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Brasil Paralelo – minhas impressões

O documentário sobre 64: grande feito ou obra de propaganda?

04/04/2019 19h24

O documentário do Brasil Paralelo “1964 – O Brasil entre armas e livros” acaba de bater uma marca histórica no documentarismo brasileiro. Em apenas 1 dia, ele chegou a três milhões de visualizações. Provavelmente, alavancou ainda mais a audiência a recusa do Cinemark em exibi-lo de novo. Apresentando justificativa ambígua e pouco convincente, o Cinemark alegava ter errado ao exibir o filme pela primeira vez, já que não se envolve com eventos de cunho político ou apoia divulgação de “mídia partidária” (veja aqui). Internautas logo começaram a questionar a exibição de outros filmes de cunho político como o filme sobre o Lula. Também levantaram a hashtag #BoicoteCinemark. Obviamente, trata-se de um fenômeno de publicidade. Mas, será que por trás do hype encontramos uma obra historiográfica séria ou um panfleto de propaganda pró-64? Pretendo aqui analisar apenas o conteúdo do filme, já que não entendo nada de edição audiovisual (que, de resto, me pareceu boa).

Ontem tive oportunidade de conversar com alguns amigos cuja opinião respeito. Divergimos. Eu defendi o filme, eles o criticaram com algumas razões que são relevantes para enquadrá-lo no contexto do debate sobre a ditadura militar. Creio que uma boa avaliação das minhas impressões pode aparecer tomando como pano de fundo tais opiniões divergentes.

A primeira coisa que me chamou atenção no filme é o tempo dedicado a se reconstruir o contexto da Guerra Fria. Apresenta-se um detalhado panorama do contexto da URSS e dos serviços de infiltração de inteligência. Neste sentido, o núcleo da primeira parte do filme é, sem dúvida, a pesquisa dos professores Mauro Kraenski e Vladimir Petrilác. Essa pesquisa consiste no exame direto dos documentos disponíveis no arquivo da República Tcheca, mais por uma casualidade biográfica do que por um projeto anteriormente delineado (veja aqui). Infelizmente, ainda não tive acesso ao livro do prof. Kraenski mas sei que, basicamente, ele pretende apresentar o maior número possível de evidências documentais da interferência do serviço secreto da Tchecoslováquia, a StB, no Brasil.

É um lugar-comum na historiografia sobre o comunismo afirmar que os serviços secretos dos países satélites tinham função amplíssima, que abrangia do controle da produção artística à intervenção de agentes em países estrangeiros, em nada devendo, neste particular, à eficiência do modelo moscovita. Vladimir Tismaneanu conta, por exemplo, que agentes da Securitate chegavam ao ponto de acompanhar e fazer uma lista de quem havia comparecido ao crematório onde foi cremado Mirel Costea, do Comitê Central do PMR, que havia supostamente se suicidado (1).

Dado o grau de controle, a quantidade de agentes e a abrangência do serviço dos países satélites não é inverossímil a ideia de que grande contingente de agentes lotados da StB estivesse no Brasil. Como ainda não li o livro do prof. Kraenski, é difícil para mim afirmar conclusivamente qualquer coisa neste sentido (por outro lado, algumas informações interessantes podem ser encontradas no site StB no Brasil aqui). As investigações de Kraenski, contudo, convergem com o relato em primeira mão do ex-agente da inteligência tcheca Ladislav Bittman, divulgado por Olavo de Carvalho desde 2001. Aliás, os escritos de Bittman fazem parte de uma tradição da historiografia anticomunista americana, a dos relatos de dissidentes do regime (I. Mihai Pacepa, Bella Dodd, V.Lunev e outros tantos), literatura que será crucial na reconstrução do panorama pré e pós-guerra fria. Mas voltemos: Bittman publicou um livro: The KGB and Soviet Desinformation: an insider´s view (2). Neste livro, o autor, dissidente de alta patente no serviço secreto tcheco, traz algumas informações extremamente perturbadoras. Ele diz, por exemplo, na página 8, que foi enviado a América Latina para operacionalizar a tática de propaganda antiamericana e encontrou um terreno fértil para fazê-lo. Nisso, ele menciona que o serviço secreto tcheco possuía jornalistas no Brasil e chega mesmo a afirmar que eles haviam comprado um jornal brasileiro. Obviamente isso converge com os dados trazidos pelo prof. Kraenski, muitos anos depois e do modo independente, segundo os quais havia uma folha de jornalistas alinhados em posse da StB. Um poucos mais adiante, na página 9, Bittman ainda conta três intervenções decisivas. Eles forjaram: a) uma falsa carta da agência americana de inteligência com os “novos princípios” da política externa americana b) uma série de circulares de uma instituição falsa chamada “Comitê para a Luta contra o Imperialismo Yankee” alertando contra agentes do FBI, CIA, lotados no Brasil c) a carta de J.E.Hoover para seu subordinado, Thomas Brady, atribuindo aos americanos o sucesso do golpe de 64.

A gravidade desse relato não pode ser subestimada. O grau de interferência estrangeira aí exibido é altíssimo e denota o seguinte fato: toda a historiografia sobre 64 precisará ser revisada à luz de fatos como esse. Normalmente, na historiografia corrente é salientada a interferência americana pelo programa “Hidden World War Three”, pelo papel de Kennedy e dos agentes americanos, o papel do embaixador Licoln Gordon, e assim por diante. Entretanto, o peso relativo desses fatores em 64 não deveria ser muito decisivo, haja vista que a StB precisou forjar um as provas para um vínculo muito mais íntimo. Outras perguntas que aparecem: o que mais pode ter sido forjado pela StB? Qual a extensão da atividade dos serviços secretos comunistas no Brasil? Nada disso ainda foi conclusivamente sopesado. Neste sentido, a popularização dessas investigações sobre a StB no Brasil é, já por si mesma, um evento de imensa relevância na cultura brasileira. Indo nesta mesma direção, o filme mostra outras interferências, já contempladas na melhor historiografia, como a de Cuba nas Ligas camponesas, através de Francisco Julião, documentado pelo arquivo Elio Gaspari da ditadura (veja aqui). Mostra os planos da esquerda revolucionária de tomar o poder fazendo de Jango um títere (Jango nunca foi comunista ele própria, mas era um trabalhista herdeiro do varguismo). Em tudo isso sobressai outra qualidade do filme: o tato histórico em fazer essas distinções. Lucas Berlanza, por exemplo, é quem explica essas nuances e o faz com muita precisão.

Se eu me alonguei nestes assuntos é porque eles são o essencial na delimitação do contexto histórico de 64. O mérito da primeira parte do filme reside em mostrar fatos e dados omitidos na narrativa oficial desses episódios. Diante disso, amigos acusaram o filme de “parcialidade”, argumentando que se deveria mostrar a participação dos americanos na preparação de 64. Há vários problemas com esse argumento: a) o relato de Bittman depõe contra essa tese, o que deve ser, no mínimo, levado seriamente em conta antes de repeti-la b) o filme faz menção a livros de esquerda que contam a história desde esse viés, os quais obviamente podem ser pesquisados c) há historiadores que afirmam que a participação americana foi tardia e não foi fundamental (veja a entrevista de Marco Antônio Villa aqui) e, finalmente, d) o fato brutal e incontestável que a narrativa hegemônica sobre 64 salienta a suposta intervenção americana. Não faz o menor sentido exigir que em um documentário voltado explicitamente a apresentar um contraponto a essa narrativa, já consolidada em numerosíssimos livros, teses, estudos monográficos, romances, novelas, filmes, documentários… esse recorte não tenha legitimidade, especialmente quando ele é amparado por sólido conjunto de evidências.

A segunda parte do filme, que se refere aos fatos propriamente ditos do regime de 64, não fica atrás em qualidade à primeira. Não se vê “apologia da ditadura”. O que se vê é uma tese de interpretação de 64 desenvolvida nos seguintes pontos: a) houve uma mobilização civil em prol da derrubada de Jango, visto como ameaça às instituições democráticas no Brasil b) o golpe militar aconteceu sob a promessa de realização breve de eleições diretas c) os militares criaram aparatos legais (os atos institucionais) para se prolongar no poder e destruíram a liderança civil d) o AI-5 foi desnecessário para combater as guerrilhas, pois os mecanismos constitucionais já eram suficientes (isso é explicitamente afirmado no filme) e) a estratégia de Golbery foi um erro f) a esquerda dominou a inteligência do país através do “marxismo cultural” ou, melhor dizendo, da junção entre Escola de Frankfurt e Gramsci.

Destes pontos, teria apenas uma divergência de formulação quanto ao ponto f, por considerar que o marxismo ocidental é apresentado de forma muito esquemática pela direita. Mas isso é assunto para outro tipo de artigo. O que se depreende destes pontos, a meu juízo corretos, é a inserção de uma ação militar no contexto dramático da guerra fria, salientando-se o papel do comunismo. O filme não se exime de fazer uma crítica à ditadura em si, entendida como prolongamento arbitrário de um estado de exceção que deveria ter cedido lugar à normalidade democrática já no primeiro ano. Ver nessa reconstrução uma pura e simples “apologia da ditadura” é ter muita má vontade para com o filme. Ademais, não há sequer apologia dos métodos violentos – por diversas vezes, a tortura é condenada, assim como são chamados os torturadores de “psicopatas”, os atos de maior arbítrio não são omitidos (eles colocam a foto de capa de jornal com Herzog). O que se fez, também de modo inovador, foi salientar os crimes dos guerrilheiros em contraste com os crimes do regime. Mostrou-se, deste modo, o papel subversivo da resistência armada, pulverizada nos vários grupos revolucionários como VAR-Palmares, Aliança Nacional, entre outros, resistência em geral apresentada como a luta de jovens idealistas contra assassinos sanguinários.

Então, o que você achou, finalmente, do filme? Achei um filme muito bem construído, de narrativa sóbria, que trouxe fatos cruciais ao exame do espectador. A escolha de quem nele contribuiu abarcou desde olavetes famosos como Silvio Grimaldo, Flávio Morgenstern, Thomas Giuliano, Bernardo Kuster até liberais não-olavetes como Lucas Berlanza (um destaque do filme, em minha opinião), Alexandre Borges, L.F.Pondé, e jornalistas experientes como William Waack e Aristóteles Drummond. E a parte mais importante é, sem dúvida, a divulgação do trabalho historiográfico do prof. Mauro Abranches. Sob todos os aspectos, esse filme é um marco no documentarismo brasileiro. Recomendaria a todos que o assistissem com a maior atenção, e certamente ele já está em meus melhores de 2019. Palmas para o Brasil Paralelo!

NOTAS:

(1) TISMANEANU, Vladimir. Do Comunismo, “Suicídios na Alta Nomenklatura Comunista: o caso Mirel Costea”

(2) BITTMAN, Ladislav. The KGB and Soviet Desinformation: an insider´s view.”

Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).