China
Cinco Inimigos do Governo Chinês

Para calar vozes dissidentes, em benefício próprio, o governo chinês está disposto a ameaçar, prender e torturar

08/05/2019 19h45

É notória a necessidade que governos ditatoriais têm, em nome do próprio benefício, de eleger pessoas ou grupos de pessoas como inimigos tanto internamente como externamente. Bastando que olhemos a Venezuela aqui ao lado que vive culpando, através de seu ditador, claro, os Estados Unidos como os responsáveis pelo fracasso do socialismo. Quer dizer, para fins de manter o poder e perpetuar-se nele, lista-se os inimigos do governo – que normalmente chamam de “povo” – e estabelecem campanhas para tais inimigos sejam encontrados e paguem por seus crimes que não raramente é a pena de morte, não sem antes de passar pela tortura, evidentemente.

Já no início do seu governo, nos anos 50, Mao Zedong estabeleceu a famigerada campanha dos “Três Antis” que consistem em malversação, desperdício e burocracia. Os três “inimigos” se referiam à maneira como os cofres e as finanças públicas eram administrados. Comunismo reclamando de burocracia? Pois é. O sentido aqui é outro. Trata-se de indolência no cuidado do dinheiro público. Mas não é exatamente o que se pensa. O objetiva de Mao não era combater a corrupção, embora o passado nacionalista tenha deixado uma forte marca nesse sentido e tal campanha se justificasse e se aplaudisse, já que se imaginava que o dinheiro seria utilizado em benefício do povo e não de Mao com a construção de diversas mansões das quais muitas ele sequer visitou. Então, o objetivo era o de evitar que os dutos de dinheiro que estavam, agora, sob o controlo do próprio Mao se desviassem para outras mãos – ninguém ama mais o dinheiro que os próprios comunistas.

Para alcançar o objetivo Mao propugnava o método de “confissão e informação” que levou milhões ao interrogatório, muitos dos quais tiveram seus testículos esmagados por alicates de bambu. Resultou que poucos eram os chamados “tigres grandes”, ou aqueles que embolsavam grandes quantias, mas o objetivo maior de constranger qualquer tipo de apropriação do dinheiro público foi alcançado.

Tempos depois, Mao lançou uma outra campanha chamada de “Os Cinco Antis” que consistiam em suborno, evasão de impostos – algo semelhante ao nosso “evasão de divisas” –, roubo de propriedade estatal, trapaça e roubo de informação econômica. Objetivo dessa vez era confiscar a propriedade privada dos que ainda não as havia perdido para o Estado e tolher seus meios de ação através do suborno e da evasão tributária.

O resultado para as duas campanhas, além das perseguições, prisões e torturas, foi algo entre 200 a 300 mil suicídios. Notemos que os suicídios eram feitos em público, saltando de prédios, para que as famílias dos suicidas não sofressem a pena por deserção de seus familiares.

Eram outros tempos e o regime maoísta estava há pouco tempo no poder, ainda estabelecendo suas bases. Na China de hoje o controle financeiro, isto é, o poder econômico está mais estabilizado – não obstante a acusação de corrupção ainda seja utilizada para se desfazer de desafetos –, e os inimigos do governo chinês são aqueles que oferecem ameaça ao poder política do Partido Comunista Chinês.

Os “cinco venenosos” como são chamados esses inimigos, consistem nas pessoas que apoiam a independência do Tibet, de Xinjiang e de Taiwan, além daqueles que lutam por democracia na China e aqueles que aderem ao Falun Gong (também chamado de Falun Dafa), um movimento com milhares de adeptos que mescla disciplina espiritual com exercícios de tai chi.

Para calar as vozes desses dissidentes, o governo chinês – que é sinônimo de Partido Comunista Chinês – utiliza diversos métodos de intimidação como o já conhecido assassinato de reputação, ligações anônimas na madrugada e até mesmo a prisão e a tortura que, evidentemente, estas últimas são praticadas em território sob o domínio do PCC, e as outras nos países em que chineses estejam temporária ou permanentemente residindo, conforme veremos futuramente no caso do Canadá em que a infiltração chinesa é tamanha a ponto de já haver políticos eleitos vinculados ao Partido Comunista Chinês.

Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.
Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.