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Os perigos do otimismo

Nos últimos tempos (da eleição até agora) muita fé tem sido depositada na atuação do atual ministro

15/01/2019 11h40

Nos últimos tempos (da eleição até agora) muita fé tem sido depositada na atuação do atual ministro da economia, Paulo Guedes, em aprovar suas reformas liberalizantes e o mercado tem respondido a isso com enorme otimismo. Todavia, existem perigos sérios nesse otimismo. Uma fé indevida na esperança pode causar problemas econômicos sérios. Historicamente podemos ver isso ocorrer no caso de um de nossos “hermanos”: o México.

Nos Anos 90, o México, gerido pelo brilhante ministro das finanças Jaime Serra Puche, era a grande estrela e vitrine das reformas liberalizantes na América Latina. Depois do incrível sucesso chileno (e seus maravilhosos 7,1% de crescimento anual), Jaime Serra e Ernesto Zendillo tentaram recriar o milagre chileno no México. Para isso, eles fizeram uma série de reformas liberalizantes: abertura da economia mexicana para competição externa (sobretudo por meio da assinatura do NAFTA), grandes programas de privatização e desregulação de negócios, estabilização cambial por meio de um processo de valorização com uso de âncoras cambiais e políticas fiscal e monetárias austeras.

Houve grande euforia internacional com a adoção de tais medidas por parte da mídia, das instituições financeiras e das organizações multilaterais. Era a febre do otimismo. Instituições como o FMI e o Banco Mundial falavam de um “milagre mexicano” em seus relatórios, o governo americano (em boa parte tentando propagandear o NAFTA) falava dos maravilhosos resultados da economia mexicana. De fato, o próprio diretor administrativo do FMI, Michael Camdessus, chegou a dizer em relatório: ” Nossa visão é de que as autoridades mexicanas estão tomando políticas econômicas estáveis. Os programas adotados até o presente ano de 1994 irão conseguir recuperar o crescimento econômico. O governo está comprometido com o equilíbrio fiscal, a manutenção de políticas de crédito firmes e comprometido com a aprovação de reformas estruturais como a autonomia do Banco Central, a aprovação do NAFTA e a adoção de regras mais flexíveis de investimento externo”

Todavia, como notou posteriormente Paul Krugman, esse otimismo nas reformas era mais “um salto de fé do que algo baseado em evidências concretas”. Entre os anos de aplicação das reformas, 1988 a 1994, o desempenho da economia mexicana não era nada mais do que o modesto. O crescimento real era de 2,8% em comparação com 7,2% do Chile e 5% da Colômbia no mesmo período, os ganhos de produtividade eram praticamente zero até 1993, existe um descolamento dos ganhos de exportação para a balança comercial em 1990 gerando déficits comerciais crescentes até 1994, os salários permaneciam em seus níveis de 1980 e a taxa de poupança apresentava queda crescente desde 1989, indo de 25% para algo perto de 15,6%. Durante o período de 1988 até 1994, quando as reformas liberalizantes foram feitas, houve um descolamento entre os progressos do México em termos de políticas e reformas e o progresso em termos de resultados econômicos. E a mídia e as instituições internacionais basearam seu otimismo descabido na primeira.

As consequências desse otimismo se traduziram sobretudo nas taxas de câmbio e na balança de pagamentos. Durante o período de reformas, o México, seguindo uma receita usada anteriormente no Chile, adotou o sistema de âncoras cambiais como meio de deter a inflação e desencorajar fluxos de capital internacional especulativo. Todavia, eles não adotaram uma política monetária de controle dos agregados monetários como feita no Chile durante o período de 1974 a 1980. Assim, a consequência última do uso das âncoras cambiais para conter possíveis processos inflacionários foi uma apreciação cambial que, todavia, foi vista com bons olhos pelo mercado como sinal de estabilidade da economia mexicana (algo que se repetiu no Brasil durante a administração das bandas cambiais pelo Gustavo Franco). A apreciação, combinada com a euforia internacional, fez com que um crescente fluxo de capital entrasse no México a despeito do intencionado originalmente pelos políticos. Esse influxo de capital externo permitiu que o governo mexicano (e sobretudo suas elites políticas) gerenciasse enormes déficits de conta corrente, que chegavam a 7% do PIB entre 1992-1994. Muito desse influxo de capital (que chegou a 8% do PIB em 1993) era alimentado pela euforia com o cenário mexicano e era especulativo em sua natureza, sendo investido majoritariamente no mercado de ações e em investimentos privados (algo muito semelhante ao que ocorreu na Argentina na onda de euforia com a eleição de Maurício Macri). A natureza desses influxos aumentava a vulnerabilidade macroeconômica do México.

O aumento dos fluxos de capital externo permitiu que muitos cidadãos e firmas mexicanas aumentassem seus gastos por meio de empréstimos ou compras no exterior, o que aumentou ainda mais a pressão sobre um câmbio já apreciado e criou sérios problemas, porém ignorados, de déficits de conta corrente. As autoridades mexicanas ignoraram esse problema dizendo que os fluxos eram majoritariamente privados e que a políticas fiscal mexicana estava em perfeito equilíbrio.

A despeito desses desequilíbrios e uma estagnação da produtividade da economia, o mercado continuava otimista com o México até 1993. Em boa parte, isso foi alimentado pela aprovação do NAFTA, mas em 1994 a situação mudou e a bolha dos sonhos mexicanos teve seu fim. A comunidade internacional, após uma série de revoltas sociais ocorridas (com uma delas levando ao assassinato do candidato à presidência Luis Colosso) fez com que muitos fizessem o vital exercício de olhar novamente os resultados dos indicadores mexicanos. Houve o pânico e o “estouro do rebanho” subsequente quando as instituições financeiras perceberam que a situação mexicana não era o que estavam esperando. Houve uma retirada enorme de capital do México que resultou na explosão da balança de pagamentos, pois agora não havia como se financiar o déficit de conta corrente nem com o superávit fiscal e haveria problemas de pagamento na balança comercial. Como não havia mais reservas internacionais para cobrir a política de ancoras, o Banco Central Mexicano teve que romper elas, causando uma maxi-desvalorização de 10% na relação peso-dólar e uma elevação do prêmio de risco de 2 para 5%.

O resultado final foi a crise do peso mexicano e um desastre financeiro e econômico que fez com que muitos acreditassem que ali estava o fim dos mexicanos. Esse caso é bom para ilustrar os perigos das esperanças sem base em reformas liberalizantes e os danos que o otimismo pode nos causar quando baseado apenas em discursos.

 

BIBLIOGRAFIA:

LANGONI, Carlos Geraldo(org). A Nova América latina. FGV Editora, Rio de Janeiro.

Macroeconomics of Populism in Latin America, Dornbrusch e Edwards, NBER Reserch.

Chile and Mexico: a tale of two crisis, Sebastian Edwards, NBER.

Foreign Direct Investors in Three Financial Crises, Robert Lipsey, NBER.

 

Sobre o autor:

Sávio Coelho: Escritor do Neoiluminismo, microeconomista, samuelsoniano e chicaguista do grupo.

Movimento de cunho acadêmico empenhado em divulgar as ideias do liberalismo clássico e combater o relativismo e o dogmatismo presentes no cenário intelectual e político brasileiro.