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China
A Política e o Partido chineses – Parte III e Final

Poucas foram as vezes em que se tentou um golpe militar na China

24/04/2019 15h10

No artigo anterior tratamos dos Grupos de Liderança e da importância que há na ideologia para a política partidária do Partido Comunista Chinês, já que serve para afirmar a posição daquele que se expressa demonstrando domínio sobre a ideologia. Hoje encerramos esta série de artigos tratando do controle das ideias, da importância do Exército da Libertação Popular e dos vínculos familiares.

Malgrado não seja possível controlar os pensamentos das pessoas, não deixa o Partido Comunista Chinês de agir com esse objetivo, conforme já era comum nos tempos de Mao Zedong que, aliás, fazia tal coisa com maestria como se vê ainda hoje com suas ideias norteando os membros do Partido. Diz-se que para saber se Mao ainda “governa” a China basta ver se seu retrato permanece na Praça da Paz Celestial – o retrato permanece.

Contrariamente, porém, aos tempos de Mao, em que seus pensamentos e a propaganda eram impressos, colados em cartazes na parede ou através de pinturas, na era digital o PCC precisa lidar com um ambiente ainda mais complexo cuja importância é ainda maior, conforme já disse o próprio Xi Jinping num discurso para membros do partido, em 2013.

(Antes é preciso lembrar que umas das reformas promovidas por Deng Xiaoping, para fins de impedir que coisas como a Revolução Cultural se repetissem, foi a de que os mandatos presidenciais tivessem limite, a saber, não mais que dois mantados consecutivos. XI Jinping, porém, mediante a influência que obteve sobre o “grupo dos sete”, conseguiu fazer com que a Constituição chinesa fosse emendada e permitisse a recondução indeterminada dos mandatos do presidente.)

Nesse sentido, o PCC criou o aplicativo Xuexi Quiangguo (“estude o país poderoso” em tradução livre) cujo objetivo é ensinar e fortalecer o conhecimento do “Pensamento de Xi Jinping”, intitulado oficialmente como “O Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para um Nova Era” (futuramente trataremos disso detalhadamente), pensamento este que ele expôs no Congresso do PCC em 2017. Requer-se dos membros do partido que usem o aplicativo diariamente para que acumulem pontos respondentes a testes sobre as políticas do partido, por exemplo.

Entretanto, conforme dissemos anteriormente, é sobre a narrativa histórica – atual e presente – que o PCC encontra a fonte que legitima seu poder perante os chineses; e assim, além das já imaginadas censuras promovidas pelo partido sobre qualquer conteúdo contrário ao governo e ao partido – “ideias contaminantes” – exercida não só por empregados como também por voluntários, o partido domina toda a mídia escrita e impressa do país.

Lembram quando o presidente Bolsonaro disse que a China estava comprando o país? E recentemente quando Olavo de Carvalho disse que não tem como fazer negócio com a China dissociado da política? Pois o Partido Comunista Chinês é o dono das empresas estatais e o mesmo partido é responsável pelos altos comandos da economia nacional, além de manter o controle do orçamento através da tributação das províncias que, caso se oponham, ficam sem recursos para sobreviverem.

Quanto ao seu orçamento, o partido é discreto, ou melhor, não presta contas a ninguém e não está sob auditoria de nenhum órgão, exceto quando o Congresso Popular Nacional faz fiscalização mínima sobre as despesas correntes uma vez por ano.

Outro centro de poder na China, como não poderia deixar de ser, é o Exército de Libertação Popular, considerando que o PCC não quer obter apenas o monopólio do poder político como também do poder bélico. Nesse sentido, o PCC detém o poder sobre o exército e os serviços internos de segurança. O exército é o último recurso de manutenção do poder político para aqueles que o detém e assim foi com Mao Zedong e Deng Xiaoping, aquele servindo-se dele durante a Revolução Cultural para evitar rebelião e traição, este para reprimir os manifestantes no Massacre da Paz Celestial.

Presidido por um civil cujo mandato advém da Comissão Militar Central, o Exército de Libertação Popular é o braço direito do PCC e tem como função garantir o fortalecimento da economia garantindo acesso a recursos e a estabilidade interna e externa do país. Notemos que Partido e Exército estão umbilicalmente ligados de tal modo que foram poucos os casos de membros do exército que tentaram dar um golpe militar, já que o destino tanto do exército quanto do partido é o mesmo e suas estratégias políticas e diretrizes são providas pelo Partido.

Os serviços de segurança tais como Ministério de Segurança de Estado, Departamento de Segurança Pública e Polícia Popular Armada cuja tarefa é empreender, tanto em âmbito nacional como estadual, ações contra os assim chamados separatistas, subversivos e criminosos comuns, embora não tenham a mesma relevância que um dia tiveram no século passado, são ferramentas de apoio ao Exército de Libertação Popular, mas que estão sob o controle total do Partido.

Afinal, outro núcleo de poder a ser considerado na República Popular da China é o composto por famílias poderosas consistente em 200 famílias, das quais, porém, apenas 30 exercem verdadeira influência na esfera política do país. Evidentemente, as famílias que mais exercem influência estão vinculadas a quem deteve o poder máximo na história chinesa tais quais a de Deng Xiaoping e a de Jiang Zemin (que cuida da área de telecomunicações) ao lado da família do ex-premiê, Li peng, tido como um dos principais responsáveis pelo Massacre da Paz Celestial, que tem exercido grande influência no setor estratégico de energia e a família do ex-primeiro-ministro, Zhu Rongji, responsável pelo setor de finanças da China. Ao contrário do que se possa pensar, embora a família de Mao Zedong ainda detenha algum poder, embora de forma mais independente, seu neto Mao Xinyu é mais conhecido por seus comentários irrelevantes e seu estilo frívolo, afinal de contas Mao nunca se importou muito com laços familiares.

Assim, encerramos esta série de artigos sobre a política e o partido chineses com a esperança de termos informado seus aspectos mais relevantes, embora de forma ainda um tanto sintética dada as limitações da coluna e seu caráter introdutório. Por sua própria relevância os temas aqui tratados voltarão a ser comentados no futuro.

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Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.

Natural de São Paulo, mas residente em Salvador, é ouvinte de Alborghetti desde 2005, leitor de Olavo de Carvalho desde 2007 e membro do MBL-BA e articulista para assuntos chineses do MBL Nacional desde 2019. Suas principais influências na escrita e no pensamento são Oscar Wilde, Camilo Torres, Arthur Schopenhauer, Roger Scruton, Santo Agostinho, Machado de Assis e outros.