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China
O Massacre da Paz Celestial – Parte I

A morte do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês foi o ponto de partida das manifestações por liberdade

05/06/2019 21h55

Ontem, dia 4 de junho, completou-se 30 anos do Massacre da Paz Celestial. Episódio da história política da China obumbrado pelo governo e pelo partido comunista chineses. Nesse sentido, pipocou nas redes sociais e nos mais diversos sites artigos e vídeos sobre o assunto. Aqui nesta coluna não poderia ser diferente. Entretanto, observamos que não houve o devido cuidado e aprofundamento que a questão merece. Assim sendo, não nos limitares a tratar do Massacre num único artigo, mas em tantos quantos julgarmos necessários – contrariamente ao caso anterior, não estabeleceremos uma meta de artigos, deixaremos, porém, uma meta aberta e, caso julguemos necessário, dobraremos a meta.

Pouco se fala, mas as manifestações pacíficas que desembocaram no massacre que levou à morte, ao desaparecimento, ao aprisionamento de milhares, em sua maioria, de estudantes universitários, iniciaram-se por ocasião, em 15 de abril, da morte repentina do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Hu Yaobang, que havia sido retirado anteriormente do cargo e cuja morte acabou por revelar as vicissitudes internas do partido, uma vez que ele era tido como um líder reformista em oposição aos conservadores*, o que acabou insuflando o descontentamento de universitários e do povo com a elite do partido, já que Hu defendia maiores aberturas políticas da China como a democratização e, além disso, dias antes, mais exatamente no dia 8 de abril, o próprio Hu Yaobang havia sofrido um infarto durante uma reunião com líderes do Politburo, episódio ignorado pela imprensa chinesa, mas que não deixou de chamar a atenção de veículos de comunicação internacional a tal ponto que Li Peng, primeiro-ministro à época, numa viagem oficial ao Japão fez questão de se pronunciar sobre o caso salientando de que o infarto sofrido por Hu Yaobang nada tinha que ver com a reunião em que este estava presente.

Sendo assim, as manifestações, iniciadas logo no dia 18 de abril, de milhares de universitários chineses tiveram como primeiros atos vigílias e tributos ao ex-secretário-geral do partido que serviu, inclusive, como um artifício para atacar os líderes políticos do Partido Comunista Chinês ainda vivos, mormente Deng Xiaoping, assim como fizeram em 1976 por ocasião da morte de Chou En-lai com o objetivo de opor-se à ala mais próxima de Mao Zedong que buscava afastar Deng do poder.

Note que tais manifestações eram proibidas pelo governo, porém não havia como repelir manifestações em memória de Hu Yaobang que no dia da morte havia sido aclamado pelo Comitê Central do partido como “um combatente leal pelo comunismo, um grande proletário revolucionário, um grande estadista que com sua atividade trouxe benefícios permanentes ao partido e ao povo” e cuja demissão do cargo de secretário-geral e quaisquer falhas e erros que houvesse cometido foram simplesmente ignoradas. Além do mais, os estudantes manifestavam-se, ainda por cima, cantando a Internacional – que era antes resquício dos tempos de Revolução Cultural que propriamente adesão aos ideais comunistas, já que o período repressivo e fechado culturalmente dos anos 60 aos 70 impediu com que os estudantes tivessem contato com outros gêneros musicais além do gênero “música revolucionária” – a caminho do monumento de honras aos “mártires da revolução comunista” onde os estudantes aproveitavam para bradar em defesa da democracia, da liberdade e pela derrubada da corrupção e da burocracia.

Mas qual foi a posição de outros Estados, da mídia internacional? Houve negociação entre a elite política chinesa e os estudantes? Como a China lida hoje com esse episódio e quais os impactos do massacre? Eis o que veremos nos próximos artigos.

*A literatura especializada costuma caracterizar como “conservador” aquele membro do partido e do governo que se opõe a mudanças ocupando, assim, o lugar oposto do “reformista”. O que sabemos ser, evidentemente, um equívoco, uma vez que o conservador, ou melhor ainda, o conservadorismo não se opõe a mudanças, antes a mudanças bruscas que rompem com valores e tradições consolidadas pelo tempo, característica comum ao progressismo e sua vertente mais radical, o revolucionarismo. Assim sendo, o que dizem ser “conservadores” são mais exatamente imobilistas ou reacionaristas; aqueles não admitem qualquer mudança ou retorno a estado anterior e estes que querem e promovem o retorno ao estado de coisas anterior tendo como nociva qualquer mudança. Acima de tudo, porém, não é possível aplicar os termos “conservador” e “comunista” sem incorrer numa patente contradição entre os próprios termos.

Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.

Natural de São Paulo, mas residente em Salvador, é ouvinte de Alborghetti desde 2005, leitor de Olavo de Carvalho desde 2007 e membro do MBL-BA e articulista para assuntos chineses do MBL Nacional desde 2019. Suas principais influências na escrita e no pensamento são Oscar Wilde, Camilo Torres, Arthur Schopenhauer, Roger Scruton, Santo Agostinho, Machado de Assis e outros.