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China
O Massacre da Paz Celestial – Parte II

O Partido Comunista Chinês estava dividido em duas facções e o racha foi exposto no rádio e na TV

19/06/2019 16h35

Vimos no artigo anterior que o Massacre da Paz Celestial teve como ponto de partida as manifestações por ocasião da morte do secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Hu Yaobang, que veio a ser, por isso mesmo e por deixar os demais líderes descontentes com a “fraqueza” de sua liderança em relação às manifestações, substituído por Zhao Ziyang, outro protegido de Deng Xiaoping, que também foi afastado do cargo e das funções posteriormente, como veremos mais adiante. No artigo desta quinzena daremos continuidade aos fatos históricos do acontecimento em questão que antecederam ao massacre.

No decorrer dos dias do mês de abril houve muitas outras manifestações e cada uma delas superou a outra em número de participantes. Diante desse cenário, Deng Xiaoping reuniu-se com dirigentes do partido e proferiu discurso qualificando as manifestações como uma revolta política cujo objetivo era minar o poder e o papel do PCC como guia do futuro da nação chinesa e, nesse sentido, era necessário tomar medidas capazes de bloquear o que ele chamou de rebelião e derrotar as facções subversivas que, na visão dele, lembravam os Guardas Vermelhos da Revolução Cultura – período em que ele próprio havia sido expurgado do partido. Além do mais, ressaltou que o governo não tinha intenção de derramar sangue, não obstante estivesse disposto se assim julgasse necessário, uma vez que as manifestações eram consideradas como antidemocráticas e antipatrióticas. Tais termos foram, a seu pedido, impressos numa edição do “Diário do Povo” – jornal oficial do governo chinês – cujo editorial fora lido nos sistemas de rádio e TV e nas universidades transmitido através de alto-falantes.

Não surpreende que o editorial causasse a revolta dos manifestantes que, no dia seguinte, apinharam a praça Tiananmen e exigiram retratação por parte do jornal e que passasse a reconhecer as manifestações como democráticas e patrióticas. O efeito do editorial foi tamanho que mesmo os slogans das manifestações foram alterados para slogans em defesa de uma liderança correta do partido, do socialismo e das reformas que estavam em curso; além de trocarem “abaixo o governo burocrático” para “abaixo os governantes corruptos” e em vez de “abaixo a ditadura”, opunham-se à burocracia, à corrupção e aos privilégios. No entanto, não deixaram de proferir críticas a Li Peng e Deng Xiaoping.

Após essas manifestações, os estudantes conseguiram duas reuniões, uma com o porta-voz do governo e outra com o comitê do partido em Pequim. Conseguiram, ainda, que as reuniões fossem transmitidas pela televisão, mas não ficaram satisfeitos por não terem conseguido o repúdio ao editorial do Diário do Povo.

Dias após, já em maio de 1989, Zhao Ziyang, que retornara de sua viagem à Coreia do Norte, fez discurso ao Banco Asiático de Desenvolvimento, que realizava assembleia pela primeira vez em Pequim, adotando postura mais flexível e oposta à linha de Deng Xiaoping que estava exposta no editorial do jornal, afirmando que não haveria grande revolta e que os estudantes estavam ao lado do sistema político e requeriam apenas algumas correções no trabalho do governo, na mesma esteira de seu discurso do dia anterior em que, a despeito da obrigatoriedade de condenar o liberalismo e a democracia burguesa, o que ele julgou desnecessário, limitou-se a falar que as reformas somente poderiam desenvolver-se se não houvesse sobressaltos.

Na noite em que o discurso fora proferido, rádio e TV o transmitiram e acabou evidenciando o racha que havia internamente no Partido, uma vez que rivalizava com o editorial do jornal. Os veículos de comunicação que até então faziam questão de ignorar os protestos, em suas edições seguintes lhes deram destaque, realidade que motivava também os pedidos por liberdade de imprensa.

A rachadura interna do partido exposta através do discurso de Zhao Ziyang fez com que intelectuais ligados a ele vislumbrassem a oportunidade de transferir os desejos por reformas mais amplas na política e na economia aos estudantes, visando impedir que se repetisse o episódio de Hu Yaobang, o que proporcionou o embate entre as alas mais flexíveis e as mais rígidas, que estavam alinhadas com Deng Xiaoping.

Posteriormente a isso, ocorreu a visita do líder soviético, após 30 anos de cisão entre as duas nações comunistas, Mikhail Gorbachev, cujo visita fora marcada por um episódio de ridicularização do governo e inflamação dos protestos.

Como foi esse episódio e como as relações entre estudantes e governantes se deu no correr dos dias? Eis que o veremos nas próximas colunas.

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Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.

Natural de São Paulo, mas residente em Salvador, é ouvinte de Alborghetti desde 2005, leitor de Olavo de Carvalho desde 2007 e membro do MBL-BA e articulista para assuntos chineses do MBL Nacional desde 2019. Suas principais influências na escrita e no pensamento são Oscar Wilde, Camilo Torres, Arthur Schopenhauer, Roger Scruton, Santo Agostinho, Machado de Assis e outros.