa ala um modo muito próprio de condução política. A manifestação partidária dela é o PSL, mas sem a mesma translucidez com que o NOVO manifesta a primeira corrente, em virtude do ideário compósito de boa parte dos parlamentares recém-eleitos pelo PSL.

Uma importante diferença para com a direita americana reside na presença singular de Olavo de Carvalho no panorama nacional. Pela abrangência das cogitações e pela centralidade da influência, Olavo de Carvalho não se presta a ser bem classificado em uma dessas alas por exclusão das demais. O melhor paralelo que se poderia fazer entre ele e os formadores de opinião norte-americanos seria com a figura ilustre de William Buckley Jr. Todavia, Bill Buckley sintetiza não a criação dos tópicos da direita americana, mas a sua veiculação, graças à sua criação da National Review, que, como observou Nash, conseguirá abarcar as múltiplas tendências da renovada direita americana dentro da sua linha editorial. Ademais, como é sabido, o talento de Buckley não era propriamente analítico ou filosófico. A sua melhor performance é como polemista e agitador cultural, algo patente desde quando escreveu a obra de juventude God and Man at Yale. Finalmente, também ao contrário de Bucley, cujo horizonte é inequivocamente político, a obra de Olavo tampouco pode se reduzir à sua influência na política, guardando o intuito declarado de criar uma síntese filosófica original independente do impacto dessa síntese na constituição política de um movimento. Sendo assim, não existe um lugar nos EUA comparável ao ocupado por Olavo de Carvalho no Brasil.

Não obstante, há cerca de cinco meses, ponderei em artigo anterior (veja aqui), que a nova direita nascia de dois arcos: Olavo de Carvalho e o Instituto Liberal, respectivamente, o arco conservador e o arco liberal. A classificação de Nash, porém, é tripla. Como fica o nosso paralelismo diante dessa aparente assimetria?

É fácil perceber que o dito “arco conservador” abrange, fundamentalmente, o que Nash chama de a ala conservadora tradicionalista e a ala anticomunista. Não é a toa que o impacto precípuo da obra de Olavo se dá na formação de um repertório de temas, leituras e referências para a aquisição da alta cultura e para a guerra cultural contra o comunismo, o globalismo e a esquerda (2). Muito embora ele tenha sido divulgador da escola austríaca, mormente, sublinhando a importância da economia de Mises, a existência de um Instituto Liberal, cujas atividades públicas datam de antes da estréia de Olavo como crítico cultural (em 1994), permitiu o enquadramento do novo liberalismo brasileiro de modo um tanto diverso. Por conta disso, malgrado os frequentes ataques formulados vagamente contra “os liberais”, a tensão de Olavo com os liberais propriamente ditos – ou liberais, por assim dizer, mais “puro-sangue” – será substancialmente menor (para os liberais) que a tensão havida entre ele e os conservadores explicitados na segunda categoria, que também são liberais, porém dentro do popular binômio “liberais-conservadores”. A agudeza particular deste antagonismo se deve à interseção entre os interesses intelectuais aí estatuídos, por conseguinte, entre os apelos à autoridade dos partidários e dos críticos de Olavo no campo em que a segunda ala pretende falar também com autoridade. Os anticomunistas, por seu turno, tem sido mais receptivos aos esquemas descritivos da tradição comunista instaurados pelo filósofo brasileiro.

Em todo caso, parece-me clara a correspondência entre a articulação americana e a brasileira em três correntes bem delimitadas — com interseções variadas entre elas. O que a reforçará mais ainda é a semelhança entre o trajeto histórico das correntes. Uma vez admitida a força elucidativa da comparação aqui estabelecida, passaremos a examinar, justamente, o trajeto histórico da direita americana e da direita brasileira — ou três trajetos solidários, cujo destino comum dá feição à “nova direita”.

Como a natureza jornalística dos artigos do News exige brevidade — o presente texto já desrespeita a exigência suficientemente — deixarei para os próximos três artigos da série a análise de: (1) os esforços práticos das três correntes, tanto nos USA quanto no Brasil, para se organizarem enquanto força social: inauguração de revistas, fundação de institutos, associações, jornais, revistas, programas de radio e TV, enfatizando o caso americano, menos conhecido; (2) os importantes paralelos entre o “grande inimigo” da direita americana – F.D.Roosevelt – e o da nossa – Lula e o PT, ressalvando significativas diferenças entre a situação deles e a nossa, inclusive aquelas que decorrem da assimetria temporal (3) os motivos da escolha de uma matriz americana e o quanto essa escolha tem de singular à luz da história do liberalismo brasileiro.

Notas:

(1) Nos EUA, a divisão política corresponde a uma distinção semântica incomum para nós: conservatives e liberals. Aqui, dificilmente um libertário seria enquadrado em uma categoria ideológica nomeada “conservadorismo”, o que nos EUA faz todo sentido.

(2) A crítica ao Islam é um elemento que não se encontra presente, originalmente, na formação do pensamento conservador americano dos anos 40 e 50, pelo simples fato de que não havia esse problema à época. Entretanto, esta crítica integra, atualmente, o repertório conservador, tanto na Europa quanto nos EUA. Como veremos em artigo futuro, a importação antiislâmica pela direita brasileira não é, em essência, europeia mas norte-americana.

Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).