Partido Comunista Chinês: a fundação

A história oficial diz que Mao fundou o PCC, mas essa não é a verdadeira história

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 11 de março de 2019 | 1h06
Por Caio Rodrigues

O atual presidente da China, Xi Jinping, argumenta que o Partido Comunista Chinês – doravante chamado tão somente de PCC –, não obstante tenha cometido graves erros no passado, aprendeu com eles e tornou-se, afinal, um melhor mecanismo de governo. Mas como foi fundado o PCC?

Para tratarmos, porém, da fundação do PCC devemos retroceder umas boas décadas e, claro, não podemos nos olvidar de mencionar Mao Zedong (ou Mao Tsé-tung), ditador chinês que governou a China por mais de um quarto de século – de 1949 a 1976.

A história oficial do governo chinês data o nascimento do PCC em 1921, de modo a fazer com que Mao seja um de seus fundadores, mas não foi bem assim: em 1921 houve o I Congresso para, como veremos adiante, formalizar o partido, significando que já havia antes disso pessoas organizadas com esse propósito.

Uma dessas pessoas era o professor Chen Tu-hsiu, autoridade marxista, que Mao conheceu em junho de 1920, em Xangai, quando voltava de Pequim com uma delegação para entrar em contato com a autoridade central para fins de derrubar Chang Ching-yao, autoridade de Hunan.

A ideia de criação de um partido comunista não era originária do professor nem de qualquer outro chinês, mas de um projeto de expansão soviético das ideias comunistas. Nesse mesmo ano, com a tomada da Sibéria Central, e estabelecida a conexão territorial com a China, o Comintern enviou o agente Grigori Voitinski, responsável por fazer a proposta ao professor Chen de criar um partido comunista chinês. O professor, então, virou secretário do partido e protagonizou a fundação com outros sete marxistas. Foi nessa época e contexto que Mao Zedong encontrou com o professor Chen e ele, Mao, não era marxista tampouco grande conhecedor das ideias, a despeito de já conhecer a figura de Karl Marx. Nesse encontro ficou ele com a responsabilidade de abrir uma livraria em Changsha para vender e distribuir literatura comunista, dentre elas o jornal “Nova Juventude”, estabelecendo o vínculo de Mao com o PCC, e assim foi até 1921.

Em 13 de junho de 1921, alguns meses após o segundo casamento de Mao, dois agentes enviados de Moscou, ambos com pseudônimos, Nikolski (da inteligência militar da Rússia) e Maring (holandês agitador nas Índias Orientais Holandesas) chegavam à China, em Xangai, com ordens para os, por assim dizer, adeptos chineses do comunismo convocarem um congresso para formalizar o partido. Nesse sentido, foram enviadas cartas para outras sete regiões com as quais se havia estabelecido contato; cartas estas nas quais continham um lote de convites (para dois delegados) e 200 yuans para cobrir as despesas de viagem até Xangai. Mao estava em Changsha, esse dinheiro correspondia a quase dois anos de trabalho como professor (na mesma época ele também atuava como jornalista), e era mais do que necessário para a viagem – essa foi a primeira vez que se sabe ter Mao recebido dinheiro russo e, portanto, selado sua relação sino-soviética.

Havia-se requisitado a cada região que enviasse dois delegados. Mao, então, levou consigo seu amigo Ho Shu-heng e os dois embarcaram, às escondidas, num barco a vapor em direção a Xangai. A discrição se devia ao fato de que se tratava de uma conspiração para montar uma organização com financiamento estrangeiro cujo objetivo era a tomada do poder por meios ilegais.

O PCC, hoje, é uma das organizações políticas mais poderosas do mundo (tendo atualmente mais de 800 milhões membros), mas em 1921, dias após a chegada dos estrangeiros em Xangai, em 23 de julho, abriu seu I Congresso com a presença tão somente de 13 membros, dos quais nenhum proletário tampouco camponês, que representavam um total de 57 comunistas.

O congresso durou uma semana. Os discursos eram antes lembrados por sua duração que por seu conteúdo. As atividades dos comunistas eram vigiadas pela polícia e, sendo assim, na noite do dia 30 julho, Maring suspeitou da presença de um espião e ordenou que os delegados fossem embora; eles, então, reuniram-se num barco num lago de Jiaxing, nas cercanias de Xangai, e sob uma torrente de chuva, foi proclamado oficialmente o Partido Comunista Chinês. Como os estrangeiros não estavam presentes, a fim de não levantarem suspeitas, nem programa foi instituído tampouco manifesto ou carta.

Somente no ano seguinte, em julho de 1922, houve aprovação do estatuto e da entrada do PCC no Comintern, em seu segundo congresso para o qual Mao não foi convidado, uma vez que havia falhado em suas tarefas de organizar sindicatos e recrutar militantes para o Partido. Ele, porém, soube restabelecer seu protagonismo passando a visitar minas de chumbo e zinco, e a liderar manifestações e greves. Tornando-se, ao fim e ao cabo, chefe e montando o primeiro comitê comunista em Hunan – daí tivemos a guerra civil, a “Grande Marcha”, e sua culminância na tomada de Pequim pelos comunistas, expulsando os nacionalistas, liderados por Chiang Kai-shek, para Taiwan, em 1949.

Mas, afinal, em que se fundamentam e como funcionam o PCC e a política chinesa? Eis o que veremos na próxima coluna.

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Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a política chinesa e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.
Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já contribuiu com a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max.