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China
A Política e o Partido chineses – Parte II

Para Xi Jinping, o marxismo é o sol que ilumina a humanidade

10/04/2019 13h20

Como vimos no artigo anterior o Partido Comunista Chinês tem três pilares que lhe dão legitimidade para exercer poder sobre os chineses e sua principal fonte de poder reside no controle da narrativa histórica lançando-se como protagonista da unificação da República Popular da China após anos de terra devastada e dividida por forças estrangeiras. Além disso, adentramos na estrutura organizacional do partido e no funcionamento da política chinesa, demonstrando que para Xi Jinping comandar mais de 1 bilhão de chineses antes precisa exercer influência sobre um grupo seleto de 7 deles. Hoje vamos aprofundar um pouco mais os aspectos da estrutura organizacional do partido e do funcionamento da política chinesa.

Na organização de um partido, ou mesmo de uma empresa, é necessário que haja disciplina e aquele que exerce o papel de determina-la e fiscalizá-la detém grande poder sobre seus subordinados. Na China atual o órgão responsável por isso é a Comissão Central de Disciplina e Inspeção. A este órgão cabe promover vistorias e campanhas anticorrupção e, acima de tudo, tem o poder de cobrar disciplina dos membros do Partido em interesse do próprio Partido.

Outras “instituições” importantes são os Grupos de Liderança, que se tornaram comuns a partir da Revolução Cultural, pois um desses grupos, presidido pela mulher de Mao Zedong, Ministra da Cultura Jiang Qing, era o principal instrumento de pressão dos Guardas Vermelhos que perseguiam e matavam os, assim chamados, “Inimigos do povo”.

O sujeito capaz de exercer influência em tais grupos é quem melhor se qualifica como líder. Assim sendo, não é de estranhar que Xi Jinping seja o atual presidente da China, considerando que na China há oito grupos de liderança dos quais ele já presidiu os quatro mais importantes. Quais sejam: (1) Grupo de Liderança de Reformas Gerais; (2) Comissão de Segurança Nacional; (3) Assuntos Internacionais; (4) e Assuntos de Taiwan.

Após Xi Jinping, quatro de seus colegas presidiram outros quatro grupos de liderança. Quais sejam: (1) grupo econômico por Li Keqiang; (2) Assuntos de Hong Kong e Macau por Zhang Dejiang; (3) grupo de criação de diretrizes para funcionamento e estrutura do partido comunista por Liu Yunshan; (4) e para Assuntos Legais e Políticos por Meng Jianzhu que está no Polituburo de 25 membros, mas não no Comitê Permanente de 7 membros de que tratamos anteriormente.

A grande jogada por detrás desses grupos de liderança está no fato de que são responsáveis por formularem as políticas de alto-escalão para que os outros membros ponham em prática, de modo que possuem grande poder e nenhuma responsabilidade além de poderem atuar sem grande transparência, talvez por isso estejam amparados pela Constituição do Partido e não pela Constituição do país.

Outro aspecto importante da política e do partido chineses, malgrado o que se convencionou dizer, é a ideologia.

Desde a era maoísta, ter domínio sobre a ideologia e sobre a mentalidade das pessoas é ter uma garantia a mais de manutenção do poder político, já que a história chinesa é marcada por sublevações e derrubadas de governos, não bastando, portanto, a mera coerção para que aquele que detém o poder o mantenha por décadas como foi com Mao Zedong.

Talvez seja irrelevante para o povo chinês e para estrangeiros como nós, mas para a elite do partido a ideologia é o que “separa meninos de homens”, posto que além de ser presente nos documentos internos do partido ela é requisito fundamental para quem desejar alcançar o poder político na China. Não é estranho, portanto, que até hoje a China celebre o aniversário de nascimento de Karl Marx e na ocasião do bicentenário de seu nascimento, o presidente Xi Jinping, em seu discurso, declarou que o legado mais importante e influente de Karl Marx foi a teoria nomeada de “marxismo” que ele, Xi, considera como um magnífico nascer do sol que ilumina a humanidade e compõe as ideias e a alma dos comunistas chineses.

Nesse sentido, prossegue Xi Jinping, exortando os oficiais do partido a estudarem com atenção o marxismo-leninismo; os pensamentos de Mao Zedong; a teoria de Deng Xiaoping; a Teoria das Três Representações de Jiang Zemin; a Teoria do Desenvolvimento Científico; e em pensar o socialismo com características chineses para o advento de uma nova era.

Expressar-se dessa informa indica que aquele quem fala está situado no ponto que liga influência à autoridade. Não se trata de comunicação, mas de afirmar sua posição no partido, não importando se os outros membros não dão ouvidos, mas que aquele que profere esse discurso ocupa lugar privilegiado, demonstrando que o partido possui muito mais que costumes e narrativas como também linguagem própria.

Se ideologia importa quão importante é ter o controle de ideias? E o Exército de Libertação Popular, qual sua importância e influência no Partido Comunista Chinês? Se o neto de Mao não é importante, significa que laços familiares não são importantes? Há ainda muita coisa importante na política e no partido chineses e é o que veremos na próxima coluna.

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Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.

Natural de São Paulo, mas residente em Salvador, é ouvinte de Alborghetti desde 2005, leitor de Olavo de Carvalho desde 2007 e membro do MBL-BA e articulista para assuntos chineses do MBL Nacional desde 2019. Suas principais influências na escrita e no pensamento são Oscar Wilde, Camilo Torres, Arthur Schopenhauer, Roger Scruton, Santo Agostinho, Machado de Assis e outros.