Editorial
Jair Bolsonaro está desesperado e não tem nada a perder

É evidente que o presidente foi irresponsável, mas o que mais essa imagem diz sobre o cenário político atual?

16/03/2020 11h11

Dia 15 de março de 2020, o presidente da República deixa o isolamento e parte para as manifestações a seu favor e contra as instituições democráticas.

Essa fotografia de Jair Bolsonaro ficou em minha cabeça o domingo inteiro; trata-se de uma imagem emblemática. O que ela representa? A população se dividiu em “irresponsabilidade” e “gesto de agradecimento”.

Obviamente, a primeira parcela está coberta de razão: foi uma irresponsabilidade enorme do chefe do executivo. Jair voltou dos EUA em uma comitiva que, neste momento, conta com 12 casos confirmados de coronavírus.

O presidente fez um teste que deu negativo, mas logo em seguida informou que precisaria passar pelos exames novamente, portanto, por recomendação do Ministério da Saúde, deveria ficar em isolamento. Ao invés disso, Jair foi às ruas e cumprimentou apoiadores, pegou em seus celulares e abraçou alguns.

Evidente que foi um ato irresponsável, mas além disso, o que mais essa imagem nos mostra? Depois de refletir o resto do fim de semana sobre, concluí que ela representa desespero. Devo admitir que a entrevista do presidente à CNN ajudou bastante, quando ele cita a questão da economia.

Após a novela do PSL, Bolsonaro perdeu o pouco apoio que tinha no Congresso, restando apenas os parlamentares mais ligados à ala ideológica e oportunista. Outros mantinham o apoio pelas pautas, e não pelo culto cego a imagem do mito. O fato é que Jair perdeu apoio.

Nos últimos meses, afastado da pauta da anticorrupção, os bolsonaristas passaram a valorizar o crescimento econômico, que poderia garantir a popularidade do mito. O problema é que o governo não conseguiu entregar o que prometeu, o “pibinho” decepcionou tanto que inventaram o “PIB privado”.

A cada canelada do governo, a popularidade do presidente caia, mas em resposta sempre vinha uma polêmica, uma mitada ou algo do tipo, o que ativava a rede bolsonarista, trazendo novos apoiadores ou reincidentes. Ao mesmo tempo, as polêmicas mostravam à família Bolsonaro que não há limites.

Com o Congresso e o Judiciário em silêncio, o executivo percebeu que sempre pode dar um passo além e chegar cada vez mais perto do radicalismo. O limite, para muitos, era o próprio presidente convocar manifestações em prol de si mesmo e contra os outros poderes da República.

Mas o esperto Jair deu um jeito de convocar os protestos sem convocá-los. Enquanto sua rede se movimentava em favor do ato, Bolsonaro fingia fazer o caminho inverso. No mesmo dia de seu pronunciamento pedindo o adiamento, a rede bolsonarista levantou a hashtag “DesculpaBolsonaroMasEuVou”.

A estratégia foi inteligente, já que apoiadores orgânicos, ao verem essa mobilização, se colocaram a prontidão para ir às ruas defender o mito que sangrou por eles.

O populismo escancarado na imagem acima expõe o desespero presidencial. Com a economia em colapso, sem apoio do Congresso, nem do Judiciário, Jair precisa do povo, precisa de apoiadores cegos, que legitimem suas atitudes inescrupulosas; Bolsonaro precisa de legitimidade para ser antidemocrático.

Na entrevista à CNN, o presidente, além de irresponsável, mostra estar desesperado, tentando menosprezar a crise global provocada pelo coronavírus, para não haver mais recessão econômica, pois é uma das poucas pautas que o governo consegue se agarrar para prender apoiadores não lunáticos.

Entretanto, os protestos mostraram bem a classe que ainda apoia fidedignamente Bolsonaro: idosos de classe média nostálgicos da ditadura militar. A massa de apoio popular se encolhe cada vez mais e se aproxima de um nicho específico. Tentar explicar a devoção irrestrita dessa classe é assunto para outro texto.

Neste, vamos nos reter ao fato exposto pela imagem: Jair Bolsonaro está desesperado e não tem nada a perder.

Entenda mais sobre o caso:

Professor de filosofia e diretor de jornalismo do MBL.